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Crítica

Ouvimos: Glover, “Dessa vez é de verdade” (EP)

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Ouvimos: Glover, “Dessa vez é de verdade” (EP)
  • Dessa vez é de verdade é o segundo EP do Glover, uma banda emo de Piracicaba (SP). O grupo é formado por Felipo Ivanes (guitarra), Leo Luca (bateria) e Otávio Aguiar (baixo).
  • O disco foi gravado no Casarão Music Studio, um misto de estúdio, casa de shows e selo musical na cidade da banda.

EP bem interessante lançado no meio do ano que só agora passou pelos nossos ouvidos, o disco do Glover associa-se à cena que trouxe de volta o emo nos Estados Unidos, no começo dos anos 2010. Uma galera mais achegada de estilos como math rock e pós-hardcore. E interessada em explorar andamentos variados, músicas com várias partes – além de letras mais dark, mais inconclusivas, dedicadas a vasculhar sentimentos que mal têm nome.

Dessa vez é de verdade fala, entre gritos e guitarras, sobre sentimentos da pandemia – e sobre aqueles momentos em que fugir e ficar parecem dar no mesmo – na faixa de abertura, Webamigos para sempre. A música tem continuidade em Indo embora sem avisar ninguém, um emo leve, com guitarras tranquilas e baixo, mais próximo do power pop, e transformando-se num pós-hardcore no final. Quebradinhas rítmicas surgem nas desilusões de Jazz clube. Já traumas e auto-descobertas tomam conta das letras das duas últimas faixas, Tranquilin e Desastrado, etc – esta, com algo de Charlie Brown Jr no começo, marcado por voz e guitarra, ganhando mais intensidade na sequência, especialmente em vocais e batidas.

Nota: 7,5
Gravadora: Casarão Records
Lançamento: 16 de junho de 2024.

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Crítica

Ouvimos: Melanie Martinez – “Hades”

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Ouvimos: Melanie Martinez – “Hades”

RESENHA: Hades, de Melanie Martinez, é um disco longo, denso e “cinematográfico”, com crítica social pesada e relatos crus que exigem atenção e fôlego.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Atlantic
Lançamento: 27 de março de 2026

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Tem por aí a chamada “bebida sabor café” (que anda rendendo memes), a “bebida sabor iogurte” e… bom, tem também a onda de “disco sabor filme” que vem assolando o pop há alguns anos. Nem todo disco pop lançado hoje em dia é realmente conceitual, mas sempre há um conceito a ser trabalhado em qualquer álbum que chega às plataformas, do Swag de Justin Bieber ao Lux de Rosalía – fora as criações de Taylor Swift, as instigações de Luisa Sonza e os sumiços-e-aparições de Lana Del Rey.

Vai daí que Hades, quarto disco da ex-estrela teen (revelada pelo The Voice) Melanie Martinez é esse “sabor filme” levado às últimas consequências – e um estranho encontro entre a grandiloquência e o maximalismo pop e os horrores de Ethel Cain. Se o negócio hoje é disco curto e música curta, felizmente esqueceram de avisar Melanie, que deu à sua epopeia art-pop tratamento de disco progressivo: 70 minutos e 18 faixas.

Hades de certa forma está mais até para “disco sabor livro”. É pra ouvir prestando atenção nas letras, a quantidade de informação é cansativa e, dependendo do seu grau de não-envolvimento emocional com a obra de Melanie, provavelmente você vai escutar o álbum em dois ou três dias. Melanie fez de Hades um álbum distópico, com músicas que falam sobre horrores bem reais, e de maneira bem envolvente.

Dá pra dizer que assuntos como misoginia, gordofobia, racismo, bolhas de privilégios, milionários FDP, homens escrotos e abusivos e o jogo sujo da indústria de estrelinhas teen surgem em Hades numa onda de “entendeu ou quer que eu desenhe?”, graças a faixas descritivas como o rap-britpop White boy with a gun, o pop sombrio Possession, a valsa grega Garbage e a fantasmagoria gélida de Avoidant. Monolith, uma balada linda, traz uma visão bem pessimista da vida por trás das telas, das redes sociais, da TV, de tudo. Batshit intelligence põe a guerra e a injustiça urbanas na roda, com depoimentos de pessoas em situação dde rua e tudo.

