Cultura Pop
Laura Finocchiaro: um papo sobre música, reality shows e independência

O papo que o Pop Fantasma bateu com a gaúcha Laura Finocchiaro passou por vários temas: seus 40 anos de carreira independente, o lançamento do novo disco, Oxigênio (que foi gravado em seu quarto durante o ano de 2020 e serviu para ela como “um alívio” em meio à pandemia), sua militância contra o machismo e a homofobia. Mas a conversa chegou em mais detalhes: a luta pessoal de Laura contra o jabá na música, seu amor e devoção à obra da irmã Lory F (morta em agosto de 1993 e que ganhou uma homenagem em Porto Alegre no ano passado) e… o período que Laura passou trabalhando na TV.
Pois é, Laura fez canções para o infantil TV Colosso (saíram até no disco do programa) e passou um bom tempo cuidando da produção musical de reality shows, como o Casa dos artistas, do SBT e A fazenda, da Record. No primeiro, sonorizou as cenas de romance entre Supla e Bárbara Paz e chegou a trabalhar mais de 30 horas seguidas – a história da entrada de Laura na equipe, por sinal, rende lances que mais parecem história de espionagem. Na conversa a seguir, ela relembra essa época com detalhes e volta lá no comecinho da carreira.
Foto: Marian Starosta/Divulgação
Como você tá vendo esses 40 anos de independência? E como foi a opção pela independência?
Então, a opção veio quando me dei conta nos anos 1980, quando eu saía em todas as revistas … Porque eu era novidade, né? E o mercado precisa de novidade.
Eu me lembro.
Aí chega uma mulher, guitarrista. A partir de 1981 eu comecei a empunhar minha guitarra e meu primeiro show foi oficialmente em 1982. O nome era Minha grande paciência ser gente. Era meu show autoral, onde eu comandava a banda, que era gigantesca: sax, percussão, bateria. Eu que fiz os arranjos, eu que dirigi, fiz os arranjos dos backings. Como foi 1982 eu marco 40 anos, foi o primeiro show. Antes eu cantei com o Taranatiriça, o Gordo Miranda (o produtor Carlos Eduardo Miranda) montou essa banda. O primeiro show que eles fizeram, fiz backings pra eles. Mas isso era 1979, 1980. Depois veio o Carlinhos Hartlieb, um grande compositor gaúcho, que fez um trabalho incrível de rock no Sul. E foi no show dele que ele me deu o primeiro espaço para fazer uma música minha.
Comecei a compor por volta de 1980, quando me apaixonei pela primeira mulher da minha vida. Foi por causa da poesia e da voz dela. Desde criança e adolescente eu que animava as festas dos meus pais. Aprendi violão aos nove anos, quando fui para a primeira aula, de mãos dada com a Lory F, minha irmã, grande roqueira. Aliás, tu vai ter que mergulhar na obra dela, hein?
Claro!
Esse ano ela foi iluminada, 28 anos depois da morte dela, a Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, fez um palco com o nome Lory F. Veio também a exposição, um documentário que já tem mais de mil visualizações, e foi feito por um jovem de 23 anos. Tem shows, lives… Eu consegui relançar o disco dela, que fui eu que mixei depois da morte dela. E o disco entrou para os 50 melhores discos de rock do Sul, o Lory F Band. A vida inteira eu a homenageei mas esse ano fiz um show a ela, Tributo a Lory F no dia mundial da aids, em São Paulo.
Até hoje, por causa da morte da Lory, me tornei uma artista militante. Passei a ter que entender a morte, porque eu não aceitava, ela era minha vida, minha parceira. Foi ela que me levou para o rock, ela era minha baixista, a gente tocava juntas, ela que me acompanhava. Minha paixão pela música é igual até hoje. Esses dias o Luizinho do Duofel (Luiz Bueno) me viu tocando e me disse: “Laura, tu parece uma criança tocando, você toca de um jeito adolescente”. Ele que me fez perceber como eu sou criança até hoje. Fiquei naquele lugar da paixão pela música.
Eu vim para São Paulo nos anos 1980 fazer um show no Lira Paulistana, fiquei dez anos fazendo show aqui, fui revelada por Veja, Isto É, Folha, JB, aparecei em tudo quanto é lugar. Cheguei dez anos depois no Rock In Rio (Laura participou da segunda edição, em 1991), mas não conseguia entrar no mercado porque eu tenho essa ingenuidade. Faço música com amor e eu não consigo. Vejo essa putaria, o quanto esse mercado da música brasileira é vazio de arte. Só tem gente corrompendo, pagando pra fazer sucesso, os produtores não sabem escrever uma partitura, são uns merdas. A maioria é embuste. Não vou cair numa roubada dessas por causa de sucesso.
