Crítica
Ouvimos: Jeff Tweedy – “Twilight override”

RESENHA: Jeff Tweedy lança Twilight override, álbum triplo que mistura country-rock e introspecção à la Wilco, Dylan e Harrison — bonito, ainda que exaustivo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Dbpm records Inc.
Lançamento: 26 de setembro de 2025
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Um camarada meu afirmou que, no entendimento dele, “Jeff Tweedy tá virando o novo Billy Corgan em termos de cansatividade”. O líder do Wilco não chega a ser um rockstar prolixo e cheio de manias como o déspota dos Smashing Pumpkins, mas é um artista que tem três álbuns duplos solo e acaba de se juntar à turma que lançou um álbum triplo de estúdio. Enfim, por causa do novo Twilight override, Tweedy entra num clube maluco que inclui The Clash, George Harrison, o próprios Smashing Pumpkins, Prince e, no Brasil, Nando Reis e Nelson Gonçalves (!).
O disco novo de Tweedy tem sido pouco comentado aqui no Brasil, seja em sites de cultura pop, seja em conversas informais entre amigos. Não tem ninguém nem falando mal. Pode significar muito, pode não significar muita coisa: vai ver os fãs brasileiros de rock desaprenderam a ouvir discos enormes, vai ver os fãs do Wilco são um nicho bem pequeno, vai ver os fãs do Wilco que curtem os trabalhos solo de Jeff são menos que um nicho. Vale dizer que Twilight ainda por cima não é um disco para se ouvir de bobeira, correndo ou dirigindo. Sem pedir de fato, Tweedy pede que você se recolha a um canto para encarar as quase duas horas de música do pacote, e tente sentir o clima meio desolado, meio doidão das letras.
- Ouvimos: Cate Le Bon – Michelangelo dying
Com uma cara musical análoga a do Wilco, Twilight override é um disco de country-rock com emanações de Bob Dylan (em especial), George Harrison, Velvet Underground, Pavement, Sonic Youth, Nirvana, Tom Waits – e de iniciativas acústicas e solitárias ao redor do mundo, como Oar (1969), disco de Alexander “Skip” Spence. No primeiro álbum, do set, músicas como One tiny flower, Forever eves ends, Mirror e Betrayed vão quase se desmanchando no ouvido – algumas delas em clima de sonho acordado – e dão um padrão que se repete várias vezes ao longo do álbum. Só que Tweedy também une tons acústicos e vibe punk em vários momentos: tem a onda slacker folk de Secret door e Ain’t it a shame, os climas herdados de White light / White heat (Velvet Underground) e Queen bitch (David Bowie) de Lou Reed was my babysitter – além da vertigem sonora de músicas como Wedding cake, tudo rodando em volta do violão e da voz.
Tweedy parece fazer um movimento de parábola em Override: o álbum vai soando mais introspectivo e angustiado ao chegar no disco 2, que tem o country bandido e angustiado de Better song, o som hipnótico de New Orleans, os voos de Over my head (Everything goes) e da valsa-country Western clear skies e a tristeza mágica de Blank baby, lembrando Davis Crosby e Neil Young. Os sete minutos de Feel free, canção simples e quase sussurrada, soam como se “essa tal liberdade” fosse observada por diferentes lados, num universo em que você pode ser fã de Beatles ou Rolling Stones, imaginar-se como uma semente e “levar seu tempo para ser enterrado”, girar até ficar tonto, fazer som com seus amigos. Tem até um curioso “sinta-se livre / nasça nos EUA / ame com um amor que eles não podem tirar”.
Twilight override é um disco bonito, mas como todo disco triplo, também vai ficando cansativo – uma sensação que bate bastante lá pelo disco 3, onde sobram músicas razoáveis como Saddest eyes, Ain’t it a shame, o folk de rádio AM dos anos 1970 da faixa-título. Compensando quem ficou até o fim, tem faixas como o country-gospel Too real e a bela e hipnótica Enought, feita na cola tanto do George Harrison do triplo All things must pass quanto dos Kinks de Waterloo sunset.
