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Radar: Pedro Lanches, Martin Mendonça, Johnny Hooker e Ney Matogrosso, Violins, Uyara Torrente, O Boto

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Foto (Pedro Lanches): Pietro Leonardi / Divulgação

Abriu a semana e temos um Radar nacional prontinho – com algumas músicas que andaram saindo nos últimos dias e já estavam em nossas listas de “ouvidas”. Da evolução do som de Pedro Lanches ao rock groovado do O Boto, passando pelo encontro entre Johnny Hooker e Ney Matogrosso, o objetivo é a variedade (já reparou que o Radar nunca tem um só estilo musical?). Ouça e repasse!

Texto: Ricardo Schott – Foto (Pedro Lanches): Pietro Leonardi / Divulgação

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PEDRO LANCHES, “MIOPIA”. Cantor sul-matogrossense que vive em SP, Pedro Lanches já havia lançado o irônico álbum Veio sem maionese, numa onda mais voltada para o indie rock. Miopia, novo single, invade a área do pós-punk misturado com vibes sombrias – só que entrando num clima bem mais experimental, que permite mudanças de texturas e de velocidade da música.

Pedro diz que a mudança veio naturalmente, por causa “das nossas experiências ao vivo enquanto banda, tocando mesmo”. Tanto que, no palco, eles já pensavam em como a canção iria ficar, em “como a faixa respira no palco”. Já a letra fala de sentimentos confusos – expectativa, incertezas e nostalgia – e da tentativa de recobrar a sanidade diante disso tudo.

MARTIN MENDONÇA, “JUNTOS”. Guitarrista de Pitty há duas décadas, Martin prepara para breve o álbum Mundo de nós dois, que começou a ser composto antes da pandemia. E Juntos, primeiro single, é uma faixa em que o músico tenta representar o antes, durante e depois do isolamento que rolou nessa época. É um folk delicado, composto quase totalmente por voz e violão, mas com uso leve de outros instrumentos, como guitarra, baixo e bateria (esses dois, tocados por Cadinho Almeida e Victor Brasil, respectivamente).

“A música é sobre a celebração do coletivo, sobre construir esse mundo de ‘nós dois’ e ser feliz com ele. Aborda o processo ao qual fomos submetidos e as mudanças que isso causou na gente”, conta Martin, afirmando que o disco mostra as vivências dessa época como uma jornada.

JOHNNY HOOKER E NEY MATOGROSSO, “VIVER E MORRER DE AMOR NA AMÉRICA LATINA”. “A cigana me falou / cuidado que o amor vai te foder um dia” é o verso e abertura de Viver e morrer…., single novo de Johnny – e nesse início, a música já põe o/a ouvinte no universo do cantor pernambucano, unindo política, amores, paixão, memória e renascimento. Ney Matogrosso participa da faixa, canta também o verso de abertura logo depois, e sua participação na faixa é definida por Hooker como “um encontro de gerações que são filhos de uma luta contínua por liberdade”.

“Dividir esse projeto com esse grande nome foi melhor do que no sonho! Ney é de uma generosidade e carinho num nível estratosférico. Quando escrevi a música, percebi que estava falando sobre ele e isso me emocionou muito. E quando ele topou, fiquei incrédulo”, conta Johnny. Viver e morrer… é um bolero-rock – ou seria um rock-bolero? – cuja letra avisa também que “tome cuidado com o andor / tome cuidado menina / viver, morrer de amor / na América Latina / saiu três vezes é sorte / a carta da morte”.

VIOLINS feat. TALLIN STUDIO ORCHESTRA, “DOCE PRIVILÉGIO”. Lançada originalmente no EP Quase metade, de 2024 (primeiro lançamento do grupo goiano em seis anos), Doce privilégio retorna em versão orquestrada, com participação especial da Tallin Studio Orchestra. A ideia da gravação surgiu em agosto, quando o grupo tocou na Concha Acústica de Brasília ao lado da Orquestra Filarmônica de Brasília, com arranjos do pianista, arranjador e diretor musical Itamar Assiere.

O grupo adorou o resultado, e decidiu pedir autorização a Assiere para gravar a música com seus arranjos, em estúdio – só que com a Tallin Studio Orchestra, e sob a regência do maestro Kleber Augusto. A nova versão foi gravada no estúdio ERR, na Estônia, e ainda ganhou um clipe cheio de texturas, claros e escuros, coreografado e protagonizado pela bailarina Mare Rela, com direção e filmagem de Paulo Rocha e direção de movimento de Thiago Spósito.

UYARA TORRENTE, “OESTE” (CLIPE). Música incluída no mais novo EP da cantora curitibana, Gostosa, Oeste ganhou um clipe feito em Super 8, e com tomada única. O projeto, dirigido por Igor Urban e com fotografia de Gabriel Forgerini, nasceu na Oficina de Tomada Única da 20ª edição do Festival Curta 8, em Curitiba. Num papo com a revista Noize, ela explica que o filme “conseguiu refletir de maneira bem intensa a essência da música. Um manifesto íntimo de uma mulher que se sente viva, respeitada, descansada, em dia consigo mesma – e com o próprio gozo”. Não só isso: o clipe de Oeste conseguiu unir seu lado cantora e seu lado atriz.

O BOTO, “SUSHI NO VIOLÃO”. Essa banda paulistana anuncia o álbum Diferente de ninguém para 2026, e busca unir melodia e grooves no seu som – Sushi no violão, por exemplo, tem referências até de rap, mas é uma música que pode tranquilamente ser reduzida ao esqueleto voz-e-violão. João Pedro Rydlewski (voz), Lucas Benez (guitarra), Felipe Troccoli (baixo) e Gabriel Brantes (bateria) comentam que nomes como Charlie Brown Jr., Red Hot Chili Peppers, Lagum, Oasis e Seu Jorge também estão entre as influências da turma. Lucas afirma também que a letra de Sushi no violão “fala sobre aceitar o que muda e o que permanece. É sobre encontrar liberdade no fluxo da vida, seguir em frente sem culpa e viver de acordo com a própria verdade”.

Crítica

Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

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Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026

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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.

Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.

Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.

Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.

Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.

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Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

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Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026

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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.

Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).

Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.

Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.

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Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

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Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025

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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.

A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.

  • Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk

Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.

Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.

Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.

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