Crítica
Ouvimos: Big Thief – “Double infinity”

RESENHA: Em Double infinity, o Big Thief transforma confusão em encanto: um disco meditativo, emocional e cheio de surpresas sonoras e poéticas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 5 de setembro de 2025
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Parece que o Big Thief já tem até um próximo disco feito depois desse novo Double infinity – ao Los Angeles Times, o fundador Buck Meek só avisou que “não será o que você esperam”, sem dar mais detalhes. Um modo de agir complexo para qualquer sistemão da música, mas algo tranquilo em se tratando do Big Chief, já que cada disco do grupo tem a tarefa de surpreender os fãs de alguma forma.
No caso de Double infinity, o próprio Big thief teria que dar um jeito de surpreender a si próprio. O baixista fundador Max Oleartchik saiu da banda no meio de 2024, e o grupo diz que, depois disso, fez uma média de “50 a 60 músicas” pensando num disco novo. Houve a ideia de Double infinity ser um disco de rock pesado – ideia essa descartada logo depois. A coisa começou a andar de verdade quando Adrianne Lenker, Buck Meek e James Krivchenia decidiram que além do trio, o disco teria várias participações.
Não foram participações no estilo “vários co-autores, inúmeros produtores”, vale dizer: Adrianne domina as composições e, quando ela não assina sozinha, escreve com Buck e James. Percussionistas, cantores, tecladistas e até o multinistrumentista Laraaji (cítara, piano, percussão, etc) surgem para aumentar a intensidade emocional de faixas como Incomprehensible, hino celestial que fala em envelhecimento, e em como as palavras moldam nossa visão ruim de nós mesmos e do mundo – a letra pede algo que parece ser o primeiro mandamento de uma banda independente: “deixe-me ser incompreensível”.
Curiosamente, a faixa Words, por sua vez, fala em necessidade de diálogo e compreensão, num dream pop cuja melodia parece soprar como o vento, mas que vai ganhando ruídos e psicodelia – a letra avisa que em certos momentos, palavras são “cansadas e tensas” e não adiantam nada, num clima bem descontente.
De modo geral o novo disco do Big Thief é mais um álbum de acolhimento, de (vá lá) meditação, do que uma criação surrealista – diria que quanto menos surreal e mais acolhedor ele soa, mais ele parece ter um propósito, e letra e música. O grupo faz um bittersweet bem bonito e dolorido em Los Angeles, faz dream pop com vocal forte em All night and all day (cujo beat, logo no começo, ameaça iniciar um maracatu) e emociona com o vocal de longo alcance e a letra naturalista da faixa-título. No fear é um pós-punk sensível, ligado ao folk, que vai crescendo no ouvido – com algo de Joy Division misturado, em meio aos sete minutos da faixa.
- Ouvimos: Jonathan Richman – Only frozen sky anyway
Laraaji insere algo que lembra um aboio, em clima quase brasilianista, no soft rock Grandmother – uma música sobre a impermanência, as perdas, o que não estará mais aqui em pouco tempo, com uma frase surpreendentemente descontraída (“vamos transformar tudo em rock’n roll”). Happy with you segue uma fórmula comum no disco: soa como uma música eletrônica feita com percussões acusticas, trazendo elementos de The Cure e Siouxsie and The Banshees misturados no arranjo e na melodia. Uma música bem bonita, mas você pode acabar achando a repetição de frases da letra meio chatinha (porque às vezes é mesmo).
No fim, How could I have known soa nostálgica, ligada ao country, e simultaneamente tem algo de experimental, de esparso, de hipnótico. A letra também parece tentar hipnotizar todo mundo, num clima em que tudo parece vir de um sonho. Um bom fechamento para um disco em que até a confusão de conceitos parece ser um atrativo.
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Crítica
Ouvimos: E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante – “Lembrança” (EP)

RESENHA: Gravado entre São Paulo, Nova York e Berlim, Lembrança transforma o afastamento dos integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante em cinco instrumentais entre post-rock, psicodelia e shoegaze.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Balaclava Records
Lançamento: 15 de setembro de 2026
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Não é só a Terra que anda meio distante: Lucas Theodoro (guitarra e sintetizador), Luccas Villela (baixo), Luden Viana (guitarra) e Rafael Jonke (bateria), os quatro integrantes do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante andaram meio separados nos últimos anos, com Villela vivendo em Berlim desde 2023 e Viana tendo passado o último ano em Nova York.
Lembrança, o novo EP, é fruto desse afastamento, que levou a banda a compor as canções sem o baixo – Luccas precisou incluir o instrumento posteriormente, e as gravações contaram com sessões dos integrantes em seus estúdios particulares, entre SP, NY e Berlim. Lidando com uma “sombra” de instrumento, o grupo acabou criando um conceito sonoro de “lembrança”, que acaba atravessando as cinco faixas instrumentais do disco.
O clima voador, conhecido da banda, já surge na abertura, com a vinheta O passado é mais infinito que o presente – e dá um tempinho com o pé no chão de Aos poucos, aberta com aro de caixa e seguida com riff circular, além de um beat quase latino, numa onda próxima do post-rock. Lá pelas tantas, a guitarra ganha eco e surge uma parte 2 mais pesada, com guitarras distorcidas. Reprise, que dura um minuto, é literalmente uma vinheta – poderia ser até um “estamos apresentando” antes de um intervalo, com violão psicodélico e teclados numa onda meio new age.
Sem margem, em clima de transe instrumental, tem beat leve de maracatu. Já Antes que eu me esqueça, no fim do EP, é o som mais cara progressiva no disco, com uma batida que lembra um corte feito num drum’n bass e um clima bem viajante – até que cai no shoegaze, com guitarras bem emparedadas.
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Crítica
Ouvimos: Julia Jacklin – “The gem”

