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Crítica

Ouvimos: Father John Misty, “Mahashmashana”

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Ouvimos: Father John Misty, “Mahashmashana”
  • Mahashmashana é o sexto disco creditado a Father John Misty, pseudônimo do músico norte-americano Josh Tillman. Foi produzido por Tillman e Drew Erickson, com o colaborador frequente Jonathan Wilson atuando como produtor executivo.
  • O título do disco refere-se à palavra em sânscrito mahāśmaśāna, que significa “grande campo de cremação”.
  • Uma curiosidade revelada por Tillman em uma entrevista é que a faixa I guess time just makes fools of us all tem algumas linhas inspiradas pelo fato do cantor ter se recusado a aparecer na capa da revista Rolling Stone. “A revista me disse que eu era facilmente a pessoa menos famosa a recusar a capa”, contou.

Quem achava os discos de Father John Misty irregulares e cheios de momentos que eram até legais, mas poderiam ter sido mais editados e/ou condensados, não vai ter muito o que reclamar desse Mahashmashana. Josh Tillman, o cara por trás do codinome, provavelmente nunca vai fazer um disco fácil ou direto-ao-ponto, e essa é a graça da música que ele faz. O chamber pop de FJM parece uma brincadeira séria com o rock e o pop orquestrais dos anos 1960/1970, adornando melodias clássicas e belas com uma contação de histórias muito louca.

Para começar, o som do álbum une, às vezes numa música só, Donovan, Bob Dylan, Scott Walker, George Harrison, Roxy Music, Rolling Stones circa 1971/1972 e Stephen Stills. Essa turma toda aparece como subtexto na faixa-título, um soft rock orquestral e vertiginoso de nove minutos, com uma letra perfeita para quem gosta de ficar desvendando significados de letras.

Por algum motivo que só Josh sabe explicar, a música fala do amor de um casal formado por um homem cujo corpo “é o Gelson’s” (Gelson’s é uma espécie de OXXO de milionários californianos – uma rede de supermercados de alta classe da região) e uma mulher cuja mente “é uma estrela cadente”. A letra prossegue falando de “um esquema para deixar cuzões ricos” e cita revelações obscuras que “só cantores sabem explicar” – e vai enfileirando imagens sombrias e poéticas.

Essa é só a abertura do disco. Daí para diante, surge uma ótima canção que lembra Rare Earth, Creedence Clearwater Revival e Roxy Music, She cleans up, e que foi feita com referências de Punk rock loser, dos Viagra Boys (que ganham até crédito de parceria). Surge também Josh Tillman and The Accidental Dose, um rock com balanço herdado de Steve Miller Band , cuja letra parodia o uso medicinal que Josh fazia do LSD para tratar sintomas de ansiedade (e do qual ele falava em entrevistas, na época do álbum Pure comedy, de 2017).

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Nessa canção, Josh/FJM termina a noite com uma garota que acha que Astral weeks, disco seminal do antivax Van Morrison (1968), é um álbum de jazz. Só que a onda do ácido que ele tomou bate forte demais, a ponto de ele achar que um quadro da parede, com um palhaço desenhado, está conversando com ele. É a deixa para FJM enfileirar um bate-papo quase à moda de Ouro de tolo, de Raul Seixas, reclamando da vida prática e das armadilhas da realidade. O arranjo de cordas dialoga com a letra e até provoca sustos.

E aí que Mahashmashana acaba transformando de vez Father John Misty numa espécie de Raulzito pós-moderno, de maluco beleza do mundo indie atual – um cara que consegue fazer canções pop e melodias de embevecer, mas que prefere zoar o que acha que deve ser zoado. No rolê do disco, tem uma balada de trilha sonora de novela dos anos 1970, Mental health, que transforma o mundo atual no Panopticon (a “prisão perfeita” em que os prisioneiros andam na linha por não saberem se estão sendo vigiados) e conclui sabiamente que as pessoas andam tão malucas que a maior virtude é sanidade mental.

