Crítica
Ouvimos: Sidney Minsky Sargeant – “Lunga”

RESENHA: Em Lunga, Sidney Minsky Sargeant deixa o pós-punk do Working Men’s Club e investe em um folk psicodélico, lo-fi e introspectivo, entre Paul Simon e Nick Drake.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Domino
Lançamento: 12 de setembro de 2025.
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Se você for se basear no que Sidney Minsky Sargeant faz no Working Men’s Club e em seu projeto paralelo Demise Of Love – cujo EP foi resenhado pela gente aqui – vai ter uma ideia bem errada de sua nascente carreira solo. Lunga, seu primeiro álbum individual, é definido por ele como “o som de uma porta se abrindo para um pasto, a névoa rolando sobre a grama enquanto o sol nasce ao longe; é o som da renovação e uma sensação de otimismo” e “um refúgio, um mundo em que todos podemos entrar”. O repertório contém músicas que Sidney vem compondo desde a adolescência, e muita coisa lembra mais Paul Simon, Tim Buckley, Nick Drake e Crosby, Stills, Nash & Young, juntos e separados (David Crosby em especial), do que sons eletrônicos.
Lunga basicamente pode ser definido como um disco de folk psicodélico – e, sim, muita coisa dele tem parentesco com Oar, de Alexandre Skip Spence, clássico do estilo. A Intro do disco vai na vibe lo-fi, parecendo um loop psicodélico feito com instrumentos de cordas. For your hand tem piano celestial e vocal dobrado, gravado como se viesse do fundo de um teatro, lembra CSNY mas com clima menos exuberante. O que tem de eletrônico em Lunga serve para tornar o disco uma experiência viajante (como no folk latinesco I don’t wanna), mágica (o dream folk Hazel eyes) ou sombria (Summer song, que abre em clima ameaçador, e consolida-se como uma mescla de Velvet Underground e Byrds).
- Ouvimos: Joanne Robertson – Blurrr
Curiosamente, há uma lembrança forte em Lunga do primeiro disco londrino de Caetano Veloso – o de 1970, que tem Maria Bethânia e London, London. Músicas como Lisboa (que também tem algo de George Harrison e Lou Reed), o gospel sombrio Long roads e a própria Summer song têm essa cara meio folk, meio maldita que o álbum do baiano tinha. Sei lá se Sidney ouviu esse disco, mas até Chicken wire, uma das mais roqueiras do disco – que tem algo de Black Rebel Motorcycle Club – tem um pouco desse astral. Já a faixa-título, Lunga (Interlude), se estende por quase oito minutos de colagens sonoras – vozes, tosses, ruídos de instrumentos e lamentos – que evocam tanto a imersão de um sono profundo quanto a intensidade de um ritual.
Investindo em um folk atravessado por ecos de pós-punk e ambient (How it once was), em uma canção tristonha e noturna que mistura referências de Paul Simon e Smashing Pumpkins (A million flowers), e até em um momento mais calmo e luminoso (New day, que mesmo assim encerra o disco com ruídos, como se algo se desfizesse no ar), Sidney é ainda um compositor folk em formação. Lunga soa mais como um exercício de composição do que como um disco totalmente acabado, mas revela diferenças interessantes e o aproxima de uma cena lo-fi que destoa bastante de sua trajetória anterior.
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Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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