A balada-valsa Weight watchers (“vigilantes do peso”) choca pela combinação de melodia doce e letra amarga: Melanie constroi um universo bizarro em que os tópicos são bichectomia, implantes, drogas emagrecedoras compradas em condições perigosas (“carboidratos não queimam rápido o suficiente para valer a pena / não achei que tivesse mudado muito até eles falarem / um tópico no Subreddit é o que me restou”), alimentação ruim e expectativas da mídia (“agora tudo que eu leio é: ei, acho que ela está grávida!”, canta ela).

Cantando basicamente sobre injustiças e ameaças, Melanie fala sobre uma roda viva de traumas infantis causados por homens abusivos do show business, no alt pop Disney princess. E sobre uma rotina de cyberbullying por intermédio das DMs do Instagram, no pop misterioso de Chatroom. Musicalmente, a onda “cinematográfica” e maximalista de Hades dá certo – mesmo quando o disco começa a cansar, ele provoca curiosidade.

A produção fica sempre bem mais próxima do universo do rap do que do rock ou do pop dançante, mas tem até eletro-rocks bem feitos, como Uncanny valley e Hell’s front porch, além do r&b vertiginoso de Is this a cult?. Mas o que fica mesmo na memória é a crueza dos relatos: Hades faz o / a ouvinte viver, na imaginação, muito do que está nas letras.

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Crítica

Ouvimos: Poison Ruïn – “Hymns from the hills”

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Poison Ruïn mistura punk, metal e hard setentista com temática medieval. Hymns from the hills une peso, caos e crítica social atual.

RESENHA: Poison Ruïn mistura punk, metal e hard setentista com temática medieval. Hymns from the hills une peso, caos e crítica social atual.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Relapse Records
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Dizem por aí (pelo menos quem entende disso costuma dizer) que encontrar-se com a história da Inglaterra na era medieval é mais ou menos como encontrar-se consigo próprio. Como se aqueles contos de bravura, castelos, donzelas, lutas de espadas e honra lavada com sangue trouxessem de volta vários sentimentos que todo mundo – ou pelo menos a parcela mais macho-alfa do mundo – carrega no peito.

No caso dos norte-americanos, devolvidos para uma “era medieval” após as eleições do ano passado, parece que tem aí alguma coisa eternamente mal-resolvida, que levou Mark Twain a escrever em 1889 o livro Um ianque na corte do Rei Arthur, e volta e meia leva incautos escritores e roteiristas a tentar reescrever a história dos Estados Unidos como uma epopéia arturiana – olha só isso aqui, por exemplo.

Vai daí que o Poison Ruïn, uma banda da Filadélfia, surfa a mesma onda medieval – e aproveita para fazer misturas inustadas. São um grupo que vem do anarco-punk, e que passou a acrescentar a seu som elementos de hard rock a la Aerosmith, metal a la Judas Priest, sons agalopados típicos da new wave of british heavy metal (Iron Maiden e outros) e casca-grossice típica dos herdeiros do Motörhead. Tudo isso enquanto o vocalista Mac Kennedy canta sobre camponeses, castelos, fronteiras, sinais do céu e lutas durante as quais ninguém se pergunta “espera aí, por que estamos lutando?”.

Hymns from the hills, que é o terceiro disco da banda, tem até um ar progressivo-gótico em Howls from the citadel – uma música sombria, narrada como se fosse um conto épico. Mas o principal aqui é sacar como Kennedy e seus amigos Nao Demand (guitarra), Will McAndrew (baixo) e Allen Chapman (bateria) se comportam nas transições entre uma estileira e outra, ou entre um barulho e outro.

Um dos exemplos está na abertura, com Lily of the valley, é metal de quem ouviu muito punk e synth pop – com algo que faz lembrar até (pode acreditar) Legião Urbana (num papo com o Consequence Of Sound, Kennedy revelou ter se inspirado nos Ramones do hit Poison heart). Às vezes rola uma certa confusão sonora, como na quase faixa-título Hymn from the hills, uma balada metal que vira um punk-blues-rock com recordações do Aerosmith de Rocks (1975).

