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Ouvimos: Juanita Stein, “The weightless hour”

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Ouvimos: Juanita Stein, “The weightless hour”
  • The weightless hour é o quarto álbum solo da australiana Juanita Stein, que começou a carreira como vocalista e guitarrista da banda The Howling Bells. Entre as influências de Juanita estão cantoras como Kate Bush e bandas como Nirvana (“minha favorita de todos os tempos”).
  • Recomendamos o som dela como “artista do século 21” no episódio do nosso podcast Pop Fantasma Documento sobre John Lennon.
  • O disco mexe com temas bastante sérios, como no single Mother natures scorn. “É uma música sobre nossa queima da Terra. É sobre reconhecer que estamos em um momento que se aproxima da irreversibilidade. Mesmo assim, parece que quanto mais nos aproximamos da tempestade, mais familiarizados nos tornamos com a apatia, o que é terrivelmente assustador”, disse no texto de lançamento.

Algumas coisas foram mudando na discografia de Juanita Stein com o passar dos anos, e as capas de seus discos acompanharam a mudança. America (2017) era basicamente um disco de alt-folk e alt-country, com uma capa poderosa (uma foto de Juanita sobreposta à imagem de uma estrada, quase uma referência torta à capa de Hejira, disco de 1976 de Joni Mitchell). Until the lights fade (2018) unia country e folk a sons entre o punk e o power pop, com Juanita meio perdida numa cena de rua na França. Snapshot (2020), disco de pandemia, era um álbum de soft rock indie e fantasmagórico, com Juanita caminhando ao cair da tarde, solitária, nas montanhas.

The weightless hour expõe na capa o tom etéreo e tranquilo das músicas – Juanita em ambiente caseiro, numa foto em sépia, envelhecida a ponto de parecer ter sido tirada nos anos 1970. O som dela volta quase sempre reduzido a violões, guitarras sem pedal e vocais sobrepostos, com efeitos sombrios em alguns momentos. As poucas percussões do disco são discretas, como o bumbo de Ceremony.

Mesmo as faixas mais roqueiras de The weightless hour, como a própria Ceremony (que lembra os Pretenders sem uma formação completa de banda e tem um citação escondida de Victoria, dos Kinks) e o folk-rock-punk Daily rituals, são inseridas num formato mínimo, e numa gravação com bastante ambiência, como se viesse lá de longe, ou fosse registrada numa antiga igreja.

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A faxa-título, que abre o disco, é uma balada triste tocada na guitarra, que remete a Judee Sill, Joni Mitchell e Laura Nyro. Um clima mais indie e dream pop toma conta do disco em Mother natures scorn, e uma vibe ligada ao som dos anos 1980 aparece discretamente em músicas como The game e Motionless – que soam como se Juanita quisesse fazer algo parecido com bandas como Eurythmics e Human League, desde que seja tocado com violões e faça parte do contexto do disco. Um momento mágico do álbum é Delilah, que começa como uma balada-rock dos anos 1950 e chega bem próximo de uma valsa – e encerra o disco.

Carry me tem algo de fantasmagórico, e vocais que lembram Christine McVie. E Old world é uma música mais chegada ao country, que tem o mesmo clima desértico e soturno das músicas de Johnny Cash e Leonard Cohen – na letra, Juanita fala de sua ascendência judaica e dos sofrimentos históricos de sua família. Por acaso, fazendo jus ao título, The weightless hour é pródigo em superações de momentos passados. Como em The game, um abraço que ela dá em sua versão mais nova, quando ela era uma menina do rock crescendo num universo essencialmente masculino (“agora você é uma mulher, você aprendeu/é só o jogo”).

Nota: 9
Gravadora: Agricultural Audio
Lançamento: 29 de novembro de 2024.

Crítica

Ouvimos: Thumper – “Sleeping with the light on”

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Ouvimos: Thumper – “Sleeping with the light on”

RESENHA: Sleeping with the light on, segundo álbum do Thumper, capta o isolamento da pandemia com rock ruidoso entre pós-punk e hardcore e a longa Middle management.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 20 de fevereiro de 2026

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Só a capa desse álbum do Thumper já dá vontade de ouvir o disco – o clima de “dormindo com a luz acesa” (Sleeping with the light on), nessa era de burnout, ameaças e boletos, é totalmente garantido pela foto. Apesar do disco de estreia dessa banda irlandesa, Delusions of grandeur, ter saído em 2022, é o segundo álbum, Sleeping with the light on, que mais carrega consigo o clima da pandemia (as músicas, diz a banda, foram feitas bem na época do confinamento).

Dá para dizer que o Thumper, um sexteto de quatro guitarristas (!) e dois bateristas (!!!), faz uma espécie de revisão cult do rock “alternativo” norte-americano – aquele monstrengo que começou à base de guitar rock, Replacements, Nirvana e Foo Fighters e no qual passaram a caber bandas como Nickelback. A voracidade do som de “atitude” das paradas de rock ganha uma onda próxima do pós-punk, do hardcore melódico (com direito a guitarras dedilhadas), do noise rock e até do punk a la Hüsker Dü + Bob Mould.

