Connect with us

Crítica

Ouvimos: Celacanto – “Não tem nada pra ver aqui”

Published

on

Ouvimos: Celacanto - "Não tem nada pra ver aqui"

RESENHA: Celacanto estreia com Não tem nada pra ver aqui, um disco denso e original que mistura pós-punk, MPB, noise rock e Radiohead com sotaque brasileiro.

  • Apoie a gente e mantenha nosso trabalho (site, podcast e futuros projetos) funcionando diariamente.

Das bandas mais novas do rock brasileiro, os paulistanos do Celacanto foram os que melhor ouviram bandas como Radiohead e Television, e se aproveitaram das influências para criar um som com cara própria. Não tem nada para ver aqui, o álbum de estreia, tem muito do lado sombrio do pós-punk e do noise rock, mas sempre focado em produzir um som que não se feche em guetos.

Tanto que faixas como Quadros, Desamarrado e Vendo demais têm um lado emepebístico forte – a última até soa como se o Radiohead tivesse feito uma música para Gal Costa gravar. Você vai ficar velho, o mundo está ficando velho também fecha o disco com piano e voz, ritmo de maracatu e um clima que lembra as gravações do pianista Vitor Araújo, hoje tocando com Arnaldo Antunes. Vozes superpostas, riffs fortes e uma vibe hipnótica marcam uma das melhores músicas do álbum, É de pano, enquanto a faixa-título soa como um post rock menos desértico.

O Celacanto, em praticamente todo o disco, lembra que nos dias de hoje, nem mesmo festa é sinal de diversão, como na dança triste de Dançando sozinho e na desesperança de Quadros (“a casa caiu / larga o que der aqui / deixa ruir longe / a gente sai junto e foge”). Já Cedo é meio solar e meio introspectiva, tudo junto, e tem uma das letras mais românticas e envolventes do disco. E Meu caminho é a maior curiosidade do disco, uma canção absolutamente lo-fi, feita basicamente sobre uma base melodiosa de efeitos sonoros.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Matraca
Lançamento: 17 de abril de 2025.

Crítica

Ouvimos: Power Snatch – “EP 1” (EP)

Published

on

Power Snatch mostra Hayley Williams BEM fora do Paramore: indie rock confessional, beats eletrônicos, guitarras ruidosas e ironia sobre passado e futuro.

RESENHA: Power Snatch mostra Hayley Williams BEM fora do Paramore: indie rock confessional, beats eletrônicos, guitarras ruidosas e ironia sobre passado e futuro.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Post Atlantic
Lançamento: 1 de fevereiro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Hayley Williams disse um tempo atrás que queria estar em “umas cem bandas diferentes”. Sei lá se ela vai conseguir realizar isso, mas um dos projetos mais recentes dela já vinha sendo concebido desde o ano passado e chega a público agora. O Power Snatch é a banda dela ao lado de seu produtor e parceiro Daniel James. O som é… digamos que quase sempre você não irá reconhecer a cantora do Paramore, ou artista solo que lançou o álbum Ego death at a bachelorette party.

As três faixas do EP 1 – que, para reforçar o clima indie da coisa, foram lançadas no Bandcamp – trazem Hayley fazendo rock confessional e abusando de referências indies. A produção em alguns momentos lembra PJ Harvey ou Sleater-Kinney, embora naturalmente o som seja bem mais acessível. DMs, a primeira faixa, traz a cantora tangenciando o shoegaze, com distorções e clima enevoado, embora o resultado esteja bem mais próximo do alt rock dos anos 1990. Duh e Hole in the ceiling têm beats constantes e soam como um híbrido soft rock + rap, filtrado pelo guitar rock.

Um tema comum às três faixas é uma espécie de visão sarcástica da dualidade passado x futuro. Hayley fala de relacionamentos que se foram e de versões antigas dela que não existem mais (DMs), recorda sua adolescência passada na cena rocker (Duh, que tem um verso maravilhoso em que ela se lembra que Quanto mais idiota melhor foi importante para ela como O poderoso chefão foi para um monte de gente) e lembra de um amor que surgiu numa hora em que ela “não poderia estar menos interessada” (Hole in the ceiling).

O material ainda é complementado pelo primeiro single do Power Snatch, que é até o momento o único material deles disponível no Spotify. Assignment segue o mesmo esquema de beat eletrônico e guitarras ruidosas, mas aqui temos Hayley mostrando que anda ouvindo Dry Cleaning: vocal falado, vibe blasé, letra irônica (em que ela avisa que “nem tudo é uma mensagem para você / pare de decodificar”), ainda que o resultado consiga ser bem mais robótico. Ficou bem legal.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Kovtun – “Black goat”

Published

on

Kovtun mistura black/post-metal, jazz e ambient satânico em Black goat, disco longo, inquieto e ritualístico, cheio de ruídos, peso e tensão.

RESENHA: Kovtun mistura black/post-metal, jazz e ambient satânico em Black goat, disco longo, inquieto e ritualístico, cheio de ruídos, peso e tensão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Sinewave
Lançamento: 23 de janeiro de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Fazedor de ruídos e “ocasional músico”, o paulistano Rafael Mandra vem fazendo lançamentos perturbadores com seu atual projeto musical, o Kovtun. Bastante produtiva, a banda (que inclui Abel M. Neto, Lucas Marques e Jorge Mourthé) fez dois lançamentos com esse nome em 2025 – o último deles, o EP The alchemy of silence, foi resenhado aqui – e já parte para o primeiro disco de 2026. Black goat, ao contrário do curto disco do fim de 2025, é um álbum extenso, de 61 minutos. Dessa vez, explora estilos como black metal e post-metal, criando basicamente um ambient satânico, que usa também elementos de jazz e de rock progressivo em várias faixas.