Eidolon, por sua vez, dá certo mesmo lembrando um bizarro encontro entre Blink-182 e Judas Priest, com vocal gutural-infernal e final metálico. Pilgrimage tem guitarras emparedadas como num shoegaze e algo que parece um compasso ternário em meio à circulação de palhetadas. Guts (Lay your self aside) desenvolve um noise-rock torto, em torno de uma armação metal + hardão setentista. Tem músicas nas quais as origens punk do grupo vêm com força, como a curta Turn to dust, e na vibe New Model Army + Killing Joke de Puzzle box – sem falar que Kennedy soa IGUAL a Joey Ramone quando não canta com gutural, como rola na agitada Serpent’s curse.

Nas letras, o Poison Ruïn traz os aprisionamentos e os costumes engessados da era arturiana para este universo civilizado (hahaha) de 2026, falando de vidas torturadas, injustiças sociais e maldades que parecem não ter fim. No geral, Hymns from the hills é punk com noção de violência musical, e de violência na vida.

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Ouvimos: Makthaverskan – “Glass and bones”

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Em Glass and bones, Makthaverskan mistura pós-punk, jangle e dream pop, com guitarras frias e intensidade. Destaque para a voz poderosa e versátil de Maja Milner.

RESENHA: Em Glass and bones, Makthaverskan mistura pós-punk, jangle e dream pop, com guitarras frias e intensidade. Destaque para a voz poderosa e versátil de Maja Milner.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Welfare Sounds and Records
Lançamento: 3 de abril de 2026

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Em sueco, Makthaverskan significa “mulher poderosa” – bom nome para uma banda de Gotenburgo, liderada por uma vocalista como Maja Milner, cujo alcance vocal chega a dar nervoso. Em Glass and bones, a voz de Maja consegue ir do agudo roqueiro ao agudííííííssimo em poucos segundos, do pesado e intenso ao angelical e intenso rapidamente, sem sombra de vocais torturados a la Bjork. Acompanhando a cantora, a base pós-punk de Hugo Randulv, Irma Pussila Krook (baixo e guitarra, ambos), Per Svensson (guitarra) e Andreas Palle Wettmark (bateria).

Os textos que rolam sobre o Makthaverskan insistem no fato de que se trata de uma banda bastante misturada – tem jangle pop, dream pop e até a estileira variada da fitinha C86, do NME, tudo junto. Beleza, mas a entrega do quinteto a bases carne-de-pescoço, melodias geladas e a guitarras dedilhadinhas é coisa típica do pos-punk. Ainda que Maja soe como cantora de heavy metal na faixa-título, com bateria motorik, riffs esparsos a la The Edge e baixo fincado no chão.

Já músicas como Pity party, Won’t wait e Shatter têm agilidade punk, às vezes lembrando bandas como Blondie. Poppy, mesmo com teclados e um clima mais contemplativo, abre lembrando uma sobra de Three imaginary boys, disco de estreia do The Cure (1979). Um lado meio synthpop, com riff de teclados e guitarras pesadas, surge na tensão marcial de Louie, que fala em “o ar está denso como nuvens, preso nos meus pulmões / minha cabeça cheia de dúvidas / tenho medo de viver uma vida sem saber como expirar”.

Glass and bones é também o disco que traz recordações não apenas do Blondie como também dos Pretenders em Gambo. Além da balada sentida Anytime – música de voz e guitarra, em que Maja canta “você vai enfrentar isso se quiser / pode me ligar a qualquer hora que precisar / eu sei que vou te abraçar / chegue mais perto do que nunca / suas lágrimas estão dançando”.

Black waters é outro momento metal do disco – uma balada gótica e sombria, com versos como “não desista esta noite / não venda sua alma / você não pode continuar presa sob águas negras / preciso sair e encontrar um caminho”, em que a voz de Maja insiste em soar como a de Michael Jackson na adolescência (juro!). Se tem alguma mistura inusitada em Glass and bones, ela tá aí.

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