Nos anos 1980 eu ia nas rádios e falavam: “Só posso tocar se tu pagar mil reais por mês”. E meu show estava arrebentando. Nos anos 1990 procurava as rádios e era 40 mil, 20 mil reais… Vim para São Paulo só com a passagem de vinda, não tinha dinheiro para voltar. Mas eu dei até mais que meu sangue pela minha carreira. Com 40 anos de luta, eu não sabia que seria tão difícil. Quando eu estive na TV qualquer coisa que eu quisesse eu conseguia, né? Mas aí eu tinha um crachá. Mas minha história é fazer música, fazer rock.
E eu me sinto roqueira mas não sou rock´n roll. Lembro que fui no programa do Serginho Groisman quando fiz o Rock In Rio e um garoto ligou para la e reclamou que eu não era roqueira! Até o Serginho falou: “Mas como vocês são caretas! Ela não faz rock mas ela é roqueira, tem atitude!” Hoje eu entendo que tenho atitude porque ninguém me compra. Hoje até essas merdas de banner do Spotify e impulsionamento de Facebook me revoltam. O Facebook não é honesto. Se você pagar 5 reais não resolve nada. Tem que pagar 500. Só que no outro você tem que pagar 1000, no outro 1500, é que nem uma progressão geométrica. Esses algoritmos comem o negócio.
Então respondendo sua pergunta lá do começo, é como se eu estivesse começando (rindo)... O Sesc me encampou no começo e hoje ninguém lá me atende, aliás em lugar nenhum. Só vou conseguir manter minha carreira se passar em editais. O primeiro edital que eu passei foi o da Lei Aldir Blanc, porque aí os artistas já estavam passando fome e eles passaram todo o mundo. A Benedita da Silva (PT) é responsável por isso, ela que levou adiante. Foi a primeira vez que tive ajuda federal na carreira, daí fiz três videoclipes novos. É um projeto que se chama Laura Finocchiaro Live Show. Contratei uma equipe e consegui dar um hype na minha carreira enquanto eu gravava o disco novo, Oxigênio, que eu quis gravar no meu quarto. A essa altura, em 2019, eu já estava cheia de música nova, com uma letra inédita do Jorge Salomão…
Muito linda a letra, por sinal.
É demais, não é? E quando eu vi aquela letra, pensei: é impossível de musicar. Porque não tem um refrão. Eu fui deixando a letra mais pop, tirei umas coisas. Era difícil de fazer, mas falei: eu vou fazer. Falei que ia fazer um disco em casa, sozinha, e fiz. Não tinha nenhuma gravadora, tentei Biscoito Fino, várias, ninguém quis. Aliás, ninguém nunca me quis. Eu tenho a máquina em casa, sou formada em áudio, faço música eletrônica desde os anos 1980 e fui pioneira em música eletrônica no Brasil.
Dessa vez fiz sozinha, mas lá pelo meio do caminho, o Hans Zeh, que é meu amigo desde sempre, é produtor, é técnico de som, trabalhava com o RPM, me ofereceu ajuda. Ele produziu duas músicas porque eu queria ter pelo menos onze e não estava dando tempo. Demora muito tempo fazer tudo, eu escrevia a música, a partitura, os arranjos, depois pré-produzir…
Você compõe no violão mesmo? Como é a composição?
Faço de várias formas. Às vezes vem da cabeça, quando eu estou andando, aí vem a letra, uma ideia, e escrevo. Aí faço a harmonia em cima da letra. Às vezes um parceiro me dá uma ideia. Os parceiros que eu tenho, eu que inventei. Eu os obrigo a fazer letra. Tu já tá convidado também!
Opa!
É, eu peguei muito jornalista que nunca tinha escrito letra, o João Luiz Vieira por exemplo é jornalista. Falei: “Escreve sobre o vírus no Brasil, sobre o lockdown, sobre o Bolsonaro”. Ele escreveu Vírus. Só que não era exatamente aquela métrica, aí eu venho e faço a métrica.
Eu ia até perguntar sobre isso: por que é que tem dois jornalistas compondo com você?