RESENHA: Em The gem, Julia Jacklin transforma lembranças da educação católica em dúvidas sobre deus, fé e controle, num disco de folk rock, jangle pop e guitarras fantasmagóricas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: 4AD
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Dizem por aí, e faz todo sentido, que da vida das pessoas, o catolicismo não sai – você pode ter ido para o extremo oposto (satanismo? ateísmo?), mas aquela quantidade de dogmas e aquele esquema de educação pela repressão entra no sangue. A australiana Julia Jacklin não é religiosa, nem vem de família católica, mas estudou em colégio católico em Melbourne, participou de corais, e muito de sua vida em meio a experiências religiosas acabou inspirando sua música. The gem, o novo disco, vem bastante desse universo, ou da resolução dele.
Existe um quinhão conhecido do pop e do rock ligado à iluminação – um “lance” religioso, mas que não necessariamente é ligado a nada organizado. De Madonna e Nando Reis, passando por Mutantes, Gilberto Gil e até Oasis (Champagne supernova é isso, não?), muita gente falou de transcendência sem citar deus, Jesus ou qualquer outra entidade. The gem fala de deus como uma eterna dúvida, que passa por temas como: é possível ser feliz de verdade com uma força superior te olhando? Por que alguém precisaria disso? Ainda mais levando em conta que o deus “onipotente e onisciente” não impede as maiores barbaridades de acontecerem?
Angel vision, por exemplo, usa símbolos religiosos para elencar questionamentos como “havia criaturas celestiais desesperadas para cantar para mim / braços frouxos, eu empurrava o teto / como ter certeza de que a fumaça que sai por baixo da porta não é de um incêndio?”. If I had the hand of god questiona: “se eu tivesse a mão de deus / será que o deus cuja mão eu tenho / seria do tipo que saberia a hora de desistir antes que a situação piore tanto?”.
Em alguns momentos, a impressão é a de que alguém MUITO religioso saberia o que responder a cada faixa de The gem – mesmo que fosse uma resposta baseada em algo muito intangível e fora da realidade. God sometimes, uma das letras mais realistas do disco, faria fanáticos religiosos espumar de raiva. Se Criolo perguntou “você vai querer mesmo se comparar com o Senhor?” em Ainda há tempo, Jacklin simplesmente passa por cima do assunto: “tente controlar o clima / mas às vezes você precisa ser um deus / force o momento a chegar / diferente das estações, isso não vai acontecer por si só”.
Musicalmente, The gem tem às vezes uma cara de folk rock + britpop puto e fantasmagórico, como em God sometimes e Brand new, em que ruídos surgem em meio às guitarras distorcidas e ao vocal sensível e controlado de Jacklin. If I had the hand of god é guitar country rock triste, e The hardest thing soa como jangle pop deprê e bonito – Get away from me (I think I’ll love you soon) é jangle de verdade, com um pé no pop sessentista.
Já Angel vision, I wish (com a participação da dupla folk de Melbourne, The Maes) e Real life trazem as belezas acústicas para o álbum – a segunda com uma batidinha indie dance e teclado celestial. You turned on the tap é voz e piano com cara de Lou Reed: som quase cerimonial e vibe contemplativa. Os vocais passam força e tristeza, e certo abandono – e mesmo nos momentos menos doloridos, há muita dor nos questionamentos de The gem.
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Crítica
Ouvimos: Throe – “II” (EP)

RESENHA: Em II, Vina Castro desmonta o metal melancólico do Throe em quatro faixas de drones, distorções e ambient sombrio, com sons que parecem ganhar corpo e virar fumaça.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 14 de setembro de 2026
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O Throe, projeto solo de Vina Castro, guitarrista da Huey e co-criador do site Sounds Like Us, já havia aparecido por aqui com Silver blue, álbum de metal introvertido, melancólico e chuvoso, com faixas longas e uma vocação ambient que aparecia em vários momentos. II, EP disponível apenas no Bandcamp, leva essa característica para outro lugar: sai um pouco a estrutura de “banda”, entram ruídos, drones, distorções e sons que parecem estar sempre prestes a se desfazer.
O release avisa que tudo foi gravado da maneira como foi composto – e dá pra notar que é música preservada no instante em que surgiu, inclusive com suas imperfeições. Às ondas, com nove minutos, abre com teclado e logo recebe uma guitarra sombria, que poderia apontar para o grunge, o pós-punk ou o stoner. Só que a faixa vai abandonando essas referências até virar praticamente uma onda sonora: dedilhados, drones e distorções se acumulam num clima hipnótico.
Agosto brinca justamente com uma das dualidades do EP. O início pode soar bonito e ambient ou anunciar alguma coisa bem menos palatável – e a segunda opção vai ganhando terreno quando entra a guitarra e os timbres assumem uma tensão fantasmagórica. Poro segue nessa direção com um drone tristonho, distorções e um clima que parece feito para arrepiar o ouvinte (será que o nome vem daí?).
Já Feedback abismo encerra o EP com um drone sombrio e repetitivo, quase um harmônio demoníaco – a primeira lembrança que vem à cabeça é The marble index, de Nico. A pressão aumenta, diminui e retorna num movimento circular, até o som começar a desaparecer no fim. Quatro faixas que parecem nascer, ganhar corpo e virar fumaça na frente do ouvinte.
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