Crítica
Ouvimos: Ney Matogrosso & Hecto, “Canções para um novo mundo”

- Canções para um novo mundo é o novo disco de Ney Matogrosso, que marca a parceria dele com a banda-dupla Hecto, formada por Guilherme Gê (voz, teclados, guitarra) e Marcelo Lader (guitarra). O disco tem participações de Roberto Frejat, Ana Cañas e Will Calhoum (Living Colour), além de colaborações musicais com Paulo Sergio Valle, Mauro Santa Cecilia e Sergio Britto (Titãs), entre outros.
- “A decisão de gravar um álbum com a Hecto se deu pelo repertório, que eu gostei muito, além de adorar o rock. As letras são muito contundentes, o que me chamou a atenção. Aí eu canto, porque não tenho restrição. E olha, a parceria vocal com o Gê é uma novidade, né? Eu tinha feito isso só com o Pedro Luis, lá atrás (2004)”, diz Ney.
- “Ney caiu de cabeça no álbum e claro, o projeto se transformou profundamente, foi o começo de uma grande parceria. Além disso, a generosidade e tranquilidade dele no processo todo é um aprendizado pra qualquer artista”, revela Guilherme.
O universo do rock não é nada estranho para Ney Matogrosso – que começou numa banda do estilo, Secos & Molhados, e em 1976, já solo, transformou Mulheres de Atenas, de Chico Buarque, numa canção perdida de David Bowie ou do T. Rex. Mas se alguém achava que faltava um disco “de rock” na discografia solo do cantor, não falta mais.
Acompanhado do Hecto, em Canções para um novo mundo, o cantor afia a pegada indo para os lados do rap-metal com herança de Titãs (a zoação cruel Pátria gentil, com linguagem de telemarketing), para o hard rock com referências de música latina e samba (Teu sangue) e para o samba-metal com guitarra pesada e pandeiro (Nosso grito). Solaris tem tom quase pós-punk, com violões lembrando R.E.M. e Smiths. Dessa música participa Roberto Frejat, o segundo convidado mais bem aproveitado do disco – o principal surge na abertura, em que Will Calhoun, da banda Living Colour, toca bateria em Pátria gentil.
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Em época de 40 anos de Rock In Rio (a primeira edição do festival, aberta por Ney em janeiro de 1985) e de memórias tristes evocadas pelo filme Ainda estou aqui, não surpreende a sinergia que vem de Canções para um novo mundo, disco cujas letras falam de situações lamentáveis do país, mas sempre enfatizando que algo novo bate na porta.
A faixa-título, lembrando a MPB pop dos anos 1980 (de discos como Ideologia, de Cazuza, de 1988), grita: “são as mesmas questões de Shakespeare/guerras e beijos (…)/ninguém pode impedir do novo mundo chegar”. Anonimato, MPB com pegada samba-rock vinda dos anos 1990, suscita várias questões: a letra trata da devolução à não-fama das pessoas que estão fora do universo dos algoritmos? Fala sobre alguém que é sempre apagado historicamente? Ou sobre alguém que, de fato, perdeu tudo que tinha? O refrão traz a frase “que saudade de existir!”
Para fãs antigos de Ney, outra novidade é que o vocal do cantor foi gravado de maneira diferente no álbum, trazendo uma certa sujeira que dificilmente alguém vai ver num disco dele, ou mesmo num show. Canções para um novo mundo, mesmo não sendo propriamente um disco do cantor (é um álbum basicamente do Hecto, embora com personalidade vocal dada por ele) traz também um novo mundo para a história de Ney Matogrosso.
Nota: 9
Gravadora: Som Livre.
Lançamento: 10 de janeiro de 2025.
Crítica
Ouvimos: Shelf Lives – “hypernormaL”

RESENHA: hypernormaL, do duo canadense Shelf Lives, mistura electro-punk, rap e new wave num som caótico e destruidor, cheio de energia e clima de descontrole.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Not Sorry Mom Records
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
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O Shelf Lives é um duo do Canadá que faz electro-punk. Bom, um pouco mais do que isso: a cantora Sabrina Di Giulio e o guitarrista e produtor Jonny Hillyard seguem a mesma linha caótica e destruidora de Jehnny Beth e seu disco solo You heartbreaker, you. hypernormaL segundo disco da banda (com todos os títulos estilizados como se fossem escritos ao contrário), até dá uma enganada no começo com 2 phoneS, basicamente um punk eletrônico cujo beat volta e meia se torna parecido com um drum’n bass, e cujo andamento parece próximo de um B-52s do demo.
E a tal “enganada” surge porque, daí pra diante, é ribanceira abaixo, ou acima: baby sonG parece uma mescla do mesmo B-52s com Ministry. don’t laugH soa como um hino ao caos e à destruição. sycophanT é um encontro do rap underground com a sonoridade do Cabaret Voltaire. 60 K une tédio e desespero nos vocais e na melodia. psychO, definida pela banda como “uma história fictícia inspirada em um videogame” parece um diálogo doentio que existe apenas na cabeça de uma única pessoa, inspirado no solilóquio do personagem Travis Bickle (Robert de Niro) no filme Taxi driver – musicalmente, tem algo de pop francês misturado a uma noção suja de new wave.
Oscilando quase sempre entre vibrações electro-bass e design artístico punk, hypernormaL se torna um disco reconhecível para fãs de rock em momentos como like heR, canção de amor e desespero que tem algo de Hole e Smashing Pumpkins, e em tone deF, algo como o Shampoo (lembra de Trouble?) só que em tom sujo e destruidor. Um disco que quer te deixar tonto / tonta e sem chão – e quase sempre consegue.
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Crítica
Ouvimos: This Is Lorelei – “Holo boy”