Porque eu gosto, todos os meus casamentos foram com jornalistas (rindo). Apesar de eu amar músicos nunca casei com um. Preciso de uma coisa que não seja igual a mim e que me desafie. E jornalistas desafiam! (risos) A Cilmara Bedaque, uma das minhas primeiras parcerias, era jornalista e nunca tinha escrito letra, não se considerava letrista. E fizemos várias. A Vange Leonel (cantora, compositora e esposa de Cilmara, morta em 2014) gravou com a banda dela, Nau, Linha esticada, que é uma das músicas mais lindas que eu tenho, e a interpretação dela é linda.
No começo da carreira, com quem comparavam mais você?
Sempre me comparavam com Rita Lee e Cássia Eller, aqui do Brasil. Fora daqui era Joan Baez, Patti Smith, Bjork, por aí. Até Madonna!! Já tive meus tempos de Madonna. Talvez se a grande indústria tivesse investido em mim na época do Rock In Rio eu virasse a Madonna! Eu fazia aula de dança, tinha bailarinos, coreógrafos, fui a primeira mulher a misturar eletrônico com acústico no palco, usando gravações.
Na época nem tinha MIDI, podia dar um pau. Tinha que pré-gravar e levar em DAT. O Prince fazia isso em ADAT e levava 48 canais pré-gravados. Eu tava no palco do Prince no Rock In Rio e vi como ele fazia. Embaixo do palco dele tinha um japonês vestindo um terno Armani, a coisa mais chique, comandando uma sala técnica que era um estúdio. E embaixo do palco dele! Ali eu entendi como faziam shows ao vivo, aqueles espetáculos. Se eu estivesse lá fora, eu era milionária. Imagina, eu fiz TV Colosso…
Você fez várias músicas do disco da trilha do programa, não foi? Como foi isso?
Eu que inventei essa coisa de música de pista para crianças! Eu já vivia na pista. Quando me encomendaram as músicas, foi me inspirar nas pistas de dança. Só que eu peguei o groove eletrônico das pistas que eu convivi. Conheço isso, sou gay, conheço os gays, isso é dos gays.
Por mais que depois o Tutinha tivesse vindo inventar de fazer aquela merda de música eletrônica que tocava na Jovem Pan, aquilo é coisa de heterossexual que não conhece o mundo underground. Underground é pra quem dá o c… e quem dá o c… é gay, eu sou amiga dos gays! Desculpa, mas fui bem literal (rindo). O hetero não tem a vivência do underground, e a música eletrônica é do underground. Essa música eletrônica de pista é uma merda…
E ficou muito banalizada essa coisa da música eletrônica para dançar.
Ficou! Quem tomou conta foi a grande indústria, né? E ela faz essa merda, feita por essas pessoas que não estão no underground, e não é de verdade. As pessoas consomem mentira, consomem carne, açúcar branco, se matam… Eu falo isso porque sou macrobiótica, não como carne há mais de 35 anos, li sobre yoga, hare krishna. A Lory foi minha mestra. Por isso que eu a homenageio até hoje, acredito na contracultura, acredito em milagre, acredito que a vida é tão maravilhosa que não pode ser só essa mediocridade que o mercado de consumo quer oferecer pra gente.
Como você vê o fato de as pessoas hoje em dia só quererem saber de números?
Ah vão se f… os algoritmos, né? Vou fazer uma música sobre os algoritmos, não dá para a gente ser refém disso. Não é para mim. Hoje eu tenho orgulho de só ter 2 mil seguidores no meu Instagram. Tenho 5 mil em cada Facebook, nem sei porque me seguem, se são fãs ou não. Não é uma coisa louca, não é comprado (rindo). É tipo amigo, vou ficando amiga. Meu YouTube tem mais de 500 vídeos, posto desde 2014 lá. É uma obra incrível que tá lá, ninguém sabe, mas tá lá.
Isso teria um valor. O Ruriá Duprat, sobrinho do Rogério Duprat, até me disse que se eu estivesse em Nova York ou Miami, eu estava de limusine na porta de casa e morando na cobertura (rindo). E eu faço trilhas sonoras também, desde os anos 1980.
Você tem feito trilhas?
Nos anos 1980 eu fiz muita coisa para teatro, tudo underground, fiz vídeo artístico, trilha de desfile de moda, Phytoervas Fashion, antes de ser hype. Fiz trilhas para Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, Marcelo Sommer, gente top. Era tudo em colagem, depois veio a ter um nome, bootleg. Nem sabia que existia essa técnica. Eu mal tinha dinheiro, trocava o trabalho por roupa! O objetivo era fazer uma trilha que soasse bem na pista, fosse inovadora e tivesse a cara da coleção, e chamasse a atenção do público.
