Crítica
Ouvimos: Hugo Medeiros – “Tempo curvo”

RESENHA: Em Tempo curvo, Hugo Medeiros transforma o ritmo em protagonista, curvando o tempo e misturando jazz, funk, psicodelia e sons experimentais.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente (pode ser ouvido apenas no Bandcamp do artista)
Lançamento: 22 de setembro de 2025.
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O que você entende por “experimentação rítmica” vai sofrer sérios abalos quando escutar Tempo curvo, estreia solo do músico e pesquisador pernambucano Hugo Medeiros. Partindo da ideia de que o estudo do ritmo ainda recebe bem menos atenção do que a harmonia, Hugo apresenta oito composições em que a batida deixa de ser apenas base para se tornar quase uma instalação em movimento. O tempo se curva, se estica ou se acelera conforme o percurso: declives, aclives ou terrenos cheios de obstáculos que mudam a forma como a música respira.
- Ouvimos: Antonio Neves – De Las Nieves
Tempo curvo é também um disco em que os gêneros apresentados dão mais uma cláusula musical do que uma ideia do ritmo das faixas. Na faixa-título, que abre o disco, estilos como jazz, funk e vibes ligadas ao stoner rock e à música latina vão surgindo, com ritmos que vão se quebrando. Música para gavetas 6 é um jazz que se constroi em torno de algo. Em Antropoceno, um jazz-forró vai perdendo velocidade em algumas circulações rítmicas. Já em Estudo nº 8, um instrumento MIDI com som de mellotron e um clarone ajudam a dar um aspecto sonhador e idílico, quase de canto de sereia – e firmam algo parecido com a psicodelia em Tempo curvo.
Essa lisergia toma bastante espaço também em Mycorhizae, música de clima sonhador e sujo, em que um som de órgão dá clima de levitação, e barulhos que lembram fitas rodando rápido ganham aspecto melódico. Climas progressivos aparecem na valsa-jazz Música para gavetas 5 e no quase blues Overview effect, enquanto algo próximo da música indiana brota em Geóglifos. Mas pode acreditar que muito mais coisas escondem-se em Tempo curvo, às vezes com diferença de segundos.
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Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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