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Crítica

Ouvimos: Rodrigo Ogi, “Aleatoriamente”

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Ouvimos: Rodrigo Ogi, "Aleatoriamente"
  • Aleatoriamente é o terceiro álbum do rapper Rodrigo Hayashi, ou Rodrigo Ogi, de 43 anos. O disco, com doze faixas, teve produção de Kiko Dinucci (Metá Metá) e tem aparições especiais de Tulipa Ruiz, Juçara Marçal, Thiago França, Russo Passapusso, Siba, Don L e Alana Ananias.
  • O disco teve gestação longa, sendo gravado entre 2019 e 2023 – o disco anterior dele, o EP Pé no chão, saiu em 2017.
  • Em entrevista ao jornal O Globo, Ogi diz que ao começar a escrever suas letras “vou construindo a história como se fosse um cara tocando jazz, botando as palavras como se fossem notas”, contou.

O disco novo de Rodrigo Ogi é quase rap de horror. Como letrista, ele investe num realismo fantástico que encontra pouco paralelo por aqui. E em vários momentos, parece estar observando a si próprio e assustado com suas próprias reações – ou as reações de seus personagens, sempre tentando escapar de alguma situação ruim, ou de alguma armadilha na qual eles próprios se enredaram.

Se fosse cineasta, Ogi seria especializado em filmes dos quais você não consegue ter nenhuma intuição lendo o título, e não percebe direito o universo em que está se metendo logo nas primeiras cenas. Até que um mundo simultaneamente bem estranho e bem identificável envolve o espectador. Como rola em Eu mudei pra esse prédio, uma estranha mistura de violência, sentimentos (nobres e ruins) e um pulo do fim da linha à redenção em poucos minutos. Ou em Chegou sua vez (com Juçara Marçal), trazendo o destino marcado de quem vê o sofrimento de vários pares e não ajuda ninguém porque acha que vai escapar da maldade alheia. Ou na tragédia do fundo do mar Peixe (com Tulipa Ruiz), levando para outros universos o dia a dia de quem não tem para onde correr. Apesar do nome Aleatoriamente, não é um disco aleatório: soa como uma aterrorizante coleção de contos em que um susto dá prosseguimento ao outro.

Em outras faixas, Ogi entra na missão – árdua, ainda mais em se tratando de rap – de falar de amor sem soar banal ou ressentido. E manda bem, como em Eu pergunto por você (com Don L) e no amor-não-romântico de Cupido (com Thiago França). Sonorizando as histórias, uma mescla de sons que lembram o lado mais feroz do synth pop, um funk ultrapesado e hardcorizado, ou um espécie de nu metal com batidas quebradas.

Nota: 9
Gravadora: Independente

Foto: Reprodução da capa do álbum (fotografia original de Enio Cesar)

Crítica

Ouvimos: End It – “Wrong side of heaven”

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Resenha: End It - "Wrong side of heaven"

RESENHA: Em Wrong side of heaven, o End It transforma hardcore veloz e imprevisível em confronto com capitalismo, colonialismo e abuso de poder — sem poupar nem os próprios erros.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Flastspot Records
Lançamento: 29 de agosto de 2025

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Alerta de resenha atrasada! Atrasadíssima, por sinal, já que Wrong side of heaven, primeiro álbum do End It (lançado após dois EPs, além de um álbum ao vivo no Audiotree) é um disco de 2025. Vindo do Baltimore, o End It une agilidade musical a, mais do que som hardcore, um clima hardcore. Ou seja: aquela coisa do “tudo pode acontecer” que, em tempos meio complexos, é deixada de lado.

O material do grupo é sempre escrito de um ponto de vista anticapitalista e anticolonial, em que acertos de contas são tão importantes quanto apenas pura e simplesmente protestar. Tipo em Empire’s demise, que fala em “250 anos, impérios não podem durar / espero que o fim chegue mais rápido do que isso” e desce o cacete no imperialismo norte-americano, enquanto a banda desce a lenha num hardcore funky e sombrio. Ou no ódio ao patrão de Exploiter (SYBAU), despejando todo o lixo de volta em quem sempre esteve no poder.

A faixa-título, curta e grossa, serve como introdução ao universo do grupo, e descortina um mundo feroz, em que o ritmo rápido acompanha temas como vinganças pessoais (Pale horse), fome como força motriz do capitalismo (Billion dollar question), independência (Life sublime), falta de integridade (Optical delusions). Um radicalismo sonoro e lírico que, no fim das contas, faz bem aos olhos e ouvidos – e que traz o próprio cantor e letrista Akil Godsey escrevendo um pedido de desculpas (I, lament), em que se coloca no banco dos réus e fala de erros e excessos do passado.