Eu nem podia entrar num estúdio sem grana. Roubava de LPs e CDs e mixava em quatro canais, em fita K7. E botava coisas minhas gravadas por cima, remixava, mandava por DAT, passava pro CD. No final Renato Lopes, Mau Mau e Patife, três grandes DJs, até me pediam para ensinar como que fazia. Eu aprendi – não sei como – a fazer, estava no meu sangue. No sangue da Lory estava o rock e no meu estava o “essa mulher sabe inventar!”. Virei um Professor Pardal na música.
Eu vou inventando sonoridades, mexo com música, gosto de timbre, de som, por isso fez essas camadas sonoras nos arranjos do Oxigênio, e por isso nenhum disco meu é simples. Acabei sendo pioneira nos reality shows com a Casa dos Artistas, fiz 20 reality shows pro Silvio Santos, sete temporadas da Fazenda…
Como foi isso?
Eu acabei inventando o workflow dos reality shows. Não existiu ninguém antes de mim fazendo isso. A Lory já tinha morrido, eu tinha virado zen budista, já havia aceitado a morte, o amor intransponível. E trabalhava em ONGs cantando para crianças. Já atuava no meio da militância gay. Cantava em hospitais, dava aulas. E fazia trilhas para desfiles de moda e shows. Vivia saindo na coluna da Erika Palomino, na Sui Generis, Around.
Um dia toca o telefone, eu saindo do GRAAC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), onde eu cantava. Uma pessoa do SBT disse: “Laura, a gente sabe que tu trabalha com trilha sonora e estamos fazendo um projeto secreto aqui. E precisávamos de um produtor musical. Mas é uma reunião secreta, não podemos dizer o endereço. Não é no SBT. Tu precisa estar em tal praça, em tal horário, uma van vai te buscar”. Foi assim. Fui pra tal praça em tal horário, a van estava me esperando. Me levou para uma casa no Morumbi.
E aí?
Chego nessa casa, uma sala gigantesca, a casa já toda montada para ser um estúdio. Vou num andar em que tinha uma dala de reuniões, uma mesa gigantesca, um monte de gente, e numa ponta o Rodrigo Carelli, diretor do programa. Ele era diretor da MTV na época, tinha feito umas coisas que tinham dado super certo, Rita Lee ao vivo, etc. Ele era referência de música e foi contratado pelo Silvio para fazer esse projeto, que foi roubado da Endemol. Ela trouxe o Big Brother pro Brasil, fez uma reunião com o Silvio. Silvio não comprou o projeto, roubou a ideia, e mudou o nome.
Ele fez a própria bíblia, do projeto. O projeto original tem uma bíblia, é um livro grosso pra c…, que é vendido, e tem todas as regras. Silvio construiu o projeto e o Rodrigo, que me conhecia da MTV e da TV Gazeta, mandou me chamar. Eu tinha dado uma entrevista para um programa da TV Gazeta apresentado pela Marta Suplicy, sobre mulheres. Nem me lembrava mais disso. O Rodrigo trabalhava para a Marta nessa época e me entrevistou, daí me chamou.
Ele fez a reunião e me disse: “Tô te chamando porque sei que tu tem as mãos limpas”. Isso eu nunca vou esquecer. Ou seja: ele sabia que ninguém me corrompia, e que por isso, eu iria fazer uma produção musical que seria orgânica, original. Eu não ia aceitar dinheiro que essas babas dessas gravadoras pagavam para tocar, e pagavam a todos os produtores. Eu fiquei honrada, mas perguntei: “Quantas horas dura esse trabalho?”. Ele disse que como era a primeira vez eles nem sabiam, então era 24 horas! Falei que não podia por causa da ONG, cantava para as crianças três vezes por semana e o trabalho estava me dando vida. Falei que agradecia mas não aceitava, e fui embora.
E depois?
Quando eu tô saindo, na escada, a produtora me pega pelo braço e me fala: “Laura, tu é louca! Eu sei que tu não tem dinheiro, que tu não consegue ganhar dinheiro, isso vai te colocar em outro patamar, tu vai virar produtora musical do SBT, vai ter um salário”. Eu precisava ir pra casa pensar, eu amava o trabalho da ONG, cantava para crianças com câncer, tomando quimioterapia. Eu compunha para a criança no leito, na hora. Fiz isso por três anos. Aí que eu entendi que a música transforma, nem estava mais naquela onda do show business, de querer ser a Madonna.