Essa união dá as caras em músicas de pegada forte como a punk + metal The rip, as intensas – com cara emo – On and off e The drip, a quase pós-punk Bad mood e a vibe ruidosa de My new blade. Há algo entre o power pop e o rock de garagem em faixas como You didn’t hear this from me e Gang signs, e um clima mais introspectivo em The engine.

Uma ótima curiosidade são os dez minutos de Middle management, faixa pesada que vai ganhando cada vez mais intensidade e ruídos. Em vez do velho truque de “vamos criar uma faixa com dez minutos e várias partes”, basicamente é uma canção grande, que vai crescendo no ouvido e ganhando partes instrumentais extensas – numa onda que passa mais pela compreensão pós-punk do que é compor uma música. Um desafio pelo qual o Thumper passou de boa.

Justamente por ter sido feito na época da pandemia, e num confinamento autoinflingido (tudo foi gravado na zona rural de Donegal, na Irlanda, num local em que não havia nem sinal de internet), Sleeping with the light on é um disco sobre ele mesmo, o isolamento. Em alguns casos, a ideia é aproveitar o momento mais complexo da sua vida (e no caso da covid, da vida de todos) para deixar certas coisas e pessoas irem embora de vez.

There will be blood, que encerra o disco oscilando entre introspecção e peso, aconselha: “finja-se de morto em público enquanto eu durmo com a luz acesa / desapegue-se daquilo que não lhe serve mais / aperte o gatilho por impulso”. Middle management, por sua vez, soa como duas pessoas perdidas em seus próprios infernos, convivendo no mesmo espaço – e expõe o resultado dessa convivência. Sleeping with the light on é um flashback bem amargo, daqueles que você pensa “caceta, eu passei por isso…”.

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Ouvimos: Stella Matteoni – “Imposter”

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Ouvimos: Stella Matteoni – “Imposter”

RESENHA: Stella Matteoni estreia com pop independente, confessional e acessível; Imposter soa como manifesto de autonomia

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 27 de fevereiro de 2026

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Discos de música pop feitos de maneira 100% independente sempre soam curiosos – por que diabos alguém iria fazer um álbum comercial às próprias custas, usando truques melódicos e técnicos que uma gravadora comum faria?

A britânica Stella Matteoni tem uma boa explicação: mais do que garantir a possibilidade de chegar numa grande gravadora com um disco que poderia ter sido lançado por um selo conhecido, ela preferiu fazer algo que a representasse totalmente. “Ser independente e ter a liberdade de fazer minhas próprias escolhas sem pedir permissão a ninguém é uma sensação maravilhosa, principalmente em uma indústria que ainda é dominada por homens”, disse, num papo com o site York Calling.

  • Prince: dez anos após a morte do cantor, sai semi-inédita dele

Faz sentido: Imposter, seu disco de estreia, é um trabalho em que ela produziu e compôs tudo sozinha, e acabou tocando adiante 100% do trabalho que num álbum pop mainstream seria feito por uma equipe de cinco pessoas (!). Não chega a trazer um pop totalmente original, mas vai numa onda confessional e de tão fácil identificação, que não é difícil gostar de músicas como Imposter syndrome, o pop beatle London’s calling, a newwavizada Blah blah blah e o pós-disco Toxic fboy, além da balada sombria Without you.

Stella também se responsabilizou sozinha pela concepção de músicas que, numa indústria comum, teriam sido compostas e produzidas por ela ao lado de pelo menos uns três homens, como o punk-pop Play a game, as baladas de musical Without you e One more spring in LA e a boa de pista Red flags. Daí Imposter acaba servindo não apenas como estreia pop, mas também como manifesto de independência. Só por isso já merece atenção – mas não apenas por isso, claro. Pode se preparar pra adotar mais esse disco pras suas playlists.

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Ouvimos: The Mystery Divide – “Questions I”

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Ouvimos: The Mystery Divide – “Questions I”

RESENHA: The Mystery Divide mistura shoegaze, kraut e dream pop em disco conceitual sobre o amor; bom e atmosférico, mas ainda precisa de identidade própria.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7
Gravadora: Independente
Lançamento: 6 de março de 2026

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Mesmo fazendo um som próximo do shoegaze, o Mystery Divide, projeto criado pelo cantor e compositor Joseph Mendola, tem uma onda progressiva clara em seu disco Questions I – e Joseph avisa que já tem um Questions II vindo aí. O músico diz que o disco trata de “uma espécie de investigação sobre o amor como o mais alto meio de alcançar os diversos objetivos da vida – e sobre as dificuldades que surgem desses envolvimentos”, e que o material começou a ser feito em 2017, ainda sem nenhuma perspectiva de transformação em um álbum.

  • Ouvimos: Howling Bells – Strange life

Focando mais no lado ruidoso do disco, Questions I investe na repetição herdada do krautrock e no clima relaxante vindo do dream pop (o instrumental Infinity e faixas como Sound of silence), em sons melancólicos que lembram a fase Honey’s dead (1992), do The Jesus and Mary Chain (Riding mischief, Wars, Mars) e algo entre The Cure e Smashing Pumpkins (Desolate cowboy, The lost). Vocais meio dramáticos e um clima 60’s toma conta de Innocence. Um projeto bom e despretensioso, apesar do conceito quase progressivo – precisa só de cara própria nas composições e, em especial, nas letras.

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