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Crítica

Ouvimos: Of Monsters And Men – “All is love and pain in the mouse parade”

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Após seis anos, Of Monsters And Men volta com um disco indie folk mais real e celestial, que fala de saúde mental, amor em desgaste e franqueza emocional.

RESENHA: Após seis anos, Of Monsters And Men volta com um disco indie folk mais real e celestial, que fala de saúde mental, amor em desgaste e franqueza emocional.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Virgin
Lançamento: 17 de outubro de 2025

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Sumida da Silva há seis anos, a banda islandesa Of Monsters And Men retorna com All is love and pain in the mouse parade, quarto álbum numa carreira que existe desde 2010. Os álbuns do grupo sempre tiveram de dois a três anos de intervalo entre cada um, mas dessa vez o tempo sem novos lançamentos foi maior – e possivelmente a pandemia deu uma traumatizada no processo, já que a banda precisou interromper uma turnê e criar novas formas de divulgação do disco anterior, Fever dream (2019).

Não foi apenas isso: “Alguns membros da banda começaram a trabalhar em outros projetos, tivemos bebês… a vida acontece”, contou Nanna Bryndís Hilmarsdóttir, cantora, guitarrista e cidadã islandesa dotada de um olhar tão enigmático quanto o da conterrânea Bjork, ao site Songwriting Magazine. Parar pra observar a vida acabou fazendo bem ao grupo – fez inclusive de All is love and pain um álbum que soa bem mais real do que os anteriores do Of Monsters And Men, palpável e celestial simultaneamente.

  • Ouvimos: Hot Chip – Joy in repetition (coletânea)

O grupo recorre a imagens quase de contos de fadas para falar sobre saúde mental (Tuna in a can), conversas silenciosas (Television love), inadequação (Barefoot in the snow), a vontade de ser apenas uma pessoa comum que precisa de uma conversa reconfortante (Ordinaty creature), amor que vai desaparecendo (The actor), carinho pelo passado (The towering skyscraper at the end of the road) e até sobre a ocasião em que ratos, assustados com o frio, invadiram o estúdio do grupo (é o verdadeiro tema da faixa Mouse parade).

Não é o tipo de som indicado para quem curte música perigosa ou irônica: se você pegar uma banda como Pulp ou até Oasis, vai perceber que Of Monsters And Men fala de sentimentos de verdade, vividos por pessoas de verdade – algo até mais indie, interiorano. O som do disco foca mais no indie folk tristinho e celestial, ainda que beats dançantes possam ser ouvidos aqui e ali.

Esse é o som de Dream team, do pós-britpop Television love, de The actor, do folk delicado e angelical de Fruit bat, do som quase fantasmagórico de Kamikaze. Styrofoam cathedral, música “espacial” e meditativa que vai crescendo e ganhando cara indie rock, soa como manifesto: “lá vou eu para minha catedral de isopor / longe das sirenes e dos supermercados / estacionamentos lotados e corredores fervilhantes / espero que você entenda / eu sou sinceramente imperfeito” (a última frase é bastante repetida ao longo da letra).

O folk anos 1970 The end, com violões e canto em dupla (de Nanna e Ragnar Þórhallsson) encerra All is love and pain in the mouse parade com uma proposta de paz apesar de tudo: “acordando pouco antes do noticiário da manhã / alguém disse que o mundo está acabando / algo está caindo do céu / mas tudo bem para mim, assim é a gravidade / tudo por aqui vai acabar caindo (…) / olhos tristes, não fiquem tristes / virem-se, não olhem para baixo”, cantam, ainda que algo parece interrompido e inconcluso no fim. No final, não fica claro se o bem vence o mal, mas a proposta do Of Monsters And Men é encarar o cinismo com franqueza.

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Crítica

Ouvimos: Joyce Manor – “I used to go to this bar”

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I used to go to this bar, oitavo disco do Joyce Manor, mistura pop-punk, power pop e pós-punk: melodias à Weezer, sarcasmo adulto e uma tristeza punk persistente.

RESENHA: I used to go to this bar, oitavo disco do Joyce Manor, mistura pop-punk, power pop e pós-punk: melodias à Weezer, sarcasmo adulto e uma tristeza punk persistente.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 30 de janeiro de 2026

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Um amigo ouviu esse oitavo álbum do Joyce Manor, grupo de pop-punk de Los Angeles, e deu uma definição pra lá de certeira: “é como se o Green Day tivesse surgido em 2008 e não em 1988, e tivesse ouvido a discografia dos Guided By Voices quando estava aprendendo a compor”.

Faz todo sentido, e vale esticar mais ainda a definição: I used to go to this bar mostra uma banda fissurada por estilos como power pop, rock sessentista, pop anos 80 e pós-punk. Tudo de melódico que outra banda canalizaria para a onda emo, é canalizado para fazer lembrar grupos como Weezer, o já citado Guided By Voices, Replacements e até Talking Heads.

  • Ouvimos: Wet For Days – Wet For Days

Equilibrado entre saudades, sarcasmo e rios de lágrimas – e produzido por Brett Gurewitz, criador do Bad Religion e do selo Epitaph, onde a banda grava – o Joyce Manor mete bronca num punk com alegria triste, que lembra uma mescla de anos 1980 e 1990 nas duas primeiras faixas, I know where Mark Chen lives e Falling into it. Surge um combo Weezer + Beatles em All my friends are so depressed, bem como uma citação breve da intro de Faith, de George Michael, em Well, whatever it was – embora a faixa mude para algo entre o power pop e o punk.