Fui pra casa. Minha namorada, Suzy Capó, que era diretora do Mix Brasil, me pegou e falou: “Laura, a gente tá dura, não tem nada, vai trabalhar no SBT pelo amor de deus” (rindo). Pedi pro Julião, um músico amigo meu, ficar no meu lugar. Fui pro SBT e passei a ganhar dinheiro. Nunca tinha ganhado um salário! Cheguei no SBT e o que eles tinham pra me oferecer? Eles nem sabiam o que fazer, só sabiam que precisavam de música 24 horas por dia. Tinha mesa de som, eles estavam montando a parte de imagem, um equipamento incrível, aprendi pra c… Eu vi a transmissão da internet pela primeira vez, pelo UOL. O UOL ia com um caminhão para lá. Vi chegar o equipamento, senti o cheiro do equipamento…
Então praticamente você viu a reconstrução da televisão no Brasil, porque depois disso aí nada foi o mesmo, certo?
Eu vi os caras chegando com as máquinas, gente montando a sala, os engenheiros vendo como seria: “Onde fica essa câmera?”. Fiquei quinze anos no reality show, e depois quando chegou na Fazenda, vi o que isso tinha virado. A grandiosidade do equipamento, o que era transmitir de Itu (SP). Eu tava lá.
A Casa dos Artistas bateu a Globo com o beijo do Supla e da Barbara Paz tocando I say a little prayer for you, com a Aretha Franklin, quem botou a música fui eu. Quem acordava eles todos os dias com música era eu. Também botava pra dormir, era a DJ de todas as festas, editei todos os videoclipes que foram pro ar com música, sonorizei todos os domingos os programas do Silvio Santos… E fiz tudo sozinha. Sem assistente. No final, trabalhei 32 horas seguidas.
Como você aguentou isso?
Eu estava amando ganhar salário, ter dinheiro para comprar comida, ter uma faxineira, pagar aluguel. Era sempre a Suzy que me ajudava, eu estava amando dar dinheiro para ela. Isso me motivava. E eu era a dona da ideia, tudo que eu quis fazer, eu pude fazer. Eles me deram 250 mil para investir na música. Depois foi para 200 mil, até que chegou um momento em que eu não tinha dinheiro para música, mais (rindo).
Eu nunca joguei fora os cadernos da Casa dos Artistas e da Fazenda, tenho tudo guardado, todas as músicas que eu toquei em todos os programas, tenho as planilhas. Muita coisa. Mas enfrentei: disse que não aceitava jabá e que só tocaria o que eu quisesse. Começou a chamar atenção a ponto do Jotabê Medeiros escrever no Jornal da Tarde que a trilha sonora era a melhor coisa do programa. Me entrevistou, deu uma página inteira, começaram a me entrevistar e o SBT começou a ter uma mulher só para controlar as entrevistas que eu dava. Começaram a pedir para eu ficar quieta e não implicar demais com a indústria, mas eu não ficava. Lavei minha alma.
E o que aconteceu um dia: o Silvio Santos foi na minha sala. Eu estava editando alguma coisa, levei meu computador para lá, meus softwares. Precisava disso porque a música era em tempo real. O Silvio falou: “Como é que você faz esse trabalho?”. Ele foi com as filhas, elas falando: “Pai, vamos gravar um disco da Casa dos Artistas!”. Ele: “Vamos, vamos!” Quando eu levantei meu joelho dobrou, não acreditava que era ele ali, querendo saber como eu fazia aquilo. Falei: “Mestre, fiz isso com amor, amo fazer isso”. Aí vi o Silvio dobrar o joelho, porque parecia que eu estava mostrando uma cruz para um vampiro (rindo). Imagina, falar de amor dentro do SBT? Na indústria do entretenimento só fazem coisas por dinheiro.
Cultura Pop
Billy Corgan e Butch Vig juntos no estúdio de novo após 33 anos

RESUMO: Billy Corgan e Butch Vig retomam a parceria de Gish e Siamese dream em Black stars, faixa da trilha de Jogos vorazes. Um reencontro com o produtor que ajudou a criar o som do Smashing Pumpkins. Relembre o histórico.
Texto: Ricardo Schott – Fotos: Reprodução
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Imagine você entrar num estúdio com Billy Corgan, no começo dos anos 1990, e descobrir que ele quer gravar uma música com dezenas de guitarras. E que, se uma delas não soar exatamente como ele imaginou, vai ter que fazer tudo de novo. Agora imagine que o produtor, em vez de mandar o sujeito sossegar, acha a ideia ótima. Pois era mais ou menos assim que funcionava a parceria entre o Smashing Pumpkins e Butch Vig. E, 33 anos depois, os dois resolveram repetir a experiência.
