Crítica
Ouvimos: Bar Italia – “Some like it hot”

RESENHA: No quinto disco, Some like it hot o Bar Italia perde a espontaneidade e se confunde entre pretensão, algumas boas ideias e timbres, e falta de direção.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 6,5
Gravadora: Matador
Lançamento: 17 de outubro de 2025
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Quando Los Hermanos começaram a fazer sucesso, surgiram milhares de bandas falando de vulnerabilidades de macho sensível e adotando referências supostamente mais highbrow que o restante do rock nacional (várias dessas bandas, aliás, não passaram do primeiro álbum). Quando ficou na moda gravar em casa usando apenas um computador, um monte de artistas decidiu lançar demos e álbuns que estavam claramente inacabados. Nesses casos, não era “estilo” nem bedroom pop – era simplesmente a falta de um produtor que falasse: “cara, isso tá uma merda, larga mão de ser maluco!”.
Provavelmente os vocais desafinados e o clima vale-tudo de Getting killed, disco novo do Geese, vão fazer um monte de gente querer fazer igual – sem entender direito qual o “conceito” envolvido na parada. No meio do caminho, tem o Bar Italia, uma banda londrina que em seu quinto disco lançado em cinco anos, Some like it hot, parece estar com dificuldades para entender o que eles mesmos quiseram dizer com os bons discos anteriores.
O que parecia espontâneo e despojado em discos como Tracey denim (2023) ganha uma aparência um tanto quanto metida a besta no álbum novo, como se o Bar Italia fosse a banda residente do próprio Bar Italia (um café no SoHo, em Londres) e estivesse acostumado a tocar para a multidão que lota o local todas as noites, formada pela turma que já conhece eles de outros rolês.
Antes que o Bar Italia comece a ganhar ares de delírio coletivo, vale dizer: há saída. Os timbres lembrando The Cure de faixas como Fundraiser, Eyepatch e I make my own dust são o que mais funciona no álbum. O mesmo vale para a marotice da pauleirinha Cowbella (cuja base soa como um encontro esquisito entre a agilidade do The Cars, o experimentalismo do Television e emanações do grunge) e da valsinha Bad reputation, além da vibe 60’s de Marble arch.
Por acaso, uma coisa feita para dar certo na banda acaba naufragando em Some like it hot: os vocais divididos de Nina Cristante (vocal), Sam Fenton (vocal, guitarra) e Jezmi Tarik Fehmi (vocal, guitarra). Em vários momentos, tudo soa como se os cantores estivessem interpretando cada um seu papel – no sentido teatral da coisa – nas faixas, e não como se fossem eles mesmos. É algo para ser repensado.
Existe uma certa onda “finja até conseguir” no conceito do Bar Itália que parece ter atingido seu ápice no disco novo. Some like it hot tem momentos em que o/a ouvinte pode ficar com uma certa sensação de “oi?” que não é positiva. Rola no pop falsamente sofisticado de Plastered, no clima tenso (parecendo copiado do Nirvana de In utero) de Rooster e na psicodelia anos 1960/1990 de Lioness. São momentos em que o Bar Italia acaba ganhando uma cara de não-sei-para-onde-estou-indo, que não necessariamente passa a imagem de um grupo eclético. Tanto que Some like it hot, às vezes, soa como as faixas doidonas de um disco duplo jogadas num disco só.
A faixa-título, no fim, deixa tudo mais maluco ainda; piano fantasmagórico, guitarras rangendo, até que em 1:17 a canção começa de verdade, revelando-se um jazz-blues de cabaré, em que Nina canta como uma vedete. Na real, um clima sexy e vaporoso que faltou bastante num disco cujo título faz referência à comédia Quanto mais quente melhor, estrelada por Marilyn Monroe – e uma música que com certeza merecia que os fãs não tivessem que passar por quase dois minutos de quase-silêncio para ouvi-la.
Como o próprio Bar Italia produziu Some like it hot, parece ter faltado alguém para dar uma chamadinha nos três músicos (o tal papo do “larga mão de ser maluco!” do começo do texto). Ou sei lá.
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Crítica
Ouvimos: Stingray – “Enemy” (EP)