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Crítica
Ouvimos: Webb Chapel – “Vernon manner”

RESENHA: Em Vernon manner, Webb Chapel mistura shoegaze e dream pop caseiro, com clima lo-fi e caótico; entre ruídos e faixas suaves, o projeto aposta no mistério e em contrastes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Strange Mono
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Zack Claxton, criador do Webb Chapel, tem fama de ser um cara misterioso – do tipo que só cria na reclusão e não quer saber de fotos de imprensa. Com o tempo, e com as primeiras gravações, todas feitas em fita, o projeto foi ganhando cara de banda completa, adicionado músicos como a vocalista Rachel Gordon (Nine of Swords, Greg Electric) e aí saiu o álbum World cup, em 2024, primeiro com a turma “completa” em estúdio.
A tal mania de não querer tirar fotos deve ser mentira – no próprio Spotify do projeto tem a turma do Webb Chapel bem de frente, mesmo que coberta por uma montoeira de roupas de frio. Já o som do novo disco Vernon manner é bem misterioso mesmo: um shoegaze + dream pop feito de maneira bem caseira, parecendo vir de fitas antigas que foram descobertas por Zack, e que sempre aponta para o lado mais sonhador do indie rock.
- Ouvimos: Crocodylus – Limbo, please be good to me
Tem barulho também: a faixa 8-ball parece uma enorme interferência, com teclados, glitches e sons distorcidos, além de um clima entre a psicodelia e o noise rock, com bateria gravada aparentemente dentro de um armário. Without love é punk com vocais melódicos e End trails é tensa, crua, bem caótica. Tem Summer again, com guitarras em formato de parede, abrindo o disco. E tem até um namorico com o stoner em Nowhere, quase um combinado Black Sabbath + Joy Division.
Nesse quesito de “combinações estranhas” nada bate Crucifix, folk de vocal reverberado que parece uma mistura do Pink Floyd do disco Obscured by clouds (1972) com os Vaselines. Mas o principal do Webb Chapel em Vernon manner são as músicas tranquilas e “perdidas”: os dedilhados e a vibe sombria de Nine of swords, os vocais doces de Heavy metal (nada a ver com o estilo musical, evidentemente), o clima de Simon & Garfunkel doidões de Fall all around, e a estranha oração de Hail Mary, na qual Rachel pede à Ave Maria “cheia de pecado” que lhe dê “um novo rosto, um novo começo e uma nova estrada para desbravar”. Essa ganhou até clipe.
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Crítica
Ouvimos: Buhr – “Feixe de fogo”

RESENHA: Em seu novo álbum Feixe de fogo, Buhr reforça sua veia contestadora com poesia, misturas sonoras e um antirromantismo cheio de tensão emocional.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Sound Department
Lançamento: 10 de abril de 2026
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Não há disco, música, letra acorde ou participação de Buhr (artista anteriormente conhecida como Karina Buhr) que não tenha sido pensada para contestar e quebrar padrões – e da mesma forma, Buhr sempre foi 100% ela mesma em entrevistas, coisa rara nesse universo de carreiras cada vez mais digitais e numéricas, até no universo indie.
Feixe de fogo, seu quinto álbum solo e o primeiro após a troca de nome artístico (que envolveu um processo pessoal de redescobertas), leva essa vibe de contestação adiante. Só que de forma bem mais poética. Carne, osso, superfícies vermelhas, espelhos, cidades grandes destruídas pela ganância, a saudade e a ansiedade… Tudo isso vai sendo tratado quase como personagens das músicas.
- Ouvimos: Thundercat – Distracted
Não é por acaso que Buhr abre o disco com a faixa-título, uma música sombria e tribal, que aproxima post rock e reggae, noise rock e som vanguardista brasileiro – e na qual ela diz: “eu corro em cima da brasa acesa / no medo onde ninguém mergulha”. Uma cláusula de autoafirmação que dá não apenas o tom do disco, como um norte de identificação para quem ouve. O dub Voaria e o forró-reggae-folk Vale brinde põem o foco do disco em obervações e descobertas, como numa lente bastante fiel à sua própria visão.
