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Lançamentos

Radar: Everything Is Recorded, Joseph, Love Ghost, Shyfrin Alliance, Desu Taem, The Hives, Tyler The Creator

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O Everything Is Recorded no radar de hoje

O Radar ficou meio devagar nesta semana – e vai igualmente estar na próxima – por causa de trabalhos fora do Pop Fantasma (é, eles existem), questões pessoais pra resolver e um resfriado que já pode ser chamado de gripe. Mas vamos em frente com atrasos, e segue aí o Radar internacional de hoje. Um resumo do que andou ganhando alta rotação por aqui nas últimas semanas.

Texto: Ricardo Schott – Foto (Everything Is Recorded): Aliyah Otchere/Divulgação

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EVERYTHING IS RECORDED feat. SAMPHA, FLORENCE + THE MACHINE, JAH WOBBLE E DANIELLE PONDER, “WEAR AND TEAR”. Após o lançamento de uma ambiciosa coleção de três álbuns (resenhada pela gente aqui), o Everything Is Recorded volta com esse single novo. A ideia do idealizador do projeto, Richard Russell, é trabalhar com música experimental e quase sempre improvisada. Wear and tear mistura jazz, soul, experimentalismos e texturas de arrepiar, sempre na frente – com um bom número de colaboradores e ótimas companhias.

JOSEPH feat BECCA MANCARI, “I BELIEVE IN MYSELF”. Pop sobre autoafirmação e sobre passar a acreditar em si própria – depois de um momento longo em que você foi ensinada a nao acreditar jamais em ninguém. O Joseph, se você nunca ouviu falar, é um grupo de indie pop e indie folk formado no Oregon há mais de uma década, e que atualmente é formado só pelas irmãs Natalie e Meegan Closner – Allison, a outra irmã Closner, deixou o grupo em 2024. Na letra, Joseph e Becca avisam que o baixo astral pode vir até disfarçado, mas não vai conseguir nada com elas. Becca Mancari, cantora indie folk de Nashville, participa da faixa.

LOVE GHOST, “SPIRIT BOX”. Esse projeto musical norte-americano que mistura rap, emo, nu-metal e outros estilos, fala, em seu novo single, sobre mediunidade – a canção, afirmam eles, também é uma tentativa de se comunicar com “o outro lado da vida”. Com um repertório geralmente mais pesado, apostam dessa vez na leveza eletrônica, deixando os decibéis mais altos para o fim da faixa.

SHYFRIN ALLIANCE, “IN THE SHADOW OF TIME”. Esse projeto é cria de Eduard Shyfrin, um cantor e compositor nascido na Ucrânia, empresário, doutor em físico-química e estudante da Cabala, além de escritor. O material do Shyfrin Alliance gira em torno dos grandes mistérios do tempo. Mas o som de In the shadow of time não é nada esotérico: é um rock influenciado pelo blues, pelo jazz, pela pauleira dos anos 1970, em que Eduard tenta soar como um Lou Reed.

DESU TAEM, “SULFURIC ACID BATH”. Essa curiosíssima banda dos Estados Unidos – formada por um pai e um filho – lança discos na base do “você bobeou, nós lançamos um álbum duplo”. Uma das faixas mais recentes deles explica o que você deve fazer caso tenha tomado vários banhos e ainda não se sinta limpo o suficiente. O som é basicamente punk + metal com receituário ganchudo.

THE HIVES, “THE HIVES FOREVER THE HIVES”. The Hives forever The Hives, disco novo do The Hives (eita, haja repetição de nome nesse texto!) sai dia 29 de agosto. E vai se desenhanfo na frente dos fãs aos poucos. Agora é a vez da faixa-título virar single e clipe. Poderia ser um baita exercício de egolatria, mas o grupo usa seu peso e sua intensidade – tudo herdado do punk – para escrever uma celebração de todos esses anos de existência. E ficou bem legal!

TYLER THE CREATOR, “SUGAR ON MY TONGUE”. Dava para dançar ao som das músicas antigas de Tyler The Creator? Dava, mas o foco do rapper nunca esteve na dança. Com Don’t tap the glass, novo álbum (resenhamos aqui), Tyler decidiu só fazer música para mexer o esqueleto – até porque ter reparado que alguns amigos seus estavam com vergonha de dançar. Sugar, música próxima ao pós-disco e ao funk original, ganhou clipe com participações platinadas de participações especiais de LeBron James, Maverick Carter e Clipse.

Crítica

Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

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Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026

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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.

Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.

Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.

Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.

Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.

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Crítica

Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

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Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026

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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.

Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).

Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.

Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.

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Crítica

Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

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Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025

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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.

A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.

  • Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk

Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.

Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.

Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.

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