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Ouvimos: Melissa Weikart, “Easy” (EP)

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Ouvimos: Melissa Weikart, "Easy" (EP)
  • Easy é o novo EP da pianista francesa criada nos Estados Unidos Melissa Weikart. Todo o material foi composto, arranjado e interpretado por ela (com baixistas e programadores de bateria convidados).
  • “Este EP é dedicado ao meu falecido tio Scott, que nos deixou em setembro de 2023. Um gênio hippie super doce e discreto da velha escola, que tinha cabelo longo e selvagem, que andava por aí com Birkenstocks antes mesmo de ser remotamente legal e que era ferozmente comprometido com a mudança social e política. Ele dedicou sua vida a ajudar os outros — tanto seus entes queridos quanto pessoas que ele nunca tinha conhecido”, diz Melissa.

OK, o título do EP é Easy (“fácil”, em português). Mas o trabalho de Melissa Weikart passa longe da simplicidade. Pianista parisiense criada em Boston, ela constrói arranjos intricados e vocais elaborados, fruto de uma formação sólida na vanguarda jazzística e clássica norte-americana. Esse caminho foi traçado sob a influência do pianista e educador Ran Blake, a quem conheceu durante seus anos de conservatório.

A pegada experimental já estava presente no álbum de estreia, Here, there (2022), mas agora, em Easy, Melissa parece abraçar um lado mais camerístico e etéreo. As composições e os arranjos ganham ares flutuantes, e suas letras acompanham essa atmosfera. Sua delicadeza musical remete a Joni Mitchell, enquanto a faixa-título e Running in the rain trazem sons dissonantes, e clima quase bossanovista. Essa última começa como uma balada intimista ao piano, evolui para vocais que soam como teclados e desemboca em uma segunda parte psicodélica, com efeitos sonoros e voz distorcida.

Better than you wait, terceira faixa do EP, flerta com um clima de cabaré e evoca o Lou Reed de Berlin (1973). Nessa faixa, Melissa se aventura em vocais mais graves, mesmo que não pareça algo comum a ela – um contraste interessante dentro do disco. O som trilha faixa no corredor do pop barroco. Já Wasting time abre com programação de ritmo e tem um piano mais suingado, se tornando a canção mais acessível do trabalho. No encerramento, o tom marítimo de Lullaby e a balada jazz clássica One day deixam no ar a sensação de que Easy pode até não ser tão simples assim – mas é um mergulho musical fascinante.

Nota: 8
Gravadora: Independente.
Lançamento: 17 de janeiro de 2025.

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Ouvimos: Neurosis – “An undying love for a burning world”

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Após expulsão do vocalista Scott Kelly, Neurosis segue sem ele e lança An undying love for a burning world, disco pesado e sombrio, explorando caos, morte e tensão no sludge metal.

RESENHA: Após expulsão do vocalista Scott Kelly, Neurosis segue sem ele e lança An undying love for a burning world, disco pesado e sombrio, explorando caos, morte e tensão no sludge metal.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Neurot Recordings
Lançamento: 20 de março de 2026

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“Eu fiquei obcecado por controle e usei ameaças, manipulação, ameaças de automutilação e suicídio, causei danos físicos a pessoas e prejudiquei suas reputações, tudo para manter esse controle”. Isso ai não é letra de metal experimental e drone music, não: é o ex-cantor do Neurosis, Scott Kelly, admitindo que cometia abusos financeiros e psicológicos contra sua própria família – as denúncias causaram um racha na banda, além da demissão do músico assim que tudo foi esclarecido.

Sei lá como esse tipo de coisa deixava rastros na convivência do grupo: o Neurosis alega que os membros “viviam distantes uns dos outros e só viam Scott quando se encontravam para trabalhar em músicas ou fazer shows”, e que assim que a história pipocou, a banda tentou falar com ele por três anos (!), mas nunca dava certo – até que houve a demissão. Parece tudo bem estranho, mas o fato é que o sludge metal do Neurosis já é um som misantrópico por natureza – algo que talvez alimente os próprios relacionamentos dentro do grupo.

Seja como for, o grupo tenta uma sobrevida com Aaron Turner (Isis) no vocal, e lança o pesadíssimo e depressivo An undying love for a burning world. Basicamente um disco sobre os males do mundo, passando pelo desrespeito à natureza, pela desconexão, pela falta de dignidade, pelo egoísmo – e pela morte, surda, que vai caminhando ao lado de todo mundo, e que rende um épico de 17 minutos, Last light, no encerramento do álbum. No início, um beat lembrando o som de monitoramento cardíaco, combinado a microfonias. Depois, começa um som entre o doom metal e o stoner, seguindo por climas cerimoniais e fúnebres.

Falar em sobrevida no caso de uma banda tão mórbida parece até gozação. Mas vá lá que o Neurosis voltou disposto a mostrar que conseguia seguir sem o vocalista, e faz de An undying love for a burning world quase um resumo das possibilidades do sludge metal. Faixas como Mirror deep e First red rays são a verdadeira combinação de Melvins e Napalm Death, com vozes guturais e design sonoro circular, cabendo teclados e dedilhados de guitarra. Um ar post rock se aproxima do som do grupo em várias partes das faixas – três delas com mais de oito minutos e duas delas (total de oito) com mais de dez.

Essa onda fica bem evidente na própria Last light e em In the waiting hours, dez minutos que unem sons tensos e hipnóticos a um peso entre o stoner e o grunge. An undying love é também o disco da tristeza infinita (e violenta) de Seething and scattered, e do clima progressivo e sacrificial de Blind, combinando partes metálicas e absolutamente melancólicas. Peso depressivo dos bons.

