Crítica
Ouvimos: Everything Is Recorded – “Solstice equinox”

RESENHA: O Everything Is Recorded celebra o experimentalismo em Solstice equinox, box de quatro discos e quase duas horas, com convidados de peso.
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Fundador da gravadora XL Recordings e produtor, Richard Russell é um cara dos improvisos – a ponto de batizar seu projeto experimental de Everything Is Recorded, mostrando que todo som é importante e nada soa exagerado na hora de criar. A sonoridade abarca hip hop, folk, rock e cenários sonoros no estilo de Brian Eno – tudo dependendo um pouco também dos convidados, que são muitos.
2025 está sendo um ano bastante produtivo para Russell: em fevereiro, já saiu um álbum de quase 50 minutos do EIR, Richard Russell is temporary, com várias participações especiais. E agora sai Solstice equinox, um box com 4 discos, quase duas horas de duração e um número de participantes assustador: passaram pelo estúdio Alabaster DePlume, Jah Wobble, Ibeyi, Samantha Morton, Laura Groves, Jack Peñate, Roses Gabor, Mary In The Junkyard, Georgia, Sampha, Florence Welch e vários outros.
Meio exagerado à primeira vista, talvez – mas uma escutada despretensiosa em Solstice equinox mostra que Russell decidiu separar, em quatro discos, lados diferentes do Everything Is Recorded. O primeiro disco tem improvisos com samplers de voz e guitarra, em faixas como Sierra Kilo yankee, Brillian white e Nimbostratus – um clima basicamente de jazz krautrock e de pós-punk desértico lembrando Joy Division, ou David Bowie fase Berlim. How much light is visible? vai para o lado do chamber pop, no piano e na voz.
O segundo disco é a face jazz tribal do projeto, com invocações sonoras como Raise a noise, Perpetual inner motion, El Castillo, Citrine, Fate is decided e o samba indiano Altar, chegando ao folk em This is what happens e ao ambient sombrio em Falling flowers. No disco 3, tons mais meditativos e tranquilos, em músicas quase progressivas como Reconstituted love, Lightfalling e Water-earth, e fechando, krautrock eletrônico e balançado no último disco, o mais bonito da série, com faixas como o dub Bright light e o batidão Lover’s dream.
Solstice equinox, no fim das contas, assusta e impressiona pelo tamanho – mas vai passando rápido e equilibra sonoridades, de um forma que é comum nos discos do Everything Is Recorded. Richard, de certa forma, parece reverente no estúdio (em relação aos convidados e á música que todos produzem) e isso dá reverberações na música. Tanto que tudo soa como uma celebração dos experimentalistas que chegam perto do pop.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: XL Recordings
Lançamento: 3 de julho de 2025
Crítica
Ouvimos: Noite Suite – “Quase estrela” (EP)

RESENHA: O grupo baiano Noite Suite atualiza o sophisti-pop dos anos 1980 com shoegaze, trip hop e synthpop em Quase estrela, disco que também flerta com city pop e Roxy Music.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Outro dia fez sucesso no Instagram do Pop Fantasma um carrossel sobre o sophisti-pop – aquele pop-rock altíssimos teores que se popularizou nos anos 1980, com referências de soul, r&b e pop mais antigo, e conceito mais “adulto”. Muita gente notou, com toda razão, que faltou dar nome à turma que faz esse tipo de som no Brasil (nomes como Zero, Kiko Zambianchi, Guilherme Arantes e até Kid Abelha, além de Cazuza, tiveram fases marcadas pela busca do pop sofisticado e adulto).
Vindo de Salvador (BA), o Noite Suite é esse “pop sofisticado” dos anos 1980, só que traduzido para os idiomas do shoegaze e do trip hop. No EP Quase estrela, a banda formada por Bianca Gonzalez (voz, sintetizador, guitarra, piano), João Sarno (baixo, guitarra, sintetizador, voz), Paulo Tiano (bateria) e Yan Franco (guitarra, voz) une os dois climas a algo quase city pop no instrumental Promessa e na onda sonhadora de Nitrax nitrax – música de guitarras esparsas, com saxofone, quase um shoegaze noturno e marítimo. Lembranças de imagens e rostos, por sua vez, dão o tom de Sonho qualquer, um trip hop discreto, com guitarras pesadas.
O Noite Suite faz um shoegaze tropical, para ouvir de dia (na new bossa Sob a luz) e também paga tributo ao Roxy Music (na estelar Tanto a dizer). O final de Quase estrela, por sua vez, é dos mais marcantes, com Outras pessoas – que, sem brincadeira, parece uma junção do Ride com o Michael Jackson do hit Human nature. E com Casa doze, que abre oscilando entre synthpop e o lado mais eletrônico do britpop – mas dá pra enxegar até um ou outro toque de jazz ali. Uma ótima viagem sonora.
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Crítica
Ouvimos: Dirty Grills – “Depressão pós-party” (EP)