A novidade é Black stars, música lançada nesta sexta-feira (16) e incluída na trilha sonora de Jogos vorazes: Amanhecer na colheita. A trilha completa sai em 13 de novembro, uma semana antes da estreia do filme. É a primeira gravação lançada pelo Smashing Pumpkins com produção de Vig desde o álbum Siamese dream, de 1993. A faixa também entrou no repertório da atual turnê Rats in the cage.
A história dos dois começou em 1990, quando o Smashing Pumpkins gravou Tristessa, compacto lançado pela Sub Pop, sob a produção dele. Isso foi antes de Vig produzir Nevermind, do Nirvana (1991). Corgan gostou do cara logo de primeira. Numa entrevista à Tape Op, contou que o produtor não tinha pose, trabalhava pra caramba e não se assustava com as ideias que ele e o baterista Jimmy Chamberlin levavam para o estúdio. Pelo contrário: parecia gostar da complicação.
Foi assim que chegaram a Gish (1991), álbum de estreia da banda, primeiro no qual trabalharam juntos. Corgan queria um disco com peso, psicodelia, melodias bonitas e guitarras aparecendo de todos os lados – um baita rock de arena, com ambiência, totalmente o oposto daquela onda da época, de simplesmente colocar quatro músicos numa sala e apertar o botão de gravar. Vig comprou a ideia e ajudou a organizar tudo aquilo. Dá para ouvir o resultado em Siva, Rhinoceros e Daydream, três músicas bem diferentes que parecem fazer parte do mesmo universo.
Só que os dois tinham um problema: não sabiam a hora de parar. Corgan contou à Rolling Stone italiana que Vig pegava pesado com afinação, ritmo e vocais. Fazia Billy cantar a mesma parte tantas vezes que ele começava a achar que não sabia cantar. O engraçado é que, olhando para trás, o vocalista reconhece que aquela cobrança fez toda a diferença.
Em Siamese dream (1993), o segundo disco, a situação ficou ainda mais complicada. A banda já tinha uma gravadora grande esperando resultados, Billy passava por uma fase emocional difícil e os integrantes não se entendiam nada bem. Foram gravar em Atlanta, mas os problemas viajaram com a banda nas malas.
Corgan acabou tocando praticamente todas as guitarras e boa parte dos baixos. Algumas músicas ganharam tantas camadas que Vig precisava descobrir como fazer tudo caber na mixagem. Era guitarra em cima de guitarra, com mais uma guitarra aparecendo quando você achava que já tinha acabado. E, se alguma coisa não estivesse perfeita, lá iam eles gravar de novo. O disco demorou, custou caro e deu um trabalhão. Só que saiu dali Siamese dream, com Cherub rock, Today, Disarm e vários clássicos.
Corgan nunca escondeu o quanto Vig foi importante. Nos textos da reedição de Siamese dream, em 2011, escreveu: “Butch me apoiou o tempo todo nessa visão maluca”. E completou: “Butch era a única pessoa que poderia ter feito aquele disco conosco, porque o respeitávamos tanto que queríamos estar à altura dos padrões elevados dele”.
Mas aí chegou a hora de fazer o duplo Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995), e Billy resolveu mudar tudo. Chamou Flood e Alan Moulder para produzir, porque queria sair daquela maneira de trabalhar. Numa entrevista ao Grammy.com, explicou que Vig havia ajudado a construir uma versão quase idealizada do Smashing Pumpkins. Flood queria outra coisa: ouvir a banda como ela realmente soaria nos shows.
E não, a troca não aconteceu por causa de alguma briga. Em 2011, perguntaram a Corgan se ele toparia trabalhar novamente com Vig. “Eu amo Butch e temos uma relação muito boa. Adoraria. Ele provavelmente é uma das únicas pessoas com quem eu voltaria a entrar em estúdio”, respondeu. Vig também sempre pareceu adorar Corgan, embora já tenha declarado algumas vezes que o músico foi “um pentelho” no estúdio (quem conhece a história de Billy sabe que isso é um nome até carinhoso).
Pois bem: demorou 15 anos para aquela declaração virar realidade. Black stars coloca novamente os dois no estúdio, agora com décadas de experiência acumulada e sem a obrigação de repetir o que fizeram em 1993.
