Cultura Pop
Marília Mendonça: comece a ouvir

Pensamos em fazer um “Marília Mendonça: descubra agora!” nos moldes do que a gente vem fazendo com uma série de artistas – recentemente rolou até um texto desses no POP FANTASMA com os popularíssimos Tears For Fears. Nada a ver: descobrir Marília Mendonça, o Brasil já descobriu faz tempo. Mas vai aí uma pequena lista de doze faixas da cantora, que morreu na sexta (5) num acidente aéreo em Minas Gerais.
A discografia de Marília tem alguns detalhes bem interessantes, que mostram até mesmo como o mercado musical andou sofrendo modificações drásticas na última década. Marília era pródiga em feats (tanto de gente nas canções que ela lançava quanto dela mesma cantando em músicas de amigos) e seu trabalho era focado basicamente em EPs, singles e álbuns ao vivo.
Tanto que álbum de estúdio, de verdade, ela só tem um, lançado em setembro de 2020 – era Patroas, dividido com Maiara e Maraisa. O projeto com a dupla tinha nascido de uma live, virou uma série de EPs e mais um disco inteiro. Marília também focava em vários EPs e singles ajudando a divulgar as músicas dos discos ao vivo. Isso aconteceu no recente projeto ao vivo Todos os cantos (2019), que também virou documentário na Globoplay, e que já havia partido de outra inovação: vários shows da artistas pelas capitais do Brasil, com uma faixa nova gravada em cada canto do país.
E segue aí a lista. Que faça futuros (as) fãs.
“ESQUEÇA-ME SE FOR CAPAZ” (com Maiara & Maraísa). A canção mais ouvida de Marília na plataforma Spotify nos últimos dias – aliás foi a última música lançada por ela. Faz parte do projeto Patroas, mas juntou-se aos singles lançados depois que o álbum inteiro saiu. No clipe, o trio aparece incorporando diferentes personagens (de garis a piloto de avião) e vivendo situações em que precisam ajudar outras mulheres.
“IMPASSE” (com participação de Henrique e Juliano). Apesar de ter se notabilizado como compositora no começo da carreira, Marilia teve um de seus primeiros singles, em 2015, com uma música que não era dela – Impasse era do trio Ivan Medeiros, Marcelo Melo e Vivi Abreu.
“INFIEL”. A música que ajudou a puxar o DVD Marília Mendonça ao vivo (2016), o ponto inicial do feminejo. E que pôs no inconsciente coletivo a imagem de “rainha da sofrência”. A letra veio de uma história real: uma tia da cantora tinha sido traída e inspirou a canção (que teve letra e música feita por Marília). Na história, a personagem procura a mulher com quem seu namorado/marido/o que valha estava mantendo um relacionamento paralelo, e manda a real. “Essa competição por amor só serviu pra me machucar/Tá na sua mão, você agora vai cuidar/De um traidor, me faça esse favor”.
“TROCA DE CALÇADA”. Outra canção de Marília lançada em 2021 e que não chegou a fazer parte de nenhum álbum – e saiu no meio da continuidade do projeto Patroas. A letra é solidária com as mesmas personagens que Odair José cantou em Eu vou tirar você desse lugar. “Hoje você me vê assim e troca de calçada/mas se soubesse um terço da história, me abraçava/e não me apedrejava”, cantou Marilia (por sinal, corajosamente, em primeira pessoa).
“SENTIMENTO LOUCO”. Primeiro single de Marilia, lançado em 2015, e que depois foi para o DVD Marilia Mendonça ao vivo. A letra, cantada em primeira pessoa, trazia os sentimentos e pensamentos de uma mulher que se relacionava com um sujeito casado. “E a gente faz amor/me diz que sou o seu amor/e vai embora antes do dia amanhecer”, diz o refrão. “Foi a primeira música que a gente colocou no mercado e já foi arriscado. As pessoas viam mulheres cantando no mercado, mas não viam mulheres cantando isso”, contou Marilia a Leo Dias.
“AMANTE NÃO TEM LAR”. Um dos hits do DVD Realidade (2017), gravado ao vivo em Manaus. Letra triste, com uma perspectiva mais sombria do dia a dia de uma amante – e que, por extensão, acaba tocando em feridas sérias de moralismo, rejeição e incompreensão. “O preço que eu pago/é nunca ser amada de verdade/ninguém me respeita nessa cidade”.
“TODO MUNDO VAI SOFRER”. A letra de um dos maiores sucessos de Marília (quase 400 milhões de visualizações no YouTube) é pura sofrência, mas dá pra divertir, graças a versos como “a garrafa precisa do copo/o copo precisa da mesa/a mesa precisa de mim/e eu preciso da cerveja” e “se por ele eu sofro sem pausa/quem quiser me amar/também vai sofrer nessa bagaça”. Saiu no Todos os cantos, vol. 1.
“MEU CUPIDO É GARI”. “Cupido amador/uma decepção me trouxe um amor/encomendado do lixão”. Penúltima (e bem humorada) música do DVD Marília Mendonça ao vivo, de 2016.
“SUPERA”. O hino da superação gravado por Marília no Todos os cantos era, na verdade, um redesenho feminino de uma canção composta por quatro homens: Hugo Del Vecchio, Henrique Moura, Luan Moura e Montenegro. O paranaense Hugo já havia gravado sua própria canção em 2018. Marília trocou um dos versos (“você é forte, mulher, supera”, virou “de mulher pra mulher, supera”) e criou mais um hino do feminejo.
“CIUMEIRA”. Outra do Todos os cantos, abria soando como uma espécie de recriação bachata de Wicked game, de Chris Issak. Outro grande refrão, como o de Infiel.
“HACKEARAM-ME” (Tierry com participação de Marília Mendonça). O cantor baiano de arrocha, que declarou que vai fazer uma canção para Marília, lançou essa música no ano passado com participação dela e conseguiu mais de 150 mil visualizações no YouTube. Na letra, a personagem avisa que se chegar um “volta pra mim” pelo WhatsApp, é porque o número dela foi hackeado por algum espertinho. Por causa disso, a canção chegou a ser citada num artigo sobre hackers e declaração de autoria na internet.
“CUIDANDO DE LONGE” (Gal Costa com participação de Marília Mendonça). A música composta por Marília ao lado de Juliano Tchula, Junior Gomes, Vinicius Poeta foi gravada por Gal no disco A pele do futuro (2019) com a autora fazendo um feat – e backing vocals de Céu, Filipe Catto e Maria Gadú. Gal falou comigo para o jornal O Dia quando o disco foi lançado e contou que teve dificuldade para achar Marília. “Eu tentei contato com ela, para explicar o que eu queria, mas ela troca muito de telefone! Quando mandei mensagem, o telefone não era mais o dela. Mas o Marcus (Pretto, produtor) falou com o Juliano Tchula, que compõe com ela. Ela me mandou dez músicas”, contou. No fim, foi só elogios: “Ela é um diferencial. Tem uma maneira muito própria de compor e de cantar”.
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.
Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
- Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.
O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
- Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
- E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.


































