Crítica
Ouvimos: Modest Mouse – “An eraser and a maze”

RESENHA: Modest Mouse retorna com An eraser and a maze, um disco inventivo, unindo alt-rock, pós-punk, folk e sarcasmo em canções sobre memória, humanidade e estranheza.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Glacial Pace Recordings
Lançamento: 5 de junho de 2026
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Muita gente mal lembra disso, mas o Modest Mouse já foi uma aposta musical ligada à MTV – Float on, primeiro hit deles, saiu há três décadas e virou sucesso na telinha. Isaac Brock, líder do grupo, pode parecer uma figurinha bem pouco comercial, mas veio de uma época em que o conceito de “rock alternativo” atraía fãs, por mais “alternativo” que fosse – e quase sempre o sucesso rolava exatamente por conta disso.
Tanto que Float on é aquele tipo de música que muita gente lembra, mas não lembra quem toca – coisa comum na farra de clipes e hits dos anos 1990, mesmo que o Modest Mouse tenha lançado seu repertório mais conhecido por uma gravadora grande. O grupo sempre teve um público fiel, que esperava há anos um retorno como o de An eraser and a maze. Um disco “sombrio” de brincadeira, e essencialmente belo, experimental e envolvente, com o pula-pula de arena de Picking dragons’ pockets, o folk uterino, eletrônico e funkeado de Remember yourself, o cântico pós-punk de Life’s a dream e Third side of the moon (sons herdeiros de Pixies e Replacements simultaneamente). Por aí.
Isso não dá nem a metade de An eraser and a maze, disco de 50 minutos e 15 músicas no qual se contam vários contos sobre memória, humanidade e heranças, das mais esquisitas às mais bem vindas. O sarcasmo do single Look how far… é bem isso aí, unindo “berço” histórico e sentimentos de superioridade: “você disse que é parente de antigos reis ou czares / por que você não constrói uma máquina do tempo e mostra a eles o quanto você caiu? / veja o quão longe chegamos / meu deus, somos tão burros”.
A dupla Dogbed in heaven / Give it a skeleton vai do folk esquisitão e psicodélico ao baixo fincado no chão – e questiona vida e morte ao mesmo tempo. Absolute necessary never, um synth pop excêntrico, é daquelas músicas que mostram que a vida acontece quando a gente olha os acontecimentos pelos prismas alheios. Enquanto alguém se destrói com baixa autoestima, outra pessoa só quer comer num fast food (na letra, Brock cita a cadeia de restaurantes White Castle) e ir pra casa.
Essa noção de “música excêntrica” é uma boa chave para entender o Modest Mouse: Brock e seus cometas parecem interessados em transformar tudo em um universo próprio – que alude ao pós-punk e ao alt rock noventista, mas com letras sarcásticas, personagens estranhos e vinhetas que dão sensação de “conceito”. A ponto de uma das músicas mais bacanas do disco ter 34 segundos, Stoner party, e de Song about nothing fazer o / a ouvinte vibrar com uma faixa que apenas oferece “uma canção sobre nada”, pra “cantar junto”.
Impossible somedays, no final, é mais um alt-rock anos 1990, com ritmo andarilho, trama bacana de guitarras e tom guitar rock. Já a letra entrega que o Modest Mouse é mais “gente como a gente” do que parece. Afinal, versos como “bem, tudo é impossível se você nem tentar / embora ninguém permaneça o mesmo o tempo todo” e “adivinhe quem dormiu todas as segundas-feiras? / sonhando com dias impossíveis” falam da nossa vida – e aí você volta ao começo de An eraser and a maze e busca entender até os momentos mais desconcertantes do disco.
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Crítica
Ouvimos: Adult DVD – “Adult DVD”

RESENHA: Em seu primeiro álbum, o Adult DVD cruza pós-punk, Madchester e acid house com letras sobre chefes escrotos, conspiracionistas, egos gigantes e outros personagens ridículos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Fat Possum Records
Lançamento: 25 de setembro de 2026
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Demorou, mas o Adult DVD, vindo de Leeds, chega ao primeiro CD (opa, isso foi só pra combinar com o nome da banda). E chegou na hora certa, em que estileiras como dance-punk não parecem ter sido chupadas de alguma viagem new rave, e ganham cada vez mais vida própria, em geral num ambiente bem próximo dele mesmo, o punk.
Se Fcukers, outro peso pesado da dança punk, chama a atenção para a descaralhação noturna, Adult DVD é da zoeira: climas dançantes e pesados são unidos a doideiras como uma música sobre chefes escrotos e funcionários que subtraem material de escritório (World’s best boss, uma brincadeira tendo aparentemente a série The office como tema) e outra sobre pessoas que começam coisas, dão desculpas e não terminam (Jesus Christ supercar).
Já Coffin dodger fala de uma pessoa que tem tanto fear of missing out (FOMO) que não quer perder nem o próprio funeral (!). E Royal Tree Lee fala do sujeito ultramacho, paranoico e conspiracionista que se enfia demais nos cantos mais estapafúrdios da internet. Boa parte do álbum é tomada por faixas sobre figuras com egos gigantescos e comportamentos ridículos – a própria banda andou revelando isso.
Musicalmente, Adult DVD, o disco, é balizado pelo pós-punk: sons de Madchester e acid house dão a letra para faixas como Do as I please, Coffin dodger e os teclados voadores e zoeiros de Cold caller, além do riff poderoso de teclado de Jesus Christ supercar. Minimal criminal, Cowboy on aisle three e The steaks are high, curiosamente, dão a entender que bandas como Magazine (a do Howard Devoto, não a do Kid Vinil) rolam em playlists interrnas do Adult DVD.
A segunda metade do álbum chega a parecer mais experimental que a primeira, com beats frenéticos e climas acid dominando músicas como All I need (um Domingo Legal do demo) e a rapidaça Rolling face. Se você tem dúvida de que é diversão garantida… Olha, não tenha.
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Crítica
Ouvimos: Lava Divers – “Nigredo”

