Crítica
Ouvimos: Sunn O))) – “Sunn O)))”

RESENHA: Sunn O))) lança álbum epônimo com drones longos, som denso e ritualístico; experiência hipnótica, estranha e nada acessível para qualquer ouvinte.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 3 de abril de 2026
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Greg Anderson e Stephen O’Malley, os dois únicos integrantes do Sunn O))), um projeto musical mais-do-que-apenas experimental de Seattle, lançam seu vigésimo álbum – que se chama apenas Sunn O))), e cujas músicas têm durações de assustar qualquer um. XXANN, a faixa de abertura (e veja lá que titulo) dura 18:21. Butch’s guns tem pouco mais de 14 minutos. Mindrolling passa dos 18 minutos. E as outras três faixas são mais econômicas (!), ficando entre o sete e dez minutos.
No fim das contas, são setenta minutos de um disco que oferece uma atração musical bem, digamos, fora da curva: notas sombrias e monótonas de guitarra, tocadas à guisa de riffs (não são riffs de verdade, vale dizer) e que vão sendo bastante esticadas. O resultado lembra uma música do Black Sabbath rodando na menor velocidade possível, ou a nota final de guitarra de 2000 light years from home, dos Rolling Stones, sampleada e colada nela própria. Tudo vai ganhando um ar cerimonial e até relaxante (pode acreditar), ainda que seja um relaxamento em pleno caos.
Greg e Stephen são igualmente mestres numa escola da qual fazem parte projetos como o Angine de Poitrine: não basta ser uma banda, você tem que levar seus fãs para um universo muito louco. É o tal do world building, sobre o qual o produtor e músico Felipe Vassão falou outro dia em seu canal, que consiste em um artista criar sua própria mitologia. Os dois integrantes do Sunn O ))) tocam fantasiados de monges, têm uma aparência bem misteriosa e usam gelo seco à vontade em seus shows – na real, você quase consegue observar a fumaça em pleno ar ao ouvir a música do duo em casa.
Mesmo que haja um evidente parentesco com estilos como post-rock, rock de vanguarda, etc, o imaginário do Sunn O ))) pertence ao heavy metal, e o som é drone metal – ganhando aspectos ameaçadores musicalmente lá pelas tantas em faixas como Does anyone hear like Venom? e sendo interrompido como um sinal luminoso com defeito em Butch’s guns. Mindrolling tem barulho de chuva ao fundo, e consegue fazer até os zumbidos das guitarras se tornarem algo decorativo.
Everett Moses e Glory black, no final, dão uma diferenciada no som – a primeira aderindo a um clima mais tenso, com corte brusco no fim, a última ganhando uma cara mais melódica, que poderia se tornar um grunge-blues de compasso ternário como os do Soundgarden, caso ganhasse baixo e bateria. Tem muito mistério a respeito de como o som do Sunn O ))) é criado em estúdio. Um perfil recente da dupla publicado no New York Times (veja bem, o New York Times anda interessado na estranhice musical, algo que pode ser creditado ao hype do Angine de Poitrine) diz que só para esse disco, 130 faixas de guitarra foram gravadas e escolhidas.
Ouvindo, nem parece: tudo soa bem simples, como se o Sunn O ))) seguisse até uma espécie de receita de bolo de drone metal. Não dá pra dizer que o resultado não é atraente – só não é pra qualquer ouvido e qualquer momento.
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Crítica
Ouvimos: Cuir – “Monoface”

RESENHA: Banda de synth-punk francesa, o Cuir volta com o curto álbum Monoface e, entre teclados e climas ágeis, aponta para bandas como Angelic Upstarts e até o lado punk do Anthrax.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 19 de junho de 2026
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O Cuir é um curioso projeto musical francês, feito por um cara chamado Doug Zilla, veterano do hardcore local – e que para sua banda nova, adotou uma espécie de balaclava rosa. O som é synthpunk, quase tão distorcido quanto sintetizado, com letras no estilo que-se-foda. Monoface é um álbum com, digamos, jeito de EP – mais ou menos como o da banda punk brasileira Basttardz, também assunto nosso hoje.
O nome “monoface” é justamente porque todo o repertório, que dura 15 minutos, cabe em apenas um lado de disco. Já o som do novo disco, mesmo com os teclados, aproxima-se às vezes da mescla de metal e hardcore, com Majeur em l’aair, na abertura, lembrando Anti-social, o hit da banda francesa de hard rock Trust que o Anthrax imortalizou. E faixas como Derniète minute e Road trip lembram bandas como Angelic Upstarts, enquanto Rock’n roll, interim, chômage cai dentro do hardcore-synth. Aliás, dá pra perceber uma conexão forte com a oi! music no som deles, embora Doug não concorde com o rótulo.
Os synths surgem como uma curtição a mais, em meio ao peso punk do grupo – que ganha ar de Stranglers + Rancid em Blastover e Brûler les barrières, e dá uma lembrada em Billy Idol em Spleen. Como vocalista, Doug é quase um rapper cantando punk, com vocais quase sempre brigões e falados. Resta saber se vinil e K7 (o disco sai nos dois formatos) de Monoface vão ter música só no lado A. Ou no B.
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Crítica
Ouvimos: Basttardz – “Tramas & traumas”