Em alguns momentos, Feixe de fogo olha para o amor – só que não exatamente para o amor romântico, e sim para um sentimento eternamente aberto a dúvidas, interpretações e histórias que talvez nunca ninguém entenda direito. Tipo em 70 cigarros, música sobre uma relação que vai terminando secretamente, gravada por ela com a cantora trans Moon Kenzo. Ou a balada hipnótica Seilásse. Ambas apontam para algo mais próximo das canções amorosas e existenciais de Jards Macalé (como Movimento dos barcos, escrita com Capinam) do que o modo como o amor é enxergado pela música pop. Um antirromantismo dos bons.
A atual onda de coaches motivacionais ganha sua zoação particular no afrobeat Desmotivacional, com participação de Russo Passapusso (BaianaSystem) – embora, na real, seja uma letra antirromântica em que trocadilhos com os meses do ano intercalam versos como “você chegou pedindo um beijo / saiu faltando abraço” e “nem agora, que é tarde demais, sei se quero / talvez ainda possa ser cedo pra viver, mas / nunca é tarde pra desistir de você”. Incertezas, lutas pessoais e vulnerabilidades aparecem em Anzol, MPB pós-punk com lembranças de Belchior nas linhas vocais, e versos como “eu sou feita de força e disfarce / eu perco tempo, peso, impulsão”.
Já Ânsia, com guitarras de Edgard Scandurra e Régis Damasceno, é quase como os Mutantes relidos por um filtro kraut rock – por acaso, é a melhor faixa do disco que pode ser definida como “rock”, tratando do estilo como um senha para a descoberta de novos ritmos. Essas experimentações dão a cara também de Motor de agonia, som com clima afropop, em que as linhas vocais desafiam o ritmo e vão criando outros ritmos na canção. Se a MPB de 2026 se parecer com Feixe de fogo, teremos três trimestres bem criativos pela frente.
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Crítica
Ouvimos: Crocodylus – “Limbo, please be good to me”

RESENHA: Crocodylus mistura pós-punk, stoner e experimentação em Limbo, please be good to me, com metais, ruído e referências que vão de Ramones a krautrock, sem caber em rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: ORiGiN Recordings / Warner Music Australia
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Num papo com o site Clunkmag, os fundadores da banda australiana Crocodylus – o guitarrista Steve Sacco, e o vocalista/guitarrista Josh Williams – explicam um pouco da história do grupo. Josh conta que sempre adorou o som dos Osees, mas acredita que isso não transpareça no som que o Crocodylus faz. Olha que transparece, sim: eles fazem um pós-punk cheio de repetições, e com uma inegável onda stoner e ruidosa.
Há muitos elementos experimentais no som de Limbo, please be good to me, que já é o terceiro álbum do quinteto. A faixa-título, por exemplo, tem dois segmentos e tanto nela quanto no restante do disco, lá pelas tantas surgem metais buzinando, ou embelezando a música (algo que remete até a King Crimson). Satisfy tem clima motorik, mas ao mesmo tempo as linhas vocais são até mais próximas do punk (eles citam bandas como Ramones e Misfits no papo). Overthinking, a terceira faixa, é dura e ruidosa, tem elementos que remetem tanto a The Murder Capital quanto a Killing Joke – mas ao mesmo tempo tem alguma comunicação com quem escutava punk norte-americano nos anos 1990.
O Crocodyle, em vários momentos de Limbo, parece até um parente menos amedrontador de bandas como Model / Actriz, embora a banda tenha referências bem acessíveis – o grupo começou como uma dupla de baixo-e-bateria criada por Josh e Steve, e bandas como Yard Act estão na gênese e na mistura sonora do novo álbum. Há climas quase progressivos-krautrock em faixas como Leach, e uma onda pós-punk + gótica em The feeling e Societal sword, ambas com vocais lembrando John Lydon (Public Image Ltd). Além de um combinado post-rock + emo na bela Hope, embelezada por cordas, e de uma faceta mais punk e guerreira, sempre adornada por metais, em músicas como The advice e The grip.
Essa variedade musical mostra o Crocodyle como uma banda bem complicada de inserir em rótulos. Talvez seja mais tranquilos colocá-los numa escola de rock melódico e abrasivo (falamos de bandas como Yard Act e The Murder Capital, por exemplo). Que segue até o final de Limbo, please be good to me, com os vocais e metais agitados de Attentions, encaixados num arranjo quase maquínico. E com a beleza das guitarras de Achilles heel, algo entre The Cure e a repetição sonora do rock alemão.
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