O Joyce Manor também faz lembrar a classe e o ataque do Clash em Well, don’t it seem like you’ve been here before? , além de mandar bala em evocações do pós-punk dos anos 2000 em After all you put me through e a faixa-título. Em meio a vários comentários sobre o que é ficar adulto (ou coroa) com a mesma vontade de quebrar tudo que você tinha aos 15, destaque para a morte e as perdas trágicas rondando o dia a dia, na faixa-título e em Grey guitar, punk dolorido a la Paul Westerberg, que encerra o álbum (“eu disse que acho que Danielle está morta / não sei exatamente por quê / mas algo me atingiu como um raio / agora eu vejo como ela morreu / um tijolo de chumbo no lugar dela”). Não é mole.

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Ouvimos: Adult Leisure – “The things you don’t know yet”

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Adult Leisure mistura pós-punk 1980s e indie 2000s com guitarras pesadas. Estreia flerta com Cure, power pop e melancolia.

RESENHA: Adult Leisure mistura pós-punk 1980s e indie 2000s com guitarras pesadas. Estreia flerta com Cure, power pop e melancolia.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de outubro de 2025

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Vindo de Bristol, o Adult Leisure leva a sério o nome “lazer para adultos”. É uma banda novíssima que faz som misturando o pós-punk dos anos 1980 e o indie dos anos 2000, só que colocando bastante peso nas guitarras. The things you don’t know yet, primeiro álbum da banda, promove uma mistura sonora que faz lembrar ate formações esquecidas como o Wax (lembra do hit Right between the eyes, de 1986?) em faixas como Hold me close (Before you go) e chega perto de grupos como Psychedelic Furs e Roxy Music, no cuidado melódico de Kids like us, Kiss me like you miss her e Heartbreaker.

  • Ouvimos: Jenny On Holiday – Quicksand heart

Com um esquema sonoro que varia do balanço funky e elegante a uma onda quase power pop, daria para dizer que fãs do Cure não vão se arrepender se derem uma chance ao Adult Leisure. Essa onda toma conta de Boy grows old (que faz lembrar também Idlewild e Nada Surf), The rules e Dancing don’t feel right, músicas com argamassa pós-punk e brilho pop. She her tem riff de saxofone (feito por John Waugh, colaborador de The 1975) e emanações de Bruce Springsteen.

No final de The things you don’t know yet, uma surpresa bem diferente: The river tem clima melancólico e vibe estradeira e quase grunge, com cordas. O Adult Leisure não dispensa a introversão em letras e melodias durante todo o álbum, mas preferiu encerrar o disco com sua canção mais introspectiva, como que para mostrar um outro lado. Vale conhecer logo esse grupo.

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Ouvimos: Flau Flau – “Íntimo oriental”

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Flau Flau estreia com Íntimo oriental, disco que cruza intimidade, Paraíba, pop psicodélico e soft rock para falar de memória, afeto e vida adulta.

RESENHA: Flau Flau estreia com Íntimo oriental, disco que cruza intimidade, Paraíba, pop psicodélico e soft rock para falar de memória, afeto e vida adulta.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Dosol
Lançamento: 7 de novembro de 2025

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Flau Flau é o nome artístico da compositora paraibana Flavia Belmont. Em Íntimo oriental, seu disco de estreia, ela une referências que só estavam esperando para serem misturadas. O nome do álbum aponta para uma geografia particular da Paraíba, juntando seu universo pessoal, e o fato do estado ficar no ponto mais oriental das Américas.

Essa mescla de íntimo e público é o combustível das letras de Íntimo oriental. O shoegaze Johnny People, que encerra o álbum, põe em letra e música um passeio pela capital João Pessoa em que pontos de referência mudaram e muita coisa virou memória (“os prédios baixos estão crescendo alto / nessa cidade, o vento leva e traz minha saudade”, diz a letra). Ultraviole(N)Ta lança mão de surpresas na melodia para falar das surpresas, boas e ruins, da vida adulta. Faixas como Meu tudo azul, Amor ou delírio e Jomo (uma sigla para “joy of missing out”, brincadeira com FOMO ou “fear of missing out”) são pedidos de paz e alguma estabilidade emocional em meio ao moedor de carne do dia a dia.

  • Ouvimos: Olivia Dean – The art of loving

Musicalmente, Íntimo oriental é uma mescla de soft rock + pop adulto nacionais dos anos 1980, psicodelia e sons derretidos, como se tivessem sido misturados no mesmo liquidificador de bandas como King Gizzard & the Lizard Wizard, Tame Impala (na fase Lonerism, 2012) e Tagua Tagua. Tons solares e hipnóticos tomam conta de faixas como Só o tempo, Ultraviole(N)Ta, o manifesto Free to e o interlúdio Llllivre. Faixas como Lua cheia, cachorro doido e Meu tudo azul trazem referências de Marina Lima – cujo som paira sobre boa parte do repertório – em meio a um clima próximo do lo-fi.

Jomo leva o pop transante dos anos 1980 (Robson Jorge & Lincoln Olivetti, Caetano, Gil e a própria Marina Lima) para visitar universos bem mais psicodélicos. E Bye bye, com participação de Dinho Almeida, dá adeus aos sabotadores da vida, numa onda que mistura a viagem sonora de Flaming Lips e a onda boa de Rita Lee: “se eu piso torto / quem vai vir me atormentar? / sabotador, bye bye / posso ser doido perto dos outros / mas o que eu penso tem valor demais (…) / hoje tem festa em mim / mas só pra quem somar”.

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