Em 17 de julho de 1986, havia um novidade esperando pelo público no cinema Estação Botafogo. Afinal, aquela noite, ia rolar uma sessão de curtas premiados naquele ano no Festival de Gramado. Entre eles produções como A espera, dirigido por Luis Fernando Carvalho e Mauricio Farias, com Malu Mader. E também havia nada menos que O dia em que Dorival encarou a guarda, de José Pedro Goulart e Jorge Furtado, baseado num texto do escritor e cineasta gaúcho Tabajara Ruas. Aliás, um verdadeiro alívio naquele ano cheio de notícias entrecortadas sobre fim da censura.

O filme, em 14 minutos, mostrava a maneira como um preso (Dorival, interpretado justamente pelo recém saído de cena João Acaiabe) brigava com todos os policiais da delegacia em que estava encarcerado, e exibia a total falta de organização militar dos meganhas. Mas tudo por uma causa bem justa: o preso estava há uma semana passando um veneno de calor e sem conseguir tomar banho. “São ordens”, gritavam os policiais. Só que Dorival se divertia ofendendo os policiais, humilhando-os e bradando coisas como “milico e merda pra mim é a mesma coisa”, “(patente de alguém) e merda pra mim é a mesma coisa”.

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Dorival era um curta da Luz Produções, criada por Jorge Furtado com José Pedro Goulart e Ana Luiza Azevedo. Jorge era um ex-estudante de medicina, filho da onda de cinema Super-8 que rolava em Porto Alegre. E que havia aprendido tudo sobre roteiro e direção sozinho. Temporal, o primeiro curta da Luz, foi feito em 35 mm, e revelado em São Paulo, demorando uma semana para voltar para as mãos da equipe.

Aliás, o currículo de Jorge ainda incluiu na década um curta bastante inovador. Era Ilha das flores, que costuma entrar em listas de melhores documentários brasileiros de todos os tempos. Só que o filme acabou gerando polêmica por causa de outro curta, Ilha das Flores: depois que a sessão acabou, mostrando como ficaram as coisas na Ilha Grande dos Marinheiros (locação do filme original, em Porto Alegre) após o sucesso do curta de Furtado. Depois, Jorge passou a dedicar-se a produções também para a TV.

O ator que encarava a guarda, João Acaiabe, tinha nascido em 1944 numa cidade chamada Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo – e que hoje tem pouco mais de 44 mil habitantes. Até 1986, Acaiabe tinha algumas obras polêmicas no currículo: fez peças de Plínio Marcos como Barrela e Jesus Homem. Também fez novelas na TV Tupi. Mas tinha se tornado popular entre o público infantil como o contador de histórias bonachão do programa Bambalalão (TV Cultura, 1978). Nos anos 2000, fez o Sítio do Pica-Pau Amarelo e Chiquititas.

Já José Pedro, que fez o curta com Furtado, produziu Ilha das Flores, e realizou outros curtas, como O pulso. Além de ter produzido o curta O branco, de Liliana Sulzbach e Ângela Pires. Também se tornou escritor e cronista. E relembrou o convívio com Acaiabe na época de Dorival neste post do Facebook.

(pauta roubada do cineasta Christian Caselli)

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