O álbum tem ainda um shoegaze orquestral e marítimo (Screamland), mais um indie soft rock (a boa Being you) e um soul rock que lembra a famigerada fase At Budokan de Bob Dylan – I guess time just makes fools of us all, cuja letra, além de trazer Tillman fazendo troça de sua própria recusa a estar na capa da Rolling Stone, sugere que daqui a algum tempo, talvez todo mundo esteja se escangalhando de rir dessa época de algoritmos e eterna vigilância virtual. E um baladão nostálgico no estilo de Nat King Cole (Summer’s gone) que fala sobre vida, morte e mudanças pessoais que vêm como atropelamentos (“o que acontece com a saudade uma vez que seu amor foi gasto?/e o mundo se torna um estranho”).

Se você isolar as letras de Mahashmashana, vai achar que Father John Misty é um indie com ataques de saudosismo que faz excelentes melodias. Agora, se ler as letras sem ouvir, vai se perguntar que estilo de música esse sujeitinho estranho faz.

Nota: 9
Gravadora: Sub Pop.
Lançamento: 22 de novembro de 2024.

Crítica

Ouvimos: Tobias Jesso Jr – “Shine”

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Shine, de Tobias Jesso Jr., traz piano e canções delicadas, mas soa raso e inacabado: belas ideias que lembram demos e ficam aquém da força de Goon.

RESENHA: Shine, de Tobias Jesso Jr., traz piano e canções delicadas, mas soa raso e inacabado: belas ideias que lembram demos e ficam aquém da força de Goon.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: R&R
Lançamento: 21 de novembro de 2025

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Num papo com a Vulture, Tobias Jesso Jr lembrou a época de Goon (2015), seu primeiro disco solo. Um álbum surgido após vários atropelos (um deles literal: foi arrebatado por um Cadillac em Los Angeles e ainda teve a bicicleta roubada no acidente). Pouco antes, ele havia se desiludido com seu trabalho como compositor, sua namorada o havia abandonado e sua mãe tinha recebido o diagnóstico de câncer.

Apesar disso, ele afirmou no tal papo que a sonoridade tristonha do disco, que o levou a ser comparado com Emitt Rhodes e Harry Nilsson, veio da necessidade de auto-afirmação profissional. “Eu estava num estado de espírito em que pensava: ‘Compor músicas não é sobre fazer sucesso em Los Angeles. É sobre quem eu quero ser quando adulto’”, afirmou. Curiosamente, nos últimos anos, seu trabalho acabou ficando mais próximo do tal sucesso em LA, com músicas feitas para Rosalía, Adele, Sia, Justin Bieber, Miley Cyrus, Dua Lipa e outros.

Tobias tem lá seu lado excêntrico e bem humorado – no mesmo papo com a Vulture, confessou que havia gravado um Goon 2 junto com seu ex-jardineiro, a quem havia demitido, apesar dele ser um amigo próximo, e apesar do disco em parceria. Esse disco não viu a luz do dia até agora, mas em compensação 2025 viu nascer Shine, segundo álbum de Tobias, e basicamente um disco de piano, voz e ambiência.

Na real, Shine é basicamente um disco de exercícios de canção pop, sem a mesma profundidade de Goon, e com músicas que, às vezes, parecem mais com demos que valeram como disco. As músicas são “liiiindas” mas sempre parece faltar algo, até mesmo em sons hipnotizantes como Waiting around (canção de fim de namoro que mais parece tema de filme da Sessão da Tarde) e Bridges, canção envolta em nuvens, e com letra melancólica-àààà-beça (“vejo as pontes que queimei / não me conheço mais”).

De legal, tem Black magic, valorizada por efeitos especiais que acompanham a pegada forte no piano. De sub aproveitado, tem Green eyes – balada triste de piano, que soa meio ingênua, em letra e música – e o jazzinho pop e sonolento de Everything may soon be gone. A linda I love you, com piano pescado como em Imagine, de John Lennon, ganha uma batida tensa e estranha, que chega a lembrar o som de tiros – acaba estragando o que poderia ser um bom momento.

O final, com a cantiga Lullaby, impressiona justamente pelo bom aproveitamento: som de demo, piano delicado e ruídos ao fundo, como se todo o estúdio respirasse. Shine, mesmo tendo momentos interessantes, soa como se Tobias resolvesse jogar o manual de Goon no lixo, mas sem saber o que colocar no lugar.

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Ouvimos: Charm School – “Schadenfreude ploy” (EP)

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Charm School lança o EP Schadenfreude ploy: pós-punk ruidoso e político, entre Swans e Killing Joke, com sax, guitarras sujas e letras de ataque.