RESENHA: Após quase dez anos sem disco, o Lava Divers retorna com Nigredo, álbum de guitar rock sobre luto, despedidas e transformação, entre shoegaze, peso e ecos de My Bloody Valentine e Radiohead.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Midsummer Madness
Lançamento: 28 de agosto de 2026
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Depois de quase dez anos de ausência dos estúdios, a guitar band mineira Lava Divers está de volta com um disco, Nigredo, que funciona como um indicador de tempo – nem que seja para esquecer da marcação, e determinar que a vida anda apenas para a frente.
Na alquimia, o título do álbum indica o estágio em que a matéria se desfaz, perde sua forma e entra em decomposição. Lutos e transformações pessoais vividos por Amanda Bredariol (bateria e voz), Ian Alves (guitarra), Joe Porto (guitarra e voz) e Glauco Ribeiro (baixo) durante o preparo do disco indicaram que, mais do que um título, Nigredo era um caminho a ser seguido.
Um fato acabou transformando Nigredo num indicador mais forte ainda: fundador da banda, e figura atuante na gravação, mixagem e masterização do álbum, Eddie Shumway saiu de cena – ironicamente após ajudar a transformar as ideias do grupo em áudio, e antes de se tornar mais um luto na história da banda. Nigredo, antes de sua morte, já estava definido como um disco de guitar rock sombrio e ágil, com canções como Nine of swords, instrumental quase até a metade, apresentando a letra original em inglês declamada em português, com participação de Jair Naves (Ludovic).
Entre amores idos, mortes reais e figuradas, despedidas e a necessidade de continuar, Nigredo vai do peso terreno de faixas com Gehenna ao clima celestial de baladas-ou-quase, como I am (Holy birds) e Maria. Entre evocações de My Bloody Valentine, Jesus and Mary Chain e Radiohead, surgem lembranças até de Beatles na bela Summer of your love, e da breve fase garage rock do Primal Scream (No one), além da tranquilidade ruidosa de September night, 24.
O Lava Divers adere ao som quase metálico em Time, uma espécie de blues guitar rock, e encerra tudo com as trevas totais de Beat, introversão e escuridão sem disfarces, em voz e violão. Um retorno bem bonito.
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Crítica
Ouvimos: Eraser – “Operator!”

RESENHA: Em Operator!, o Eraser mistura synth punk, pós-punk, no wave e hardcore com ruído, humor e gravação de cara analógica — como uma pepita estranha dos anos 1980 encontrada em 2026.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Siltbreeze Records
Lançamento: 18 de setembro de 2026
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O Eraser vem da Filadélfia, é formado por Sonam Parikh (vocal e sintetizadores), Kat Bean (baixo), Pier Harrison (guitarra) e Juliette Rando (bateria), e faz synth punk e pós-punk – tudo junto e misturado, a ponto de mal dar pra saber onde termina um e começa o outro. Operator!, o segundo álbum, já abre em clima pós-punk e quase no wave, com a conversa telefônica irônica de Main menu, que serve como anúncio das músicas. Mesmo surfando uma onda próxima do punk e tendo teclados na banda, o Eraser faz diferente: prefere o ruído, a galhofa, algo entre a crueza do hardcore e o clima demolidor de uma banda como o Wire.
Operator! é um disco de 2026 que poderia ser uma pepita sumida dos anos 1980, já que a gravação + mixagem são pra lá de (aparentemente) analógicas. A guitarra de Pier Harrison lembra uma mistura de Richard Lloyd (Television) e Joey Santiago (Pixies), e faz uma dupla com o baixo de Kat Bean em músicas marciais como Crindy (homenagem a uma espécie de “Cinderela” da banda, sempre citada quando falta tempo para arrumar a casa), Trey e a inventiva DVD – que, graças aos teclados de Sonam, parece quase com duas músicas em paralelo.
Algo próximo de um videogame pós-punk surge em Imp e na faixa-título, enquanto vibes próximas das fases mais insociáveis da Gang Of Four dão as caras em Miracle bitch. Um disco de invenções e experimentações, com letras de poesia crua, como na satírica Innard Skynyrd (“por dez dólares eu posso arrancar minhas entranhas como um fio / usá-las como linha de pesca, estou me desfazendo / talvez possamos pegar meus olhos e jogá-los na pia / cortar o peixe, guardar as espinhas e deixar as vísceras afundarem”.
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