Nem Marysa Alfaia, que já tem mais de 25 anos de carreira, nem mesmo o clássico da música francesa F… comme femme, do ítalo-belga Salvatore Adamo, são ilustres desconhecidos – aliás nem a versão feita por Marysa para a canção, vamos dizer. Mas tem novidade aí: a releitura já andou por duas trilhas sonoras de novelas – e uma das tramas, Era uma vez, volta hoje em reprise no canal Viva. F… comme femme, na voz da cantora carioca, volta e meia pode ainda ser escutada no rádio. E chegou tem pouquinho tempo às plataformas digitais, pelo selo Caravela.

E não foi a única música da carioca Marysa, também atriz, a ser lançada nos últimos tempos. A cantora também lançou em 2020 o single Eu parei, que trouxe uma das últimas gravações de ninguém menos que Gerson King Combo, que participou não apenas da faixa como do clipe dela.

“Ele era um cara muito pra cima, uma pessoa cheia de energia. Fiquei até surpresa de saber que ele tinha problemas de saúde, que tinha sofrido com diabetes”, conta Marysa, que ficou impressionada ao ver Gerson dançando no estúdio durante as gravações do clipe, e também ao conferir de perto o estilo do pai do soul nacional.

“Ele usava capas e sapatos feitos especialmente para ele, tudo adaptado a um estilo muito personalizado. Tinha um costureira que fazia as roupas dele, até queria fazer roupas com ela. No dia da gravação, ele levou todas as roupas separadas, eu até o ajudei a se vestir. Era também um bom ator e um cara muito fotogênico. Conheci o Gerson pelo irmão dele, Getúlio Côrtes, e ele passou a fazer parte da minha família”, recorda. Eu parei foi gravada em dois estúdios diferentes – um deles mais próximo da casa de Gerson, mais fácil para a locomoção do cantor, já que no dia também seriam feitas as imagens do clipe nas quais ele aparecia. A parte “da praia” foi feita em Ipanema, próximo do réveillon de 2019.

FRANÇA

Já a história de F… comme femme na voz de Marysa já vem de muito tempo – e rola toda uma relação com o histórico da cantora. No fim dos anos 1980, Marysa foi finalista de um festival de música no teatro da Aliança Francesa, quando estava deixando de ser apenas atriz e estava se envolvendo com shows. Conseguiu ir à França na sequência e passou um tempo lá, mas não poderia trabalhar como atriz porque não dominava o idioma.

“Mas o Arrigo Barnabé, que estava lá, me apresentou para um produtor musical, o Philippe Kadosh, numa festa. Cantei um pouco na festa, mas nunca tinha pensado em me profissionalizar”, conta ela, que, desse contato, acabou virando cantora de vez, e montando um repertório de bossa nova e MPB para cantar na França. Gravou também um single na França, Melí-melô, em 1994, migrou para vertentes mais dançantes como o samba-house e depois passou a fazer vários shows.

Em 1996 Marysa chegou a se apresentar na Fundição Progresso no evento Fest In Rio, ao lado do franco-argelino Khaled. Lembra de El arbi, música dele que fez bastante sucesso no Brasil entre 1999 e 2000? Marysa gravou uma versão dessa faixa, Miragem.

NOVELAS (NAS TRILHAS)

Em 1998 (por sinal ano da Copa do Mundo na França), F… comme femme apareceria na vida de Marysa. E pelas mãos de outro grande nome do soul e do pop nacionais, Lincoln Olivetti. “Eu ainda morava lá e cá, e o Lincoln me propôs fazer o meu álbum, e que a gente começasse com essa música”, recorda.

“Era época do charme no Brasil e eu tinha a ideia de fazer algo numa onda meio r&b. Cheguei a fazer vários shows com direção musical do Lincoln. Aprendi muito com ele sobre minha voz, sobre recursos que estavam escondidos, a cantar até com o útero, como dizia Janis Joplin”. A música foi pensada para um single, mas depois acabou indo parar na trilha da novela Era uma vez, de Walther Negrão e começou a ser executada em FMs.

Por acaso, não era a primeira vez que essa canção iria parar numa trilha de novela – gravada pelo autor Salvatore, ela esteve na trilha de Beto Rockfeller, da Tupi, em 1968. E não seria a última, já que a versão de Marysa foi parar também na trilha de Tempos modernos, mais uma trama da Globo, de 2010. O retorno rendeu à cantora o palco do Canecão: ela fez uma das últimas apresentações da casa, antes do fechamento, para divulgar a volta da música à televisão. O show teve participações de amigos e parceiros como Fausto Fawcett.

BAILA COMIGO

Em 1998, o sucesso de Era uma vez e da versão de F… comme femme levou Marysa ao Video Show – que por aqueles tempos era apresentado por Miguel Falabella. A matéria está no YouTube e, quem viu na época, lembrou que Marysa já havia aparecido bastante na televisão. Fez até um papel pequeno, em 1981, em Baila comigo, novela de Manoel Carlos.

A novela foi uma das primeiras participações dela na TV, embora ela tenha começado na música bem antes, tocando piano aos seis anos. Aos 14 anos, começou a fazer teatro na escola. “Eu era muito tímida, era uma pianista solitária, era filha única, mas era sociável. Ir para o teatro representou encontro com o grupo social”, conta ela, que foi parar em Baila comigo justamente porque precisavam de uma atriz que tocasse piano. “Eu contracenava com o Carlos Gregório, que tocava sax”, recorda ela, que depois fez um papel maiorzinho em Eu prometo (1983), última novela de Janete Clair.

“Já tinha um contratinho, era outra coisa. Fiz a Bia, que era secretária do personagem do Francisco Cuoco. Depois fiz Armação ilimitada e programas de humor, e fui pra França”, conta ela, que está no elenco de um filme chamado Pecado vermelho, dirigido por Bellamir Freire, que estreia em breve, entre outras produções.

OVELHA NEGRA

Recentemente um encontro com a mais nova sensação de Ipanema trouxe uma nova participação para o próximo projeto de Marysa. Assim que a pandemia der um tempo, ela vai levar de volta aos palcos o show Mania de você, com o repertório de Rita Lee, que vai virar um EP com o single Ovelha negra. E o clipe vai ter a participação de Rebeca, a “ovelha de Ipanema”, que já tem cerca de 1.500 seguidores no Instagram (@rebecaovilha). Marysa encontrou com ela e com seu dono, Evilásio Carneiro, no supermercado.

“Eu estava fazendo compras e vi a Rebeca numa coleira, cheguei a pensar que fosse um cachorro até que ouvi ‘mééé'”, brinca. “O Evilásio chegou e disse que era uma ovelha negra. Ficamos amigos na hora. Falei para ele do show, ele disse que também era fã da Rita e já a ofereceu para o clipe. Fizemos até uma sessão de fotos e participamos do Domingo espetacular, da Record. Somos duas ovelhas negras e queremos transformar o mundo num admirável mundo novo”, diz.

Foto: Roberto Cardoso/Divulgação

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