RESENHA: Banda maranhense Basttardz une peso, introspecção, punk, funk e até piseiro nas curtíssimas faixas do curto álbum Tramas & traumas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Brisa Rec
Lançamento: 13 de julho de 2026
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Seguindo a onda do álbum pequeno, Tramas & traumas, terceiro disco da banda maranhense Basttardz, é curtinho (oito faixas, 15 minutos) e foca no punk e no hardcore com misturas inusitadas e letras introspectivas. O som une hardcore e estilos como funk e rap (na faixa-título e em favelas), parte para o reggae punk em O inconsciente coletivo e insere até algo de piseiro, forró e reggamuffin em músicas como Vitrine e Do culto ao lucro.
O som do grupo é pensado como um mergulho, tanto no som quanto no universo deles – que inclui temas como influencers que surgem do nada, violência, exclusão, drogas de 2026 (na ótima letra de Tarja preta, que fala de aditivos usados para trabalhar, produzir, estudar, dormir e se deixar manipular) e memórias amargas que ganham espaço como traumas, anos depois. Tem inovação no som e um clima herdado da vulnerabilidade do emo Midwest, embora na prática o Basttardz faça uma música com bem mais foco em peso e beats.
- Ouvimos: Arlomine – Francis Frankenstein
Nas letras de Tramas & traumas, o grupo também une depressão e falta de grana. O desespero diante do capitalismo dá o tom de músicas como Desconstrução, que, inspirada em Construção, de Chico Buarque, encerra o disco olhando para quem já está quase desistindo de tudo.
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Crítica
Ouvimos: Francis Of Delirium – “Run, run pure beauty”

RESENHA: Entre shoegaze, dream pop e soft rock, Francis Of Delirium cria um álbum de melodias etéreas, ruído elegante e atmosfera cinematográfica.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Dalliance Recordings
Lançamento: 29 de maio de 2026
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Jana Bahrich, musicista radicada em Luxemburgo, responde pelo codinome Francis Of Delirium – que basicamente significa sonho, construções melódicas baseadas no mesmo delírio que surge no nome do projeto. Run, run pure beauty, o segundo álbum, tem elementos associáveis ao que normalmente é chamado de “shoegaze” e “dream pop” – no caso desse último, ele serve como um bom rótulo, por causa dos vocais mágicos e do clima quase voador das melodias.
Aliens, a música de abertura, tem o mesmo clima geralmente associável ao shoegaze, com guitarras em nuvem – mas Jana tem o cuidado de associar a seu som um mistério musical dado pelo uso de instrumentos de orquestra, que dá a algumas faixas um ar análogo ao de Ocean rain, o sombrio disco de 1984 do Echo and The Bunnymen.
- Ouvimos: Divers – Odd dog in the capital
O disco prossegue na beleza de Out tonight e da faixa-título – esta, com cordas em vibe meio beatle, lembrando as espirais de I am the walrus. Mas a partir daí surgem lados diferentes do Francis, que investe em aclimatações soft rock, em faixas como Higher, Little black dress e Sucker punch. Tudo combinado com a disposição para o barulho, já que Open up your mouth to love, por exemplo, une tranquilidade sonora, dada pelos violões, a um clima shoegaze leve.
Por causa disso tudo aí, tem momentos em que o som do Francis chega a lembrar uma versão mais indie dos Cranberries – ou o Mazzy Star com ambições mais épicas. Essa impressão dá bastante as caras em Requiem for a dying day. Em outras occsiões, o lado pós-punk do projeto dá uma escalada, como no baixo-à-frente e no clima meio Eurythmics de Damned, ou no noise-pop anos 1990 de It’s a beautiful life. No geral, um som muito bem concebido e montado.
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