Crítica
Ouvimos: L.A. Witch, “DOGGOD”

E se você, lá pelos idos dos anos 1980, fosse informada/informado de que em 2025 surgiria uma banda que mistura stoner, metal e… Smiths? Formada por Sade Sanchez (vocais, guitarra), Irita Pai (baixo) e Ellie English, a banda L.A. Witch – que, diz o próprio nome, vem de Los Angeles – costuma se dizer mais influenciada por Black Sabbath e Gun Club. Mas o toque de Sade na guitarra lembra bastante o de Johnny Marr. E igualmente, remete à guitarra de Robert Smith na estreia do The Cure, Three imaginary boys, de 1979.
No terceiro disco, DOGGOD, a vocação para The Smiths do mal vem a toda em faixas como Kiss me deep, The lines e Icicle: um som de trio, simples, poucos overdubs, algo que remete tanto ao pós-punk oitentista quanto ao som garageiro dos anos 1960 e 1970. Referências de Black Sabbath são vistas aqui e ali, mas misturadas com a fase deprê do Cure em I hunt you prey e na sombria Eyes of love.
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Já 777 lembra uma cúspide entre punk e pós-punk, que surge também na faixa-título. SOS tem simplicidade musical que lembra o Echo and The Bunnymen do começo, mas com a vibe trevas do trio. Lost at sea, por sua vez, é pós-punk reduzido ao mínimo necessário, e levado para o lado da psicodelia – com direito a um teclado que aumenta o clima viajante e profano.
As letras do L.A. Witch são diretas e cortantes, mergulhando em temas como sombras, sexo, sangue, morte e tudo o que ronda esse universo trevoso. 777 tem versos como “não se esqueça / eu também luto ao seu lado / a primeira da fila / estou pronta pra morrer”. A faixa-título é amor sadomasoquista, Kiss me deep é puro sexo (“você me amou como uma boneca preciosa / você me lambeu como um cachorro faminto”) e The lines, uma das melhores letras, é grito calmo diante da violência: “você atira nas estrelas / elas não estão alinhadas / do jeito que você esperava”.
Nota: 8,5
Gravadora: Suicide Squeeze Records
Lançamento: 4 de abril de 2025.
Crítica
Ouvimos: Scrambled Heads – “Inward, then apart” (EP)

RESENHA: No segundo EP, Inward, then apart, o duo curitibano Scrambled Heads mistura emo, pós-hardcore, shoegaze e hardcore dos anos 1990 em músicas sobre dúvidas, inseguranças e culpa, entre peso e melodia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 7 de agosto de 2026
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Buga (Redlightz, também ex-Abraskadabra) e André Pamplona (ex-Monaco Beach) fizeram do Scrambled Heads um projeto de estúdio, bem diferente das outras bandas que eles já tiveram. Com um bom tempo de experiência no DIY curitibano, eles já passaram por turnês (fora do Brasil inclusive) com sérias restrições orçamentárias, viagens de van por tudo quanto é canto, e o Scrambled Heads vem num momento de sossego para ambos.
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Inward, then apart, segundo EP do grupo investe em uniões de emo, pós-hardcore, shoegaze e hardcore californiano dos anos 1990 – com uma certa pressão nesse terceiro estilo. Não chega a ser um “punk pop”, mas as melodias em sua maioria são ganchudas e cantaroláveis, cabendo boas harmonizações em The observer, linhas vocais bem construídas em Chaos left unsaid e porrada punk em faixas como Wildfire e I build shelter from branches of second-guessing – esta, com andamento sinuoso, meio herdado do skate-rock e do reggae.
As letras acompanham a porrada, falando de dúvidas, inseguranças e sombras – além do fantasma da culpa tomando conta de Guilt trip. Som de peso, em busca da calma.
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Crítica
Ouvimos: 14 Flamingos – “Fine art” (EP)

RESENHA: O coletivo canadense 14 Flamingos, que chega a reunir até 14 músicos em shows, lança em Fine art, EP de três faixas que cruza rock setentista, soul, yacht rock, psicodelia e pós-punk com arranjos expansivos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de agosto de 2026
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O 14 Flamingos era só uma banda-dupla – depois virou uma banda de verdade, e depois, uma multidão de colaboradores, que chega a somar 14 pessoas dependendo da gravação e do objetivo a alcançar. O EP Fine art, com três faixas, usa essa turma toda para contar histórias através das letras, das melodias e dos arranjos.
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O grupo (que vem do Canadá) é tão bom em bandeirar seu próprio trabalho, que dá até pra deixar a banda falando sobre si própria. Como em Habsburg chin, que eles definem como “imagine um baile em Versalhes, só que a banda foi substituída por um grupo de pessoas que provavelmente entraram pela porta dos fundos de uma taverna” – na verdade é um rock anos 1970, que tem muito de soul e yacht rock, e até das invenções musicais de Kevin Ayers e Tom Waits.
Yesterday’s fair responde pelo lado mais carnavalista do disco, chegando a lembrar Mutantes em alguns momentos. The duke, terceira e última faixa, é uma fanfarra pós-punk, com ritmo funkeado, e a mehor melodia do disco.
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Crítica
Ouvimos: Cella – “Efeito borboleta”

RESENHA: A amazonense Cella estreia com Efeito borboleta, disco de MPB-pop que cruza ritmos nortistas, reggaeton, funk e dance music em canções sobre mudanças, amores e autoconfiança.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Urban Pop
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Estreia da amazonense Cella, que é cantora e atriz (esteve na montagem carioca da peça Fala sério, mãe, ao lado da autora Thalita Rebouças), Efeito borboleta é um disco de mudanças pessoais em clima de MPB-pop. Cella mistura sons de sua terra e climas de reggaeton e funk, relembrando amores em que precisou se esforçar para caber na vida de outra pessoa (Demais pra você) e de situações bem mais tranquilas e empoderadoras (Encantaria, Meu norte). Mas depois as coisas saem do controle, romanticamente falando, com as lentinhas Veneno (com participação de Doral) e Me ignora.
É um pop correto, brasileiro, bem produzido, com boas canções e cantado em tons de bossa – e que, de certa forma, reapropria muitas vibes sonoras do Norte que volta e meia aparecem em gravações feitas em outros lugares. Lá pelo final, Karma junta dance music, latinidade e riffs de guitarrada, seguida por dois remixes (da própria Karma e de Meu norte).
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