Ainda não há indicação de que a parceria vá render um álbum inteiro. Por enquanto, é uma música para uma trilha sonora. Mas já dá para imaginar a cena: Billy aparece com uma ideia complicada, Butch escuta, pensa um pouco e resolve que dá para melhorar. E lá vem outra guitarra…
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Cultura Pop
Bono trapalhão? U2 antes da fama, na TV irlandesa, usando fantasias de palhaço

RESUMO: Antes da fama, o U2 tocou Out of control na TV irlandesa vestido de palhaço. Tem gente achando que é obra da IA, mas não é não.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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No comecinho de sua história, prestes a fazer as primeiras gravações, o U2 fez um vídeo de Out of control na TV irlandesa em clima de circo, com maquiagens faciais e roupas de palhaço. Tá aí o vídeo.
O vídeo é de 1979 e pertence aos arquivos da RTÉ, emissora pública irlandesa – e pelo que a emissora diz, apareceu no programa Our times. Já teve gente levantando a hipótese de ser obra de IA. Não é, pelo visto. “Embora a estética crua e a qualidade amadora das possam levar os espectadores a questionar a sua autenticidade, este vídeo específico foi documentado e discutido pela comunidade de fãs do U2 como uma peça genuína da história da banda”, diz um comentário publicado no canal do YouTube @DutchU2Fan.
Não foi a primeira vez que a banda esteve na atração: em 13 de novembro de 1978, tocaram a música The fool, numa apresentação que acabou sendo reprisada em 27 de novembro. Aliás, a primeira vez que Bono, The Edge, Larry Mullen e Adam Clayton foram à RTE rolou em 2 de março de 1978, quando ainda se chamavam The Hype – na ocasião, foram a programa Youngline e cantaram Street mission.
Além das maquiagens, Bono surge usando apetrechos teatrais e fazendo caras e bocas para a câmera – em alguns momentos, tudo parece uma cena de humorístico brasileiro dos anos 1970. E naquela altura, Out of control era praticamente o cartão de visitas do U2. Em agosto de 1979, o radialista Dave Fanning apresentou três músicas do grupo em seu programa na RTÉ — Out of control, Stories for boys e Boy/Girl — e deixou os ouvintes escolherem qual delas deveria ocupar o lado A do primeiro lançamento da banda. Out of control venceu. No mês seguinte, as três músicas apareceram no EP Three, cuja primeira edição teve mil cópias numeradas.
A canção também tinha uma origem bastante pessoal. Bono a escreveu quando completou 18 anos, pensando no desconforto de perceber que dois dos acontecimentos mais importantes da existência estão totalmente fora das nossas mãos: ninguém decide nascer e, em última instância, também não controla a própria morte.
Agora: por que diabos eles estão vestidos daquele jeito?
Bom, não há, pelo menos na documentação conhecida sobre a apresentação, uma explicação de Bono, The Edge, Adam Clayton ou Larry Mullen Jr. para as roupas, mas maquiagens e os apetrechos. Também não aparece nos arquivos disponibilizados pela RTÉ uma justificativa para o figurino. Pode ter sido uma ideia do programa, uma brincadeira da própria banda ou simplesmente parte da estética daquela atração
O vídeo pertence a uma fase realmente embrionária do U2, que ainda traria uma apresentação no programa Aspects Of rock em setembro de 1979, tocando Life on a distant planet. Em janeiro de 1980, a banda chegou ao Late late show com Stories for boys. E pouco depois, aquela banda de garotos que ainda podia surgir fantasiada na televisão começaria a gravar a estreia Boy, lançada em outubro de 1980. Um primeiro passo na construção do U2 que a gente conhece hoje.
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Cultura Pop
Video Vanguard Award: afinal, que prêmio é esse que o Nirvana recebeu?

RESUMO: O Nirvana recebeu o Video Vanguard Award no VMA e entrou numa história que começou em 1984 com Beatles e David Bowie. Entenda como surgiu e por que o prêmio mudou ao longo das décadas.
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução
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O Nirvana voltou ao VMA neste domingo (27) para receber um prêmio que, de certa forma, conta a própria história da MTV. Dave Grohl, Krist Novoselic e Pat Smear subiram ao palco para buscar o Video Vanguard Award, homenagem pelo conjunto da obra audiovisual da banda.
Recebendo a honraria, os mais ilustres três ex-integrantes vivos da baanda entraram numa lista que começou com Beatles e David Bowie e, ao longo de mais de quatro décadas, passou por Madonna, Michael Jackson, R.E.M., Beastie Boys, U2, Beyoncé e vários outros.
