Quando Sonia Abreu apareceu em capa de disco

Na música desde os anos 1960 e DJ até seus últimos dias, a paulistana Sonia Abreu, que saiu de cena na segunda-feira (26 de agosto) aos 68 anos, vítima de complicações decorrentes de doença degenerativa, já esteve nos créditos de vários discos. E também na capa de um disco. Em 1974, o selo Premier, ligado à gravadora RGE, começou a lançar uma série de LPs chamada Tá tudo aqui, com hits das rádios regravados por cantores de estúdio. O repertório da tal série cumpria uma gama bem variada de estilos musicais, incluindo sucessos internacionais, sambas, pop-rocks, temas de filmes e canções italianas (faziam um baita sucesso no começo dos anos 1970).

Logo no primeiro volume, é Sonia que aparece na capa, segurando uma pilha de discos, que parece bastante pesada. “Conheço esse disco desde que saiu e numa das nossas conversas, Sonia me disse ser ela na capa”, recorda o jornalista e compositor Ayrton Mugnaini Jr. Nessa época, Sonia já vinha atuando como DJ (foi a primeira mulher a exercer a função no Brasil). Já havia trabalhado na transmissão até dos Festivais Internacionais da Canção da Rede Globo. Também estava na programação da rádio Excelsior. No mesmo ano em que a Premier colocava Sonia na capa de um LP, a Som Livre colocava nas lojas a primeira coletânea da série Excelsior – A máquina do som, trazendo o nome da DJ na contracapa como produtora. O repertório desses LPs, igualmente na trilha dos hits mundiais, foi selecionado por ela.

Quando Sonia Abreu apareceu em capa de disco
Sonia Abreu em foto recente (reprodução Facebook)

Sem saber, já que muita gente sequer repara em fichas técnicas de discos, muita gente estava tomando contato com o trabalho de Sonia ao levar esses discos para casa. O nome dela apareceu na contracapa até o disco da Máquina do som lançado pela Som Livre em 1977. Dá para achar esse LP (além de todos os outros da série) na íntegra no YouTube.

Sonia também tocou na discoteca Papagaio Disco Club, e esteve por trás de pelo menos um LP lançado com a marca da casa noturna (o de 1978, também pela Som Livre). No auge da disco music no Brasil, foi ela quem também teve a ideia de colocar uma amiga, a dançarina Regina Shakti, para interpretar a “versão brasileira” da cantora inglesa Dee D. Jackson. Havia quem recebesse Regina na TV como se fosse a Dee D. Jackson de verdade.

Se você nunca, mesmo assim, tinha escutado falar de Sonia Abreu, mas acompanha o cenário do rock nacional desde os Mutantes, a sobrevivência de Arnaldo Baptista também deve muito a ela. Sonia e Lucinha, atual mulher do ex-mutante, foram duas verdadeiras leoas de chácara do músico, quando ele caiu/se atirou da janela de um hospital em São Paulo, em 1982. Na época, Arnaldo estava em processo de lançamento de seu segundo disco solo, Singin’ alone. Outra inovação de Sonia foi ter montado um sistema de som dentro de um ônibus e montado uma rádio móvel, Ondas Sonoras, que levava novidades da música a praças e praias.

Abaixo, confira uma entrevista de mais de uma hora com Sonia. Por uma triste coincidência, um dos temas da conversa foi a morte do DJ e radialista Big Boy, morto em 1977 num hotel em São Paulo, após uma crise de asma. Sonia era amiga do DJ e chegou a acompanhar o traslado do corpo de Big Boy de avião até o Rio.

(E recentemente a vida de Sonia virou livro: a biografia Ondas tropicais, escrita por Claudia Assef).