RESENHA: Holo boy reúne 10 faixas antigas de Nate Amos (This Is Lorelei), regravadas. Indie pop que mistura pós-punk, folk e psicodelia, com clima de demos e escapismo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Double Double Whammy
Lançamento: 12 de dezembro de 2025
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Nate Amos faz parte da dupla de indie pop Water From Your Eyes ao lado de Rachel Brown – o disco mais recente deles, It’s a beautiful place, ganhou resenha nossa aqui. This Is Lorelei é seu projeto solo, e Holo boy é o segundo álbum – na verdade, um “projeto especial do projeto especial”, visto que Nate preferiu regravar dez faixas avulsas que estavam em seu Bandcamp.
O material revisitado por ele foi lançado originalmente entre 2014 e 2021 e volta na época em que o This Is Lorelei estava mais para um laboratório de demos (é o termo que ele usa para se referir a essa era do grupo), em que cada coisa saía meio que de um jeito, e tudo ganhava um certo ar de teste sonoro. Em Holo boy, Nate desponta como um cara que parte do pós-punk para adequar outras referências, passando pela psicodelia sessentista, pelo stoner, pelo country-rock, pelo folk e até por sonoridades próximas de bandas como Teenage Fanclub (que surgem na quase jovemguardista This is a joke).
A tal da psicodelia aparece unida a algo que lembra o grunge na faixa-título, a uma onda próxima de Beach Boys e até de David Bowie em I can’t fall e a um clima meio Byrds na sonhadora Dreams away – que mesmo assim, não abandona a bateria motorik e a vibe robótica. Nate alterna vocais mais graves e vozes mais melódicas, e lembra o velho laboratorista de demos ao unir vertentes e sensações variadas em faixas como Name the band (krautrock + stoner + pós-punk), SF & GG (folk +pós-punk) e My friend 2 (que deve tanto ao krautrock quanto a XTC). E há mais lembranças de Teenage Fanclub nos vocais e na bela condução de guitarra de But you just woke me up.
Boa parte do material, na real, alude ao folk e ao hábito de finalizar canções sem esquecer da sustentação original em voz e violão (ou voz e guitarra). Como letrista, Nate é um fanático por sensações de escapismo, do tipo que lamenta acordar e ter que deixar um sonho de lado (But you just woke me up). Mas também é um compositor que fala sobre mudanças pessoais (“limpo meus olhos como se estivesse tentando esquecer tudo que fiz ontem à noite / estou cansado demais para tentar sobreviver / passei a vida inteira dormindo e agora preciso acordar / preciso lavar meus sonhos”, em Dreams away) e sobre manter-se na linha diante de amores perdidos (I can’t fall).
Já nas várias frases soltas do eletropunk Mouth man, o tema parece ser a roda-viva das drogas e da destruição – não apenas a destruição pessoal, mas de tudo que está ao redor, em versos como “sou a mancha na sua camiseta / você é meu filho e eu roubo todas as drogas que você ama”. Quase sempre em Holo boy, a tragédia e a comédia andam lado a lado.
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Crítica
Ouvimos: Juia – “Dois trabalhos”

RESENHA: Dois trabalhos, estreia da banda paranaense Juia, mistura dream pop, MPB e psicodelia com humor e referências que vão de Novos Baianos a Tame Impala.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Dengo Records
Lançamento: 4 de dezembro de 2025
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Juia é uma banda paranaense de dream pop – na verdade, de pop mutante e eletrônico, guiado por referências que vão da MPB a bandas como Crumb e Tame Impala. O nome vem da vocalista Julia Skonieczny, mas não é um trabalho solo. Trata-se de um sexteto em que as sonoridades de todos os integrantes são importantes e formam um todo que, numa só música, pode fazer lembrar de Novos Baianos a Terraplana, passando por Cocteau Twins.
Dois trabalhos, estreia de Juia, é também um disco marcado pelo sarcasmo e pela brincadeira. Que surgem na bossa solar e lo-fi Tempo de sunga (com uma guitarra distorcida que lembra os solos de Toninho Horta no disco Amor de índio, de Beto Guedes, 1977), na marchinha psicodélica Lua marinha e em faixas como o noise-rock-bossa Dr Renato Aragão (“Didi, Didi, como é bom te ver por aqui”, zoa a letra) e a soma de shoegaze e psicodelia em Chupetones. Goodbye my friends I’m going back to Bahia, de quase sete minutos, tem vários segmentos e vai do jazz ao britpop em poucos segundos.
O lado tropicalista de Juia alcança também lembranças de Boogarins em Som do sol, de Pepeu Gomes nas guitarras da vinheta Manhã vem (Mesmo sem dormir) e da Gal Costa sessentista que tocava com Os Brazões, em Flauta vai chorar. Já Meia-lua de compasso une capoeira (na letra), dream pop e clima imagético e psicodélico.
(além de Dois trabalhos, saiu uma live session com quatro faixas do disco – confira tudo abaixo)
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