RESENHA: Stingray mistura crossover metal, hardcore e ódio político em Enemy: um EP brutal, ríspido e totalmente fora do tempo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: La Vida Es Un Mus
Lançamento: 15 de maio de 2026
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O selo londrino La Vida Es Un Mus costuma acertar sempre: especializado em punk, pós-punk, synth pop e outros estilos, ele foca em bandas que encaram esses estilos como uma linda do tempo em constante movimento – é um som de 2025/2026, mas o passado tá lá, firme e forte, mais como guia do que como prisão. No caso dos britânicos do Stingray, mesma coisa: Enemy, o novo EP, é crossover metal como não se faz mais – aliás literalmente não se faz mais, porque essa denominação possivelmente já foi esquecida diante de várias fusões musicais entre metal e punk.
- Ouvimos: Death Lens – What’s left now?
Aqui, essa nomenclatura é a melhor maneira de bandeirar músicas como a faixa-título – uma verdadeira festa da revolta, com rispidez digna de bandas como Ratos de Porão e D.R.I., urros que lembram Max Cavalera e versos como “a menos que sejam cobertos de piche e penas, a turba não ficará satisfeita / em um confronto direto com sua cabeça, terão piedade quando estiverem a dois metros debaixo da terra / mostrarão misericórdia quando o inferno congelar”. Eita.
Daí pra frente, é só na força do ódio: Black milk é punk + doom metal, com mais pragas de madrinha na letra (“grite até seus pulmões colapsarem, o sangue gelar, desvaneça na escuridão / nada a que se agarrar nesta vida, exceto meu amor, exceto minha faca”). Like dogs é rapidez, desespero e ódio aos donos do poder. Impeding doom abre com algo de pós-punk, mas os urros dão a deixa para a faixa virar um porradão punk + metal.
Já o eterno retorno dos FDPs à cena política (especialmente no governo do Rio) ganha seu hino em Failed harvest, que faz lembrar a fase Descanse em paz (1987), do Ratos de Porão (na letra, versos como “uma colheita fracassada, acho que fizemos nossa escolha /nunca aprendemos, todas as estações passaram”). Realidade nua e crua.
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Crítica
Ouvimos: Death Lens – “What’s left now?”

RESENHA: Punk californiano, revolta e identidade: o Death Lens mistura urgência política, pós-punk e peso em músicas sobre filhos de imigrantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 24 de abril de 2026
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Vindo de Los Angeles, o Death Lens já existe há um bocado de tempo e fala da vida punk nos Estados Unidos pelo ponto de vista de filhos de imigrantes. Bryan Torres (voz), Jhon Reyes (guitarra), Ernie Gutierrez (guitarra) e Tony Rangel (bateria) não douram a pílula e escrevem músicas sobre pessoas que conviveram desde cedo com a perspectiva da derrota, mas sempre partindo para a ação, esteja ela onde estiver.
Monolith, a faixa de abertura de What’s left now?,, chama a atenção por versos como “sem terno, sem gravata, apenas um sorriso forçado / dizem: você nunca vai conseguir / me veja começar”, além do apagamento de “quer minha história? / está enterrada em cuspe”. Out of my skin tem versos que lembram Henry Rollins: “queriam meu silêncio, eu lhes dei uma guerra / todas as janelas estão trancadas, então arrombei a porta (…) / como você espera que eu mude / quando todos alugam espaço na minha cabeça?”. Debt collector fala sobre de qual lado a corda arrebenta mais fácil: “me venderam uma promessa / sempre foi sobre dinheiro, poder, as linhas na areia / o peso nas minhas costas e o sangue nas minhas mãos”.
- Ouvimos: Cola – Cost of living adjustment
São apenas três exemplos – e definitivamente não é fácil ouvir isso sem sentir a revolta subindo na garganta. Mas de onde isso aí saiu, tem muito mais: Power promete a continuidade da luta (“queimei o roteiro que me mandaram fazer / dobrado pela pressão, mas não vamos quebrar / este poder está crescendo”). Saints in the panic room é história e testemunho: “minha mãe chorou / meu pai gritou: eles vão levar vocês também / que levem (…) / não podemos jurar lealdade a terras roubadas / construídas sobre costas que você não suportaria”.
Vai por aí o idealismo do Death Lens, uma banda mais ligada à musicalidade do punk californiano, com sua rapidez e seus vocais “grito de torcida”, mas que volta e meia deixa entrar referências de pós-punk e até de ritmos latinos (Monolith), punk britânico (Waiting to know, com partículas emo unidas), climas eletrônicos e frios (Saints in the panic room), vibes melancólicas (Off the edge) e algo mais pesado e metálico (o duo de faixas Last call e Pulling teeth). Mesmo quando parece que a coisa vai ficar meio banal, rolam algumas surpresas. Ouça.
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Crítica
Ouvimos: The 2OO3 – “Solace in sounds”

RESENHA: Psicodelia sueca sem freio: Pink Floyd, Jorge Ben, MGMT, folk e britpop em sete faixas curtas e viajantes, no disco do The 2OO3.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 29 de abril de 2026
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The 2OO3 se define como “rebeldes suecos que desafiam os gêneros musicais”, promovendo mil misturas e encontros musicais no álbum Solace in sounds. A faixa-título abre com uma psicodelia bem estranha e experimental – o som chega a lembrar uma rádio mudando de estação – e que depois emenda num pop de rádio anos 1980. Um clima pinkfloydiano domina o álbum quase inteiro: Greed for money and fame lembra o grupo na fase de Atom heart mother (1970), mas também tem muito de MGMT. Trip to Irie, viajante como ela só, une Pink Floyd, Jorge Ben (o violão faz lembrar, e muito), britpop e um andamento leve de reggae. Loucura.
- Ouvimos: Telehealth – Green world image
O disco tem ainda Solace in sounds partes 2 e 3, em que a banda chega a lembrar filhotes de Syd Barrett – são baladas psicodélicas bem tranquilas. Afraid é folk entre Rolling Stones e a neo psicodelia do britpop e Song for Holly é lisergia e tristeza: um bedroom folk que depois vai levantando voo. Um disco curto (sete faixas, 20 minutos) e variado.
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