RESENHA: No EP Depressão pós-party, a dupla catarinense Dirty Grills cruza punk, garage, stoner e psicodelia em músicas sobre ressaca, frustração, noites caóticas e a queda depois da euforia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Aurora Discos
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Jéssica Gonçalves (guitarrista e vocalista) e Mariel Maciel (baterista) são as duas únicas integrantes da banda catarinense Dirty Grills – mas, ouvindo o EP Depressão pós-party, você vai acabar achando que se trata de uma banda com mais integrantes. O som é punk, sujo, psicodélico, emparedado sem ser shoegaze, com vocal narrado como se viesse de um megafone. Nomes como stoner e garage-punk saltam na frente na hora de bandeirar cada faixa.
Depressão pós-party parece apontar para aquela tristeza que vem depois da alegria ilusória – a turnê que “deu certo” mas não rendeu grana, a noitada que encerrou na ressaca, a falta de lembranças sobre a noite anterior. O som passa pelo punk arrasa-quarteirão (a faixa-título), um quase pré-punk (Superglue), stoner hipnotizante (Toque de recolher na ilha) e raiva riot grrl (Devido à turbulência, o serviço de bordo foi cancelado). Porradaria, com letras sempre repletas de movimento.
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Crítica
Ouvimos: Late Again – “I dreamt I was awake” (EP)

RESENHA: No EP I dreamt I was awake, o Late Again, projeto de Rafael Melo, mistura dream pop, city pop, drum’n bass e shoegaze para falar da distância entre imaginar e viver.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 4 de setembro de 2026
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Cuidado: neste exato momento, você pode estar vivendo uma vida de mentira. Ou seja: uma vida em que o idílico não está associado a um passado supostamente feliz, mas a uma vida atual em que você mais imagina do que efetivamente vive. Você pode imaginar que está passando por várias coisas, mas sem perceber – ou sem querer perceber – pode estar mais imóvel do que uma bicicleta ergométrica.
E aí que… Bom, ninguém está livre de passar por isso. Pode estar acontecendo comigo agora, com você, com qualquer pessoa. O Late Again, projeto musical de Rafael Melo (brasileiro vivendo em Nova York), decidiu fazer disso um tema do EP I dreamt I was awake – basicamente um disco de dream pop e city pop vaporoso, em que realidade e imaginação começam a se bater. To stop the time abre o disco falando de duas pessoas que passam a viver vidas incompatíveis. Mas curiosamente, nessa faixa, o som é bem nostálgico, com vocal parecendo vir de uma fita antiga, ou de algo misterioso sampleado.
O Late Again migra para um drum’n bass “mágico” em If you have a bridge (I’m buying) e para um pop adulto com evocações de Eyes without a face (Billy Idol) na irônica Crazy or stupid. Descontroles da vida dão as caras em My sore throat, pop com cara latina e psicodélica, com algo jazzy no piano. O sarcasmo de All my exes moved to the countryside surge com cara de bossa abolerada e beat de Casiotone, numa onda meio “fulano dos teclados”. O final é com Everytime I take Sudafed (referência a um descongestionante nasal), único “rock” do disco, com clima shoegaze e letra falada. Um disco realmente sonhador, mas as letras falam daqueles momentos em que é melhor cair na real.
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