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Crítica

Ouvimos: Smashing Pumpkins, “Aghori mhori mei”

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Ouvimos: Smashing Pumpkins, "Aghori mhori mei"
  • Aghori mhori mei é o décimo-terceiro disco de estúdio dos Smashing Pumpkins, hoje um trio formado por Billy Corgan (voz, guitarra, composições), Jimmy Chamberlin (bateria) e James Iha (guitarra). O disco por enquanto saiu apenas em formato digital. Uma edição em vinil com conteúdo expandido está prevista para 22 de novembro de 2024. Para a mesma data, está previsto o single Formosa/Our Lady of Sorrow.
  • A banda vinha trabalhando no álbum desde 2022 – em meio a isso, lançaram a ópera-rock tripla Atum. Para Billy Corgan, o disco é a versão Mellon Collie/Siamese dream do grupo, e é um álbum voltado para as guitarras pesadas – ao contrário do som mais variado e eletrônico de álbuns anteriores. A ideia de Corgan foi voltar à mentalidade que ele tinha quando fez as músicas dos primeiros discos, mas sem tentar se repetir. “Você tem que quase descobrir uma nova versão da versão antiga”, disse aqui.

Nos últimos anos, os Smashing Pumpkins cismaram que seus fãs morrem de saudade dos mistérios de discos como o gigante Mellon Collie and The Infinite Sadness (1995) – faz sentido, já que o terceiro álbum do grupo é uma das várias explosões dos anos 1990, aquela época em que parecia que cada artista poderia ter seu The dark side of the moon particular, nem que fosse por 15 minutos. Levando em conta que o líder Billy Corgan lamentou por vários anos que Machina/The machines of god (2000), último disco da primeira fase da banda, geralmente era esquecido e subestimado, tons sombrios, sobrenaturais e místicos estariam garantidos nos álbuns seguintes, nem que fosse por pura teimosia.

Foi mais ou menos por aí que tudo rolou, em discos cujos títulos mais pareciam nomes de videogames, como Shiny and oh so bright, Vol. 1 / LP: No past. No future. No sun. (2018), Cyr (2020) e a (boa, vá lá) ópera-rock Atum (lançada em três partes entre 2022 e 2023). “Mais ou menos”, no caso, porque os Pumpkins passavam a maior parte do tempo migrando do metal alternativo para o synth pop, e em vários discos, pareciam terem perdido bastante a mão. No razoável Zeitgeist (2007), o primeiro disco da fase 2, Billy voltou acompanhado apenas do baterista Jimmy Chamberlin, e deixou confusos até mesmo os fãs mais ardorosos: será que a independência que ele jogava na cara de seus colegas de banda em discos anteriores (ele regravava guitarras e baixos em álbuns como Siamese dream, de 1993) era para inglês ver?

E pronto: Aghori mhori mei, o disco novo dos Pumpkins, é de verdade o tal disco “da volta ao rock” que andam falando por aí, e mostra que Billy Corgan, ao lado de Jimmy e de James Iha (guitarra), resolveu ir além das aparências, e assumiu que o peso, a beleza e as guitarras de discos como Gish (1991) e Siamese dream (1993) já são clássicos. Os riffs da faixa de abertura, Edin, já deixam isso bem claro – assim como a gravação de voz de Corgan, que sugere uma volta aos anos 1990. Na sequência, o clima desértico e roqueiro de Pentagrams, adornada por sintetizadores, e o balanço de Sighommi (primeiro single do disco, lançado junto com o álbum).

O baladão dream pop da orquestral Pentecost cresce o olho para fãs de metal alternativo, e a marcial War dreams of itself lembra uma faixa perdida de Gish. Na segunda metade do disco, os Pumpkins fazem lembrar (pode acreditar) um Pearl Jam gótico em Who goes there, deixam cair uma grungeira rápida em 999, lembram os tempos de Machina em Goeth the fall. O disco é encerrado com um repetitivo festival de riffs em Sicarus e com uma costumeira balada nebulosa e grandiloquente do grupo, Murnau.