RESENHA: Charm School lança o EP Schadenfreude ploy: pós-punk ruidoso e político, entre Swans e Killing Joke, com sax, guitarras sujas e letras de ataque.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Surprise Mind
Lançamento: 20 de fevereiro de 2026

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A “escola de charme” do nome dessa banda do Kentucky… Bom, só se for o charme pós-punk, da experimentação sonora lembrando Swans, Killing Joke e Wire, e o prazer do dedo na cara. Após estrear com Debt forever, primeiro álbum, no ano passado, o Charm School volta com o EP Schadenfreude ploy. Andrew Sellers e seus amigos voltam inspirados mais uma vez pelo barulho norte-americano, por no wave e pelas bandas mais sujas do pós-punk – e pela noção de que o capitalismo e a escalada do fascismo estão ferrando cada vez mais o universo.

  • Ouvimos: Accelera Deck – Gargoyle lips

Com quatro faixas que continuam o disco anterior, Schadenfreude ploy soa como uma homenagem sonora ao underground norte-americano dos anos 1990, no pós-punk experimental (com riffs de guitarra e saxofone) da faixa-título, na violência sonora e lírica de Scene queen e na onda Killing Joke + Joy Division de Disgrace. A curiosidade aqui é Prime mover unmoved, que começa como uma valsa pós-punk torta, baseada em ruídos de guitarra, e ganha peso e brutalidade no susto – e tem uma letra romântica (!), mas do jeito da banda: “Você é cada detalhe / você é cada anel de diamante / você é cada quarto silencioso / você é cada lua brilhante (…) / você é a dívida de cada jogador / você é o braço de cada viciado / você é cada terreno baldio / você é cada segundo pensamento”.

Em outras letras de Schadenfreude ploy, por acaso, Andrew decidiu partir pro ataque: a faixa-título fala em “pagar pra jogar” (ou para “tocar”) e soa como o outro lado da moeda de Ace of spades, do Motörhead, só que atualizado pra os tempos de bets – ou quem sabe um urro contra as sacanagens dos aplicativos de música. Scene queen é dedicada a alguém que Andrew quer ver pelas costas, e que fica “agindo como pobre quando todos sabemos que você é rica”.

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Ouvimos: Flying Lotus – “Big mama” (EP)

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EP Big mama, de Flying Lotus, mistura música e cinema em 13 minutos de eletrônica caótica, fragmentada e imprevisível, com clima de HQ, videogame e ficção científica.

RESENHA: EP Big mama, de Flying Lotus, mistura música e cinema em 13 minutos de eletrônica caótica, fragmentada e imprevisível, com clima de HQ, videogame e ficção científica.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Brainfeeder
Lançamento: 6 de março de 2026

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Parecia que Steven Ellison, o DJ, produtor e músico conhecido pelo nome de Flying Lotus, estava mais interessado em cinema do que em música – ainda que ele mesmo tenha feito a trilha sonora de Ash, seu filme de ficção científica lançado no ano passado.

De certa forma, a coisa se inverte agora: Big mama é um EP que surgiu acompanhado de um curta, e que une outras linguagens. Flying Lotus convidou Christopher Ian Macfarlane para fazer a capa psicodélica do EP, e parece aproximar Big mama de um universo que inclui desenhos animados de monstros, HQs espaciais, videogames e filmes pra lá de esquisitos – tudo isso dando as caras nos treze minutos do disco.

Big mama, aliás, pode ser ouvido de duas formas: nas plataformas digitais, as faixas estão separadas, e depois há um “bônus” (esse tipo de coisa na era dos aplicativos de música é até meio estranha, mas…) com todas as músicas interligadas. Algo que talvez venha do processo de composição do disco: FL passou alguns meses compondo músicas de 10 a 15 segundos para o EP, e depois isso tudo foi unificado.

Um outro detalhe é que Steven / Flying queria que o disco não se parecesse com uma criação de IA, e que as criações eletrônicas de Big mama parecessem humanas (no release, aliás, ele soltou frases bem interessantes: “eu queria que a sensação fosse como ser disparado de um canhão, pura energia explosiva e imprevisível. Como um computador que deu errado. Como uma máquina que simplesmente perdeu a cabeça…”).

  • Ouvimos: Accelera Deck – Gargoyle lips

E aí que Big mama é exