Crítica
Ouvimos: Joyce Manor – “I used to go to this bar”

RESENHA: I used to go to this bar, oitavo disco do Joyce Manor, mistura pop-punk, power pop e pós-punk: melodias à Weezer, sarcasmo adulto e uma tristeza punk persistente.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Um amigo ouviu esse oitavo álbum do Joyce Manor, grupo de pop-punk de Los Angeles, e deu uma definição pra lá de certeira: “é como se o Green Day tivesse surgido em 2008 e não em 1988, e tivesse ouvido a discografia dos Guided By Voices quando estava aprendendo a compor”.
Faz todo sentido, e vale esticar mais ainda a definição: I used to go to this bar mostra uma banda fissurada por estilos como power pop, rock sessentista, pop anos 80 e pós-punk. Tudo de melódico que outra banda canalizaria para a onda emo, é canalizado para fazer lembrar grupos como Weezer, o já citado Guided By Voices, Replacements e até Talking Heads.
- Ouvimos: Wet For Days – Wet For Days
Equilibrado entre saudades, sarcasmo e rios de lágrimas – e produzido por Brett Gurewitz, criador do Bad Religion e do selo Epitaph, onde a banda grava – o Joyce Manor mete bronca num punk com alegria triste, que lembra uma mescla de anos 1980 e 1990 nas duas primeiras faixas, I know where Mark Chen lives e Falling into it. Surge um combo Weezer + Beatles em All my friends are so depressed, bem como uma citação breve da intro de Faith, de George Michael, em Well, whatever it was – embora a faixa mude para algo entre o power pop e o punk.
O Joyce Manor também faz lembrar a classe e o ataque do Clash em Well, don’t it seem like you’ve been here before? , além de mandar bala em evocações do pós-punk dos anos 2000 em After all you put me through e a faixa-título. Em meio a vários comentários sobre o que é ficar adulto (ou coroa) com a mesma vontade de quebrar tudo que você tinha aos 15, destaque para a morte e as perdas trágicas rondando o dia a dia, na faixa-título e em Grey guitar, punk dolorido a la Paul Westerberg, que encerra o álbum (“eu disse que acho que Danielle está morta / não sei exatamente por quê / mas algo me atingiu como um raio / agora eu vejo como ela morreu / um tijolo de chumbo no lugar dela”). Não é mole.
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Crítica
Ouvimos: Adult Leisure – “The things you don’t know yet”

RESENHA: Adult Leisure mistura pós-punk 1980s e indie 2000s com guitarras pesadas. Estreia flerta com Cure, power pop e melancolia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 3 de outubro de 2025
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Vindo de Bristol, o Adult Leisure leva a sério o nome “lazer para adultos”. É uma banda novíssima que faz som misturando o pós-punk dos anos 1980 e o indie dos anos 2000, só que colocando bastante peso nas guitarras. The things you don’t know yet, primeiro álbum da banda, promove uma mistura sonora que faz lembrar ate formações esquecidas como o Wax (lembra do hit Right between the eyes, de 1986?) em faixas como Hold me close (Before you go) e chega perto de grupos como Psychedelic Furs e Roxy Music, no cuidado melódico de Kids like us, Kiss me like you miss her e Heartbreaker.
- Ouvimos: Jenny On Holiday – Quicksand heart
Com um esquema sonoro que varia do balanço funky e elegante a uma onda quase power pop, daria para dizer que fãs do Cure não vão se arrepender se derem uma chance ao Adult Leisure. Essa onda toma conta de Boy grows old (que faz lembrar também Idlewild e Nada Surf), The rules e Dancing don’t feel right, músicas com argamassa pós-punk e brilho pop. She her tem riff de saxofone (feito por John Waugh, colaborador de The 1975) e emanações de Bruce Springsteen.
No final de The things you don’t know yet, uma surpresa bem diferente: The river tem clima melancólico e vibe estradeira e quase grunge, com cordas. O Adult Leisure não dispensa a introversão em letras e melodias durante todo o álbum, mas preferiu encerrar o disco com sua canção mais introspectiva, como que para mostrar um outro lado. Vale conhecer logo esse grupo.
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Crítica
Ouvimos: Flau Flau – “Íntimo oriental”

RESENHA: Flau Flau estreia com Íntimo oriental, disco que cruza intimidade, Paraíba, pop psicodélico e soft rock para falar de memória, afeto e vida adulta.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dosol
Lançamento: 7 de novembro de 2025
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Flau Flau é o nome artístico da compositora paraibana Flavia Belmont. Em Íntimo oriental, seu disco de estreia, ela une referências que só estavam esperando para serem misturadas. O nome do álbum aponta para uma geografia particular da Paraíba, juntando seu universo pessoal, e o fato do estado ficar no ponto mais oriental das Américas.
Essa mescla de íntimo e público é o combustível das letras de Íntimo oriental. O shoegaze Johnny People, que encerra o álbum, põe em letra e música um passeio pela capital João Pessoa em que pontos de referência mudaram e muita coisa virou memória (“os prédios baixos estão crescendo alto / nessa cidade, o vento leva e traz minha saudade”, diz a letra). Ultraviole(N)Ta lança mão de surpresas na melodia para falar das surpresas, boas e ruins, da vida adulta. Faixas como Meu tudo azul, Amor ou delírio e Jomo (uma sigla para “joy of missing out”, brincadeira com FOMO ou “fear of missing out”) são pedidos de paz e alguma estabilidade emocional em meio ao moedor de carne do dia a dia.
- Ouvimos: Olivia Dean – The art of loving
Musicalmente, Íntimo oriental é uma mescla de soft rock + pop adulto nacionais dos anos 1980, psicodelia e sons derretidos, como se tivessem sido misturados no mesmo liquidificador de bandas como King Gizzard & the Lizard Wizard, Tame Impala (na fase Lonerism, 2012) e Tagua Tagua. Tons solares e hipnóticos tomam conta de faixas como Só o tempo, Ultraviole(N)Ta, o manifesto Free to e o interlúdio Llllivre. Faixas como Lua cheia, cachorro doido e Meu tudo azul trazem referências de Marina Lima – cujo som paira sobre boa parte do repertório – em meio a um clima próximo do lo-fi.
Já Jomo leva o pop transante dos anos 1980 (Robson Jorge & Lincoln Olivetti, Caetano, Gil e a própria Marina Lima) para visitar universos bem mais psicodélicos. E Bye bye, com participação de Dinho Almeida, dá adeus aos sabotadores da vida, numa onda que mistura a viagem sonora de Flaming Lips e a onda boa de Rita Lee: “se eu piso torto / quem vai vir me atormentar? / sabotador, bye bye / posso ser doido perto dos outros / mas o que eu penso tem valor demais (…) / hoje tem festa em mim / mas só pra quem somar”.
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Crítica
Ouvimos: The Femcels – “I have to get hotter”

RESENHA: Duo Femcels faz pop tosco e irônico, com som de software velho e letras estilo blog dos anos 2000, retratando incels, inseguranças e adolescência patética.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 7,5
Gravadora: Getting Hotter Records
Lançamento: 24 de janeiro de 2026
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Rowan Miles e Gabriella Turton, as duas Femcels, passam bem longe de qualquer tentativa de criar música lo-fi, pelo menos do modo como tem sido feito hoje em dia. O som delas parece ter sido feito com algum software dos primórdios da internet, ou do começo das gravações feitas em computador – algum tecladinho bem rudimentar, uma placa de áudio comprada em condições bem estranhas ou uma estação de áudio craqueada.
Mais que isso: as letras delas em seu primeiro álbum, I have to get hotter, lembram aqueles textos rudimentares escritos em blogs lá por 2002 ou 2003, quando não se falava em cyberbullying, havia pouca noção de que havia gente lendo seu blog além dos amigos, e blogueiros, em vez de tentar desesperadamente fechar negócios e influenciar pessoas, passavam o dia publicando conclusões adolescentes a respeito da vida e escrevendo poesia ruim.
O som de I have to get hotter é basicamente um imenso videogame que virou música, às vezes apelando para sons acústicos, às vezes lembrando uma versão sintetizada das Shaggs. E as Femcels parecem imunes até mesmo ao corta-e-cola da criação experimental de hoje. Ou seja: parece que elas estão tentando fazer música, mas com tantas restrições orçamentárias e tecnológicas que o que era pra ser sério fica engraçado. E, veja bem, isso é uma qualidade do som delas: isso porque a ideia de Rowan Miles e Gabriella Turton, é falar de garotos incels, meninos punheteiros que temem o sexo, garotas que se enchem de remédios para emagrecer, adolescentes “alternativos” fúteis e de comportamento indie performático.
- Ouvimos: cumgirl8 – The 8h cumming
O disco inteiro é uma novelinha estilo Malhação – Múltipla Escolha que fala disso aí tudo, só que focando no lado mais infame e ridículo da historinha. Rowan e Gabriela soltam versos abilolados sobre ser a menina mais indie da escola (a autoexplicativa The indiest girl at school) e falam de bullying virtual – na absolutamente infame No one will fuck me when I wear two different shoes (One Jordan, One Gucci Flip Flop), em que Gabriela reclama de uma garota que a acusou de ter “preenchinento labial e pais ricos” -. Também tentam não encarar a realidade (em He needs me, sobre uma garota que invente um monte de desculpas para o ghosting que vem tomando de um ficante) e põem inseguranças pessoais para fora de um jeito bem estranho (I’m só fat).
Um destaque em I have to get hotter é a bizarríssima You’re gay and you’re in love with me (Please let me touch your boobs), música em que Rowan e Gabriela iniciam um namorico enquanto lembram de um torneio do game Counter Strike em que o ambiente “cheirava a cachorro-quente e incels”. Já a tara das personagens do álbum por meninos com aparência frágil (epa, olha outra mania da era dos blogs aí) gera uma maluquice que vai além da polêmica: o eletrohardcore infame Please don’t stab yourself (Like Elliott Smith), na qual a personagem bullyiniza o próprio garoto de quem ela está a fim. Aliás, na letra, um ciclo é fechado com os versos: “o que eu amo no JavaScript é que você pode fazer qualquer coisa com ele / você pode criar qualquer coisa com JavaScript / JavaScript é lindo”.
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