Mas o que exatamente é o Video Vanguard? Bom, temos duas respostas, uma curta e uma longa. A resposta curta: é uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra do VMA, dedicado a artistas que tiveram impacto importante sobre o videoclipe e a cultura pop. Não está ligado a um vídeo específico lançado naquele ano e nem sequer é entregue em todas as edições.
A resposta longa é… a própria história do prêmio. E é a melhor resposta, já que o prêmio nasceu junto com o próprio VMA, em 1984. E não custa lembrar que nessa época videoclipe ainda era uma linguagem em formação e a MTV tinha apenas três anos. Na primeira cerimônia, só pra você ter uma ideia, David Bowie ganhou o prêmio, e houve menção especial aos Beatles e a Richard Lester, que dirigiu os filmes Help e A hard days night, do quarteto.
No caso dos Beatles e Lester, a escolha reconhecia especialmente a importância dos filmes do grupo para aquilo que, anos depois, se consolidaria como a linguagem do videoclipe – e da mesma forma, Bowie havia desenvolvido muito do idioma dos clipes vários anos antes. Na real, como ainda nem sequer havia uma “história” do videoclipe, era fundamental apontar quem havia ajudado a inventar aquela nova linguagem.
Nos anos seguintes, por sua vez, já estava claro que o grande lance era premiar quem já estava fazendo história ali mesmo, com a linguagem dos clipes. Em 1985, ganharam o prêmio David Byrne (então apenas o líder dos Talking Heads) e os diretores Russell Mulcahy e Godley & Creme. Madonna recebeu em 1986. Peter Gabriel, em 1987.
Detalhe: Michael Jackson ganhou em 1988 e, a partir de 1991, seu nome passou a ser associado oficialmente à honraria, que durante décadas ficou conhecida como Michael Jackson Video Vanguard Award. Em 2019, a MTV silenciosamente, mas nem tanto, tirou o nome do astro do prêmio. Nesse ano, a vencedora foi a rapper Missy Elliott.
Na década seguinte, a lista parece quase um resumo do período em que rock e MTV andavam grudados. Bon Jovi recebeu o Vanguard em 1991; Guns N’ Roses, em 1992; Tom Petty e Rolling Stones, em 1994; R.E.M., em 1995; Red Hot Chili Peppers, em 2000; U2, em 2001; e Duran Duran, em 2003. Exceções à regra: em 1997 o rapper LL Cool J levou a estatueta pra casa. No ano seguinte, os Beastie Boys ganharam o prêmio.
Depois, o perfil foi mudando junto com a própria MTV e com a cultura pop. Britney Spears, Justin Timberlake, Beyoncé, Kanye West, Rihanna, Pink, Jennifer Lopez e Missy Elliott estão entre os homenageados. Nos últimos anos vieram Nicki Minaj, Shakira, Katy Perry e Mariah Carey. Agora o prêmio volta ao rock com o Nirvana.
Dá pra dizer que poucos grupos carregam uma ligação tão evidente com a era clássica da MTV. Smells like teen spirit não apenas virou um dos clipes mais associados aos anos 1990 como ajudou a transformar a imagem do rock no canal. Come as you are, In bloom e Heart-shaped box reforçaram uma identidade visual que misturava estranheza, humor, desconforto e uma boa dose de antipatia pelos padrões do estrelato.
No VMA deste ano, coube a Chuck D, do Public Enemy, entregar o prêmio. Novoselic aproveitou o discurso para colocar Kurt Cobain no centro da história e lembrou que muitas ideias dos vídeos vinham da visão artística do vocalista. Para ele, a permanência do Nirvana também tem relação com uma busca do público por autenticidade.
Grohl, Novoselic e Smear receberam a homenagem sem Cobain, morto em 1994, mas com sua imagem aparecendo durante a cerimônia. A escolha fecha um círculo curioso: uma banda que ajudou a definir a MTV dos anos 1990 recebe, mais de três décadas depois, um prêmio criado justamente para reconhecer quem mudou a maneira de juntar música e imagem.
Mais do que um troféu para quem acumulou clipes famosos, o Video Vanguard começou como uma homenagem a quem empurrou o videoclipe para algum lugar novo. E sua lista de vencedores acabou registrando também as mudanças da própria MTV: dos Beatles e dos diretores pioneiros ao domínio do rock, daí às grandes estrelas do pop e do hip hop.
Agora o Nirvana entrou nessa história. Digamos que, para uma banda que chegou à MTV parecendo não pertencer àquele mundo, demorou bastante.
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