Wrong side of heaven é também o disco que mostra poderosos arruinados (Used 2 be), os assassinatos do capitalismo (Anti-colonial), heranças malditas (a curtinha Future without a past) e até um curioso lado emo em Could you love me?, cover da banda Maximum Penalty – na qual Godsey mostra que conseguiria cantar até hard rock, se quisesse. Um álbum fundamental em tempos de ameaças a democracia.

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Crítica

Ouvimos: PIG1987 – “Upon this rock I build my church”

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Resenha: PIG1987 – “Upon this rock I build my church”

RESENHA: Em Upon this rock I build my church, o PIG1987 usa webcore, jungle e techno para narrar uma internet que prometeu liberdade e acabou dominada por algoritmos, big techs e vigilância.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: BEDROT PRODUCTIONS
Lançamento: 28 de agosto de 2026

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Tido como um projeto musical de webcore – voltado para sons da eletrônica dos anos 2000, com direito a ruídos de internet antiga e outros detalhes – o PIG1987 na verdade brinca com a sensação de que, lá por 2002 / 2003, tudo começou a ruir. Upon this rock I build my church, mesmo que quase sempre usando apenas sons, conta uma história em que a web 2.0 surgiu, todo mundo ganhou “liberdade” na internet, mas o jogo virou e nos tornamos um brinquedinho nas “mãos” imaginárias dos algoritmos. E nos tentáculos das big techs.

Definido como “um espelho de autoaversão e inadequação”, o PIG1987 começa tudo com uma oração eletrônica e satânica (Prayer), segue com um jungle feroz e boca-suja (This rock), vai em frente com a vibração de alguma boate próxima (Heaven nightclub prelude e Heaven nightclub, que parecem feitas com algum equipamento bem simples) e ganha climas bem mais hipnóticos em faixas como Harder, Let it take control e a curiosa How 2 make techno, que mais parece um áudiolivro distorcido ensinando a fazer música eletrônica.

Tudo bem sombrio e estranho, com declarações de princípios em faixas como You are data, Recommendation algorithm e On that day, todas parecendo um videogame possuído pelo demônio. Dysphoria e That pit feeling in your stomach vão mais fundo na violência sonora, com beats frenéticos e fantasmagóricos, e The world where nothing works fala desse mundo em que vivemos como o inferno de outro planeta. Essa igreja não veio para contar mentiras.

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Ouvimos: I Will Die In This Jean Jacket – “Hang from a cloud”

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Resenha: I Will Die In This Jean Jacket - “Hang from a cloud”

RESENHA: Jim Blaha, criador do I Will Die In This Jean Jacket, faz no álbum caseiro Hang from a cloud um som parecido com o das mixtapes que um amigo fazia na adolescência: pós-punk distorcido e subterâneo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Swami Records
Lançamento: 21 de agosto de 2026

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Criado por Jim Blaha, músico de Minneapolis que faz som há mais de duas décadas, o I Will Die In This Jean Jacket é um projeto de um cara só, e com uma missão particular. Jim se trancou em seu porão com um gravador Tascam 388 em dezembro de 2025, com a ideia de compor canções que tivessem o mesmo clima das mixtapes que um amigo fazia quando eles eram adolescentes skatistas. Daí saiu Hang from a cloud, álbum curto (10 músicas, 21 minutos), conciso e cheio de ganchos legais, entre o rock e o ruído.

A visão que Jim tem dessas mixtapes é um encontro entre o pós-punk e os sons mais subterrâneos do rock que ele ouvia na época. Trancado em casa, ele fez um disco quase darkwave, com vocais sussurrados e reverberados (lembrando Jesus and Mary Chain), bateria eletrônica suja, baixo à frente, vibe dançante, e guitarras e teclados na cola de The Cure.

Some new day, que abre Hang from a cloud, é exatamente isso aí – enquanto D.O.A., que vem na sequência, põe Suicide, The Saints e Buzzcocks na mesma receita, com violão na base e uma gravação + mixagem tão infecta que tudo vira uma sombra de sujeira. Já The nothing way soa como uma onda dark tirada no som de bandas como New Order e Modern English (aqueles, do hit I melt to you).

Hang from a cloud prossegue com o jangle pop “marcial” de So nice, o punk minimalista, gótico e bem configurado de Above me e Always home, o jangle punk de Too bright, o J&MC acelerado de Miracles… Tudo bem explosivo, sujo e reverberado, encerrando com a energia luminosa de Careless.

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