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Crítica

Ouvimos: Sam Fender, “People watching”

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Ouvimos: Sam Fender, “People watching”

Sam Fender é um cantor e compositor da região de Newcastle, no Norte da Inglaterra – dá para perceber tanto pelo sotaque mastigado da cidade, quanto por sua preferência por um som que tangencia o folk. People watching, seu terceiro disco, deixa no entanto a impressão de que Sam é norte-americano, não inglês.

Isso porque as referências mais encontráveis no álbum são R.E.M. (o pop delícia da faixa-título), Byrds (junto com R.E.M na reflexiva Nostalgia’s lie, que se pergunta: será que o passado foi bom mesmo ou será que eu inventei tudo?), soft rock setentista (Arm’s lenght, com um riff de guitarra que é puro country). E em especial, Bruce Springsteen soa como um quase pai espiritual de Fender em todo o álbum, em melodias e letras. Não custa lembrar que o produtor é Adam Granduciel, da banda norte-americana de rock-de-raiz The War On Drugs.

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Há outras referências, na verdade. Chin up traz um lado mais britpop para o disco, com linhas vocais funkeadas e um belo arranjo de cordas no final. Crumbling engine e Wild long lie lembram os flertes do rock inglês oitentista com o pop romãntico e as paradas de sucesso. Os vocais de TV dinner têm balanço de quem já ouviu muito hip hop, mas a abertura da música tem algo de Supertramp, por causa do piano e do synth.

No final, Remember my name, uma homenagem ao falecido avô de Sam Fender, tem uma tristeza solene que, por vezes, lembra Queen. Mas tudo operando debaixo de um chapéu springsteeniano: mesmo quando fala de amor, Sam assume o lugar de um jovem duro da classe trabalhadora da Inglaterra e mira um público ferrado, que possivelmente vai economizar dinheiro para vê-lo cantar em estádios lotados.

Uma das maiores demonstrações disso é Something heavy, que poderia ser gravada tanto por Bruce Springsteen quanto por Patti Smith, e cuja letra fala sobre a miséria humana do dia a dia, assombrada pelos destroços do capitalismo (“carregando um ao outro pela avenida / a cidade nunca esteve tão cansada / metade dos bares bombardeados depois da Covid”).

Nota: 8,5
Gravadora: Polydor
Lançamento: 21 de fevereiro de 2025

Crítica

Ouvimos: Downtown Boys – “Public luxury”

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Resenha: Downtown Boys – “Public luxury”

RESENHA: Art punk bilíngue, pesado e combativo: o Downtown Boys une punk, eletrônica e esperança em Public luxury, disco que transforma luta sindical em música.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Public luxury (“luxúria pública”), terceiro álbum da banda estadunidense Downtown Boys, traz lembranças e recados para quem é contra a escala 6×1, para patrões que chamam funcionários de “colaboradores” e para empresas que oferecem para os funcionários o básico (protegido por lei) como se fosse uma baita vantagem trabalhista. É art punk bilingue (cantado em inglês e espanhol), pesado, sombrio e – pode acreditar – cheio de vitalidade e otimismo.

Entre o segundo álbum, The cost of living (2017) e o novo, o grupo conciliou a música com o trabalho sindical (!) – vai daí, o Downtown Boys é o tipo de banda que sabe o valor da luta, do protesto e da briga pública, numa visão 2026 do punk classe-operária dos anos 1970 e 1980. Na abertura de Public luxury, tem punk em espanhol com vocais gritados (No me jodas), country-punk com riffs lembrando The Cure (The city begins) e uma faixa com tecladinho lembrando Stranglers, além de um som sinistraço de guitarra (Sirena). É assim que todo mundo é apresentado à música do grupo.

  • Ouvimos: Makeshift Art Bar – Marionette (EP)

Se o punk é marcado pelo cinismo em potencial, Downtown Boys são bem o contrário disso – especialmente no que diz respeito aos vocais abertos e expressivos de Victoria Marie. Ela canta “todavia, acredito no futuro / todavia, vejo nossos mortos” no hardcore-country Viva la rosa, insere a palavra “amor” em clima Bjork na new wave-com-vibrafone Yellow sun, e solta palavras de ordem na eletrônica You’re a ghost, o mais próximo que o Downtown Boys consegue chegar do Ministry.

Na onda art punk do Downtown Boys sobra até pros Pixies, citados no arranjo de Albuterol. Rola também um batidão em Mi concha, meio indie sleaze, meio forró rápido – além da vibe quase gótica, com saxofone, de Public works. A curiosidade que ninguém esperava é a house music da faixa-título, que encerra o álbum. Uma coda de diversão em meio a vocais sindicais que parecem sair de um megafone, e da ferocidade das guitarras. Peso sonoro feito por gente que vive política.

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Ouvimos: Makeshift Art Bar – “Marionette” (EP)

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Resenha: Makeshift Art Bar – “Marionette” (EP)

RESENHA: Makeshift Art Bar mistura jungle, industrial, ska e eletrônica pesada em Marionette, EP intenso, caótico e cheio de tensão.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Heist or Hit
Lançamento: 26 de junho de 2026

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Vindo da Irlanda do Norte, o Makeshift Art Bar é uma banda interessada em porrada, caos e ousadia: Marionette, o segundo EP, une sons eletrônicos e peso sem soar parecido com o Ministry ou com qualquer outra banda craque do estilo.

O som de faixas como Chocolate é basicamente um jungle distorcido e imagético, gravado como se fosse uma trilha de filme – dá para imaginar uma pista de dança escura bombando. Crows é um blues industrial porradeiro, em que o ritmo parece dado por várias correntes rangendo, enquanto a letra fala sobre incertezas e falta de paz.

  • Ouvimos: Data Animal – Future of ghosts

Marionette é um EP curtinho, com duas faixas em cada metade. Discipline tem ares de Laibach e de Alien Sex Fiend – une música sombria, clima hi-energy, peso e ondas de pavor. Servant, no final, é um ska demoníaco e pesado, em que temas como controle mental e manipulação se tornam cada vez mais apavorantes.

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Crítica

Ouvimos: Bleeder – “Marble station” (EP)

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Resenha: Bleeder – “Marble station” (EP)

RESENHA: Bleeder une pós-punk, post-rock e experimentalismo em Marble station, EP que transforma duas covers em viagens sonoras densas e sombrias.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Escho
Lançamento: 5 de junho de 2026

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Direto da Dinamarca, o Bleeder é o projeto musical de Peter Peter, mais conhecido como autor de trilhas de filmes de ação e crime. No EP Marble station, ele se cerca de amigos, como Elias Ronnelfelt (do Iceage), para unir pós-punk e experimentalismo roqueiro histórico.

Marble station tem quatro faixas, mas o clima é de ocupação sonora, abrindo com a faixa-título. São nove minutos de música em que as guitarras vão tomando conta de um jeitão até meio emo – mas com piano luminoso e clima perdido, quase de post-rock, em que o peso vai chegando aos poucos. Here comes the dead, a outra autoral do álbum, é metal post-rock, em clima sombrio e sonhador.

O repertório de Marble station é complementado por duas covers. Boy / girl, de Lydia Lunch, vira hardcore ruidoso e eletrônico, com ares de Ministry, mas ganhando até uma percussão. If not this time, música da pioneira banda experimental estadunidense Fifty Foot Hose, é psicodelia sombria sessentista. Loucura sonora mapeada.

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