Black goat, na verdade, soa como uma ode intranquila ao animal da capa do álbum – em vários momentos, as faixas são entremeadas por ruídos de animais como se estivessem roncando ou se alimentando. O disco é aberto pelo blues satânico e stoner de Wounds & revelation, mas em seguida uma das facetas do álbum se revela: Black goat tem sons melódicos que dão as caras discretamente, como se houvesse um clube de jazz ou alguém estudando música ao lado de casa, enquanto os ruídos tomam conta.

Return from within e Lost epiphanies têm essa estética, que soa como um filme de terror alternativo, uma cerimônia secreta. Echoes of nothing é stoner satânico e espacial, When the black goat sleeps busca reproduzir o sono do do bode preto (tranquilo no início, assustador na sequência), Arrow to our heads faz lembrar uma bossa nova satânica, com piano e metais. E os sete minutos de The light that never comes são jazz espiritualizado e improvisado que transforma-se em post rock aterrador.

Em alguns momentos, Black goat se parece mais com um retrato musical da tristeza e da destruição, que surge no ambient satânico de The lower spectrum, na orquestral Pale blue dot e na porrada black-metálica The shadow – uma música que, caso você resolva ouvir em altíssimo volume, terá problemas com os vizinhos. O final chega a ser progressivo apesar do peso e dos ruídos, com In dark trees.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Portugal. The Man – “Shish”

Published

on

Portugal. The Man aprofunda a fase experimental em Shish: disco pesado, ritualístico e pessoal, entre pós-rock, punk e psicodelia, longe do hit Feel It Still.

RESENHA: Portugal. The Man aprofunda a fase experimental em Shish: disco pesado, ritualístico e pessoal, entre pós-rock, punk e psicodelia, longe do hit Feel It Still.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: KNIK / Thirty Tigers
Lançamento: 7 de novembro de 2025

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Certas bandas indies dos anos 2000 que pareciam “promissoras” (no sentido de que seriam lembradas como os Strokes são até hoje) resolveram que o melhor para elas seria seguir seu próprio caminho, sua própria intuição e não se deixar levar pelas facilidades. O Foster The People nunca mais conseguiu um hit como Pumped up kicks, mas tá aí até hoje lançando discos legais e fazendo acontecer do seu jeito. O Portugal. The Man conseguiu um hit “de festa” com Feel it still, música de 2017. Mas sempre foi uma banda psicodélica, experimental e alternativíssima – e preferiu que as coisas continuassem rolando desse jeito, em vez de ficar eternamente fazendo reprises de seu próprio som.

Vai daí que Shish, que já é o décimo disco (!) do Portugal. The Man, vai cada vez mais fundo nessa experimentação – aliás, vai tão fundo que, quem só conhece Feel it still, não vai conseguir reconhecer muita coisa aqui. O disco é quase um trabalho solo do líder John Baldwin Gourley, que fala sobre as lembranças de sua história no Alasca, onde nasceu e foi criado. Na real, faz isso em letra e música: o repertório de Shish é pesado, misterioso e cerimonial, sempre oscilando entre o post-rock e o punk.

Denali, a faixa de abertura, até chega perto de uma união entre metal, punk e glam rock, mas é basicamente uma paisagem do Alasca, transcrita em versos e melodia (“descendo o riacho carmesim / pego um floco de neve na minha língua / não consigo distinguir o que é vida real ou sonho”). Tem um filtro 60’s em faixas como Angoon e Knik, mas o principal são os vários segmentos que vão entrando como interferências, as evocações musicais que vão de Yoko Ono e Zombies a The Cure, as vozes fantasmagóricas de músicas como Shish. E os sons distorcidos e eletrônicos que surgem em faixas como Pittman ralliers e Tyonek.

No final de Shish, surge algo mais psicodélico e reconhecível por fãs tradicionais de rock , graças a um trio de faixas que soa como uma versão eletrônica-experimental dos Beatles. A primeira é o pop gospel Kokhanockers e a segunda, o rock orquestral Tanana. São duas músicas que ora lembram John Lennon, ora curiosamente fazem lembrar uma outra banda cujo trabalho acabou ofuscado por um hit massacrante – a anglo-americana Spacehog e seu sucesso In the meantime, cujo refrão parece ser citado nessas duas faixas.

Já no fim de Shish, em meio a evocações sixties, estilos imiscíveis como sass core e jazz rock dão as mãos na experimental Father gun – música com letra ambígua, que parece zoar o apego armamentista do norte-americano médio. “Irmãs, irmãos e outros / viva e morra pela arma / calma aí, se acalme, se acomode, se acomode, centurião / o mundo não é feito só de heróis e vilões / sem nada mais a defender / então vá com calma, você está sozinho”, dizem os versos. Shish é uma boa surpresa musical, que volta e meia faz lembrar o apetite por destruição e reconstrução de bandas como The Armed. E vale lembrar que o Portugal. The Man tá vindo aí.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS