Cultura Pop
E a capa de In The Wake Of Poseidon, do King Crimson?

Não existe fã de rock progressivo que não tenha passado algumas boas horas olhando para as capas dos discos do King Crimson. Principalmente a do primeiro álbum, In the court of Crimson King (1969), e a do segundo, In the wake of Poseidon (1970). Certo?

O segundo disco do King Crimson, aliás, foi lançado em momento de confusão generalizada na banda. Isso porque todo mundo saiu da turminha e Robert Fripp ficou sozinho para tocar teclado e guitarra. Mas Greg Lake, com um pé no Emerson, Lake & Palmer, concordou em cantar no disco, ainda que não estivesse oficialmente mais no KC. Isso rolou após um período em que passou tudo pela cabeça de Fripp. Aliás, até mesmo convidar um cantor desconhecido chamado Elton John para ser a voz do King Crimson naquele disco (não rolou, como se sabe).
Poseidon vinha com várias influências novas no conceito. Peter Sinfield, letrista e iluminador do grupo, lembra de ter sido inspirado até mesmo por um iniciante Marc Bolan (T. Rex), com quem havia se encontrado e conversado sobre magia e esoterismo. Papos com um astrólogo “e profeta” chamado Richard Gardner seguiram-se ao encontro com Bolan, até que Sinfield chegou ao pintor holandês Tammo de Jongh (1927-1997). O cara que fez esse desenho aí de cima.
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Jongh, influenciadíssimo pela literatura esotérica de Gardner (autor de The purpose of love, lançado em 1968) era um artista plástico que iniciara uma comunidade esotérica chamada The Green Monks, nos anos 1960, em Londres. Ele e seus colegas de grupo tinham demandas ligadas ao movimento hippie: faziam manifestos contra a urbanização do campo, criticavam a propriedade e o trabalho como exploração. Aliás, acreditavam numa inclusão “polimórfica” do ser humano, rejeitando as divisões comuns entre masculino e feminino. Mais tarde, essa galera mudou de nome para Sociedade Graigian.
Um dos integrantes dessa turma é o artista plástico Herewood Gabriel, que em seu site pessoal vende até o livro Natural psychology book, escrito por Tammo (que usava nos Green Monks o pseudônimo de Anelog). “Ele apresenta os 12 arquétipos e como eles são emparelhados em opostos. Ele mostra as qualidades negativas de cada arquétipo, como isso surge e como se relacionam com os 12 meses”, propagandeia.
O papo de Sinfield com Tammo acabou gerando proximidades com o King Crimson. Em seguida levou os papos astrais para a banda. Tanto que esse desenho que você vê na capa, feito em 1967, se chamava Os 12 arquétipos.
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A pintura tinha sido feita com inspiração na literatura de Gardner e em estudos do psicanalista Carl Gustav Jung. Antes de ir parar na capa do disco, havia sido feita sob encomenda do médico homeopata John do Monte. Monte foi integrante da ordem druídica, estudava temas como radiestesia, teosofia, psicoterapia, astrologia e cabala, e chegou a fazer parte da cientologia, mas pulou fora logo. Também costumava escrever textos sobre assuntos que virariam prato do dia na era hippie, como liberdade sexual.
O desenho também apareceu justamente no livro The purpose of love, de Gardner (uma das personagens dele, inclusive, na capa).

Desordenadamente falando, é essa a turma que aparece na capa (tente achar todo mundo lá):
O Louco (Fogo e Água): O homem sorridente com uma barba rala.
A atriz (Água e Fogo): A garota egípcia com longos brincos de pérolas e muitos colares de pérolas no pescoço, com lágrimas nos olhos.
The Observer (Ar e Terra): Uma pessoa do tipo cientista com óculos redondos empurrados para cima acima da sobrancelha, a maioria careca com cabelos brancos nas laterais. Sua mão esquerda está erguida até o queixo, ele parece pensativo.
A Velha (Terra e Ar): Uma mulher com o rosto muito enrugado envolta pelo frio.
The Warrior (Fogo e Terra): O rosto de um guerreiro escuro e poderoso em preto e vermelho. Ele usa um capacete de aço, rosto largo e quadrado, boca aberta com dentes quadrados e uma barba negra e farta.
A Escrava (Terra e Fogo): Uma negra africana com grandes brincos de ouro e um anel no nariz. Os lábios são carnudos e rosados, os olhos semicerrados, abafados e sensuais. A expressão é calorosa e amigável.
A Criança (Água e Ar): Uma imagem da inocência; uma garota com um sorriso doce e delicado e laços em forma de borboleta de cada lado em seus longos cabelos dourados. Seus olhos são grandes e lacrimejantes e ela tem um sorriso doce e delicado na boca. Ela usa uma corrente de ouro, na ponta da qual está uma pequena chave de ouro.
O Patriarca (Ar e Água): Um velho filósofo, com um rosto comprido e longos cabelos brancos e uma longa barba e bigode brancos; sobrancelhas brancas espessas. Ao redor há formas como flores ou flocos de neve. A personagem franze a sobrancelha para cima a partir do nariz em forma de leque.
O Lógico (Ar e Fogo): Um cientista ou homem do tipo mago com rosto comprido, cabelo escuro e barba longa e escura. Ele parece segurar um longo bastão ou bastão com a mão direita e a esquerda erguida e cercada por estrelas.
O Coringa (Fogo e Ar): A imagem em vermelhos e amarelos brilhantes é de um Arlequim sorridente de olhos cintilantes com seu típico chapéu triangular com estuque dourado .
A Feiticeira (Água e Terra): Uma menina triste com olhos lacrimejantes. Seu longo cabelo escuro está espalhado para o lado em seu rosto e sobrancelha da direita para a esquerda.
Mãe Natureza (Terra e Água): Deitada dormindo na grama alta. Seu rosto em silhueta é visto do lado esquerdo e ao redor estão flores e borboletas.
Cultura Pop
Chapterhouse: “O termo shoegaze era depreciativo”

O Jesus and Mary Chain deu uma de Padre Quevedo indie e explicou numa entrevista ao site Stereogum que isso aí de shoegaze “não existe” – para Jim Reid, em particular, isso não passa de invenção de “algum palhaço do New Musical Express“. Pois bem, num papo com a newsletter First Revival, Stephen Patman, guitarrista, vocalista e fundador do Chapterhouse, uma espécie de “banda de shoegaze original” (que por sinal vem ao Brasil em setembro), deu mais detalhes sobre a origem do termo. E ainda lembrou que não era exatamente um orgulho ser chamado de “olhador de sapato” (shoegazer significa exatamente isso em português).
“O termo shoegaze era um comentário depreciativo, uma provocação”, recorda ele, lembrando que inicialmente, um jornalista chamado Steve Sutherland, da Melody Maker, escreveu que o Chapterhouse e bandas como Moose e Lush eram “a cena que celebra a si própria”. “Basicamente, porque tínhamos o mesmo empresário que o Moose e o Lush (Howard Gough), então saíamos bastante com eles e íamos aos shows uns dos outros. Também conhecíamos o Ride e o Swervedriver de Oxford, porque era bem perto de Reading”, contou.
Ele lembra de uma nomenclatura de tiro curto que surgiu: “Antes disso, chamavam de ‘cena do Vale do Tâmisa’, que incluía nós, Ride, Swervedriver e Slowdive. Então, era assim que chamavam, depois ‘a cena que se celebra'”, diz. “E aí o Andy Ross , que era o chefe da Food Records, estava assistindo ao show do Moose, e os quatro estavam lá parados olhando para baixo. Foi ele quem criou o termo ‘shoegaze’. A Polly (Birkbeck), assessora de imprensa da Food, provavelmente comentou com alguém, e a notícia chegou à imprensa musical, e aí eles começaram a usar o termo”.
Só que o termo – surgido, na prática, de uma postura tímida e mal-ajambrada de palco – acabou se revelando um feitiço que se virou contra um monte de feiticeiros do barulho. “Quando houve uma espécie de mudança na imprensa musical após a euforia inicial de 1991 em torno de tudo, eles (os jornalistas) de repente se voltaram contra nós, e passaram um ano inteiro zombando de nós. E como também saíamos juntos, os jornalistas nos viam reunidos e escreviam colunas de fofoca tirando sarro de nós de alguma forma”, continua. “Foi aí que ouvi o termo shoegaze pela primeira vez, e era um comentário depreciativo, uma provocação”.
“Mas, de certa forma, ele foi ressignificado ao longo dos anos e se tornou um gênero, o que eu acho bem curioso. Nós nunca nos consideramos uma banda shoegaze. Para ser sincero, não somos exatamente fãs de shoegaze. Não ouvimos esse tipo de música”, diz Patman. “Mas principalmente porque a maioria era de artistas contemporâneos, dos quais você não se torna fã por ser amigo. Então, sim, era um termo pejorativo que chegou à imprensa e eles começaram a usá-lo”.
“E agora o conceito se expandiu, com tantas bandas que nem de longe eram consideradas shoegaze, como The Verve, Kitchens of Distinction e Catherine Wheel, agora são consideradas assim. Eles até chamam The Jesus and Mary Chain e Cocteau Twins de shoegaze”, continua Stephen, que também não gosta do termo dream pop para definir qualquer tipo de música com alguma distorção e reverb. “É ainda mais repugante”.
E pra saber mais sobre o show do Chapterhouse no Brasil, só ir aqui.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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