Aghori mhori mei não é o disco perfeito dos Smashing Pumpkins, e deixa no ar uma certa impressão (reforçada pelos discos imediatamente anteriores) de que a magia se perdeu, e Billy Corgan teve de descer do olimpo que ele acreditou habitar. Vale dizer que a quase inexistência de artistas atuais influenciados musicalmente pelo lado guitar band dos Pumpkins, indica que Corgan percebeu que o som do grupo envelheceu bem mais do que o de bandas como New Order, R.E.M., Sonic Youth, Blondie e The Cure – cujas referências podem ser achadas até em discos bastante pop dos dias de hoje. O saudoso Steve Albini costumava zoar o Pumpkins chamando a banda de “REO Speedwagon das festas college”, um ou outro crítico musical já chamava a atenção pro fato de que havia uma caretice básica incrustrada na fórmula da banda. O tempo não diminuiu as qualidades dos Pumpkins, mas tratou de colocar as coisas em seus lugares.

Nota: 7
Gravadora: Martha’s Music/Thirty Tigers

Crítica

Ouvimos: Grateful Dead – “Merriweather 6/30/85” / Hot Tuna – “2008-07-13 Villa Ada…” (ao vivo)

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Grateful Dead e Hot Tuna voltam aos arquivos ao vivo: um recupera um show de quase três horas de 1985, enquanto o outro lança uma apresentação acústica gravada em Roma em 2008.

RESENHA: Grateful Dead e Hot Tuna voltam aos arquivos ao vivo: um recupera um show de quase três horas de 1985, enquanto o outro lança uma apresentação acústica gravada em Roma em 2008.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8 (para ambos)
Gravadora: Rhino (GD) e Hot Tuna Ltd (Hot Tuna)
Lançamento: 18 de setembro de 2026 (GD) e 20 de junho de 2026 (Hot Tuna)

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Surgidos nos anos 1960 na onda da psicodelia, Grateful Dead e Hot Tuna têm mais do que apenas esse detalhe em comum. Ao contrário do movimento comum do mercado, em que bandas gravam discos e (nessa ordem) fazem shows, eles sempre foram duas bandas “de palco” que gravam discos. Mais até do que isso: historicamente são bandas que encaram show como unidade de catálogo, com inúmeras apresentações gravadas e uma história antiga que pode ser acompanhada à distância.

O Grateful Dead, por exemplo, construiu um negócio em torno disso, com box sets caprichadas que documentam turnês. É o caso da recém-lançada Summer magic 1985, caixa com 20 CDs contendo sete shows completos gravados entre 14 de junho e 1º de julho de 1985, incluindo os três shows comemorativos do 20º aniversário da banda. Merriweather 6/30/85, que traz a apresentação de quase três horas dada pela banda no Merriweather Post Pavilion, em Columbia, Maryland, saiu na caixa mas se destacou e foi parar nas plataformas. E é um demonstrativo básico do que andava rolando nas mentes de Jerry Garcia, Bob Weir e seus amigos por aqueles tempos.

Em 1985 o Grateful Dead ainda não havia passado pela sobrevida do hit Touch of grey (1987), mas já havia vivido várias fases diferentes, sempre acompanhadas por fãs fieis. Mesmo com alguns improvisos (como o percussivo Drums, em que só os bateras Bill Kreutzmann e Mickey Hart tocavam, em meio a efeitos de som) e músicas bem esticadas (incluindo uma releitura de Gimme some lovin’, do Spencer Davis Group), soava como um grupo mais tranquilo, voltado para seu catálogo pós-American beauty (o disco de 1970) e mais chegado ao blues e ao soul (este, por intermédio do namoro com a disco music de Shakedown street, de 1978, presente no repertório).

De ruim aqui, só o fato de que o GD parece obcecado com a ideia de que dava pra reproduzir tudo nos teclados – em vários momentos, saxes e até guitarras aparecem sintetizados, com timbres meio chatos. Já quanto ao Hot Tuna, desse susto ninguém morre. Concebido por Jorma Kaukonen e Jack Casady como um spin-off do Jefferson Airplane, onde os dois tocavam, o duo sempre privilegiou instrumentos acústicos (no começo era um mini-Jefferson desplugado, levado adiante pelos dois) e tem vários álbuns ao vivo na discografia – inclusive os dois primeiros, de 1970 e 1971. Lá pela metade da década foi se transformando numa banda “elétrica” e pesada, numa fase que durou pouco.