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Ouvimos: Wil Cor e Eletrocores – “Ninguém vai se salvar”

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Ouvimos: Wil Cor e Eletrocores – “Ninguém vai se salvar”

RESENHA: Wil Cor e Eletrocores mistura funk, grunge e ritmos nordestinos em manifesto afro-indígena politizado, com energia 90s e referências brasileiras fortes.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Do Sol
Lançamento: 27 de março de 2026

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A ideia da banda paraibana Wil Cor e Eletrocores é fazer de Ninguém vai se salvar, sua estreia, uma espécie de manifesto afro-indígena, em que vibes de funk e de Jorge Ben se misturam a beats nordestinos e letras politizadas. No geral, é uma banda “dos anos 1990”, só que reimaginada em 2026, com algo bem grunge no som e nos vocais de faixas como o punk-metal-nordestino Instiga fusion. Tem também o clima funk + pós-punk de Chama pra cantar (que lembra a fase inicial do Soundgarden, de discos como a estreia Ultramega OK, de 1988) e o clima guerreiro, unindo samba, nordeste e vibe levemente gótica nos vocais, da versão de Beradêro, de Chico César.

  • Ouvimos: My New Band Believe – My New Band Believe

Vale dizer que Chico é um dos heróis de Wil Cor (vocais), Samir Cesaretti (guitarra, vocais), Dodô Trindade (baixo, vocais) e Erick Henrique (bateria) – o segundo EP do grupo, lançado em 2024 em vinil, se chama Valei-me nossa senhora Cátia de França e meu guerreiro Chico César. Prosseguindo, Ninguém vai se salvar acha um lugar musical bem bacana no funk pesado, ou nas misturas com ritmos brasileiros, como no manifesto de Rio tinto (“o rio é tinto / e foi sangue de indígena que escureceu / terra sagrada / que foi colonizada pelo lucro europeu”) e no agito de Bem fundo e Todo mundo quer funk (que lembra Lenine).

O disco tem também a guitarra blues e a poesia afetuosa da faixa-título (“revolver afetos no abraço de existir / quando esse amor vier / quem pode resistir? / ninguém vai se salvar”) e a entrega punk de Eu acho é pouco, de versos como “guarde o seu ontem / e embale o amanhã / o tempo é hoje”. Will Cor e Eletrocores é dessas bandas que querem o mundo pra agora, e deixam isso claro nas letras.

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Ouvimos: Ellen and The Boyz – “Sexy but sad” (EP)

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Ouvimos: Ellen And The Boyz – “Sexy but sad” (EP)

RESENHA: Pós-punk francês de impacto: Ellen and The Boyz mistura noise, tensão e crítica social num EP ruidoso, elegante e cheio de sustos.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Monomaniac
Lançamento: 10 de abril de 2026

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O disco dessa banda francesa é uma das porradas mais certeiras que você vai escutar nos próximos dias – e recomendamos MUITO a audição. Liderada pela cantora franco-britânica Ellen Wallace, e complementada com um trio de caras, Ellen and The Boyz se define como pós-punk, mas está mais para um noise rock elegante, com herança de Velvet Undergroud, Sonic Youth, Joy Division e Suicide.

  • Ouvimos: Melvins e Napalm Death – Savage Imperial Death March

Do Suicide, aliás, Ellen e seus rapazes herdaram a vocação para dar sustos nos ouvinte. Em boa parte do EP de estreia Sexy but sad, as guitarras são usadas como artilharia de guerra, combinadas com os outros instrumentos. Nico, a faixa de abertura (na qual ela diz se sentir “como Nico e seus fracassos nunca esquecidos”), abre numa calma deprê, com guitarras que vêm lá de longe, cama de distorções (em som baixo) e algo que ameaça um shoegaze. A voz da chanteuse do Velvet é citada por Ellen, num registro frio, mas emocionado, enquanto o som fica mais ruidoso.

F me tender, mais próxima do pós-punk, une beleza, tensão e guitarras como revólveres. Cortisol é um curioso jazz-noise-rock, com batida suingada, clima psicodélico e riffs-sirene. Tem um punk mais característico em Sorry not sorry, que encerra o álbum, mas o principal de Sexy but sad é a mistura de deprê e barulho: Violence e Sexy são sorumbáticas como Joy Division e ruidosas como Wire e Sonic Youth. No wine for breakfast tem um barulho maravilhoso na abertura, como numa viagem especial ou psicodélica que dá medo – e uma letra que mais parece um cabaré realista, em que Ellen canta: “sentada à mesa, são 9 da manhã / você deixou sua filha na escola / alguma coisa está te incomodando (…) / qual vai ser seu futuro se você é uma mãe solteira e não tem grana?”.

Ellen faz questão de explicar no release que o principal tema de Sexy but sad são um mundo que está em combustão e só vive de rolar o feed e tirar selfies – além de “uma juventude profundamente marcada pela violência sofrida desde a infância, pelo capitalismo, pelo patriarcado, pelas normas sociais e pela imagem que temos (ou deveríamos ter) dos nossos corpos e rostos”. A temática do álbum vai toda por aí, cabendo também a violência física e psicológica da autoexplicativa Violence e a ansiedade asfixiante de Cortisol (“eu preciso lidar com minhas emoções / meu coração bate tão rápido”). Porrada em sons e palavras.

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