O Hot Tuna não grava nada novo desde 2011, mas vem soltando nas plataformas o seu arquivo de gravações ao vivo, indo de shows mais antigos a apresentações do século 21. Já são dezenas de lançamentos. 2008-07-13 Villa Ada, Via di Ponte Salario, Roma, Italy é o mais recente e vem em clima de “uma noite” (ou uma tarde, quem sabe) com o duo e seus violões. É basicamente um show intimista, em que Jorma e Jack puxam seu songbook particular de country e blues, cabendo de clássicos autorais como Serpent of dreams, Sea child e Genesis (esta, com lembranças de Cat Stevens e James Taylor) até blues históricos como Nobody knows you when you’re down and out (James Cox).

Tocando para uma plateia provavelmente bem misturada (a Villa Ada é um parque em Roma), Jorma e Jack tentam falar italiano com a plateia, vendem camisetas e souvenirs de turnê (tem uma faixa do disco só pra isso) e põem até um trecho da Tarantella na tradicional Hesitation blues – que depois ganha clima country. Ouça na paz.

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Crítica

Ouvimos: Gueersh – “Macarrão de guerrilha”

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Resenha: Ouvimos: Gueersh - “Macarrão de guerrilha”

RESENHA: Em Macarrão de guerrilha, o Gueersh dá novos rumos aos improvisos e cruza no wave, psicodelia, math rock e Clube da Esquina sem perder o gosto pela experimentação.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Independente
Lançamento: 16 de setembro de 2026

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Gravado num estúdio normal no Rio, o disco novo do Gueersh veio de passagens bem imersivas do grupo por vários estúdios improvisados. Por outro lado, o som do grupo experimental em Macarrão de guerrilha ganhou uma cara meio diferente: de certa forma parece haver um mapa nos improvisos, algo que dá uma unida na musicalidade. Não que o Gueersh tenha encaretado, só ficou mais experiente.

Nos primeiros tempos havia algo próximo do shoegaze no som deles que hoje surge de maneira bem mais discreta – como na no wave psicodélica de Tempo das coisas, com um ritmo que vai se formando em torno da melodia, e vai ganhando ares de valsa. Fica bem mais claro que a ideia do grupo é criar uma psicodelia que nem sequer cabe em caixinhas, em meio aos climas arnaldianos-mutanteanos de Nova esperança, ao som circular e quase math rock de Guerreires do Jóquei, e ao Clube da Esquina slacker de Sempre pode ser – uma música quase espacial, com guitarras que se tornam verdadeiras pastilhas de LSD tocadas.

As percussões “de mato” e o violão distorcido da curtinha Pré-queda introduzem os quase doze minutos de Mangueira prata, uma viagem sonora que exercita a imaginação: e se Lou Reed e Syd Barrett, no começo do Velvet Underground e do Pink Floyd, unissem forças e musicalidades? O resultado é um som para fazer o cérebro dançar.

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Crítica

Ouvimos: Matt Berninger – “Type it up” (EP)

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Resenha: Matt Berninger – “Type it up” (EP)

RESENHA: Matt Berninger transforma o EP Type it up numa espécie de souvenir de turnê, misturando rock oitentista, blues e ecos de Roxy Music a versões de New Order e Velvet Underground.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Concord Records
Lançamento: 18 de setembro de 2026

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O cantor do The National, Matt Berninger, tá gostando da carreira solo – decidiu até brincar um pouco com ela, já que o EP Type it up ganha ares de souvenir da turnê de seu segundo disco, Get sunk (2025, resenhamos aqui). A faixa-título já vinha sendo cantada por ele nos shows, se chamava Black letter font e foi passando por refações na medida em que ele percebia que os fãs não entendiam alguns versos. Uma faixa bem característica do universo de Matt, que aponta para um Roxy Music mais indie, ou para um rock “oitentista” orgânico, que seria resolvido à base de synths lá por 1984.

Martini me fatso, a faixa de abertura, tem ares de blues rock, e Ask for water, já que falamos do Roxy Music, lembra um desvio pé-no-chão de discos de Bryan Ferry como Boys and girls (1985) e Bête noire (1987). O material autoral é completado com duas covers atraentes: Blue monday (New Order) ganhou mais peso, e Who loves the sun (Velvet Underground), gravada com Rosanne Cash para a trilha da série Sunny nights, descobre o lado country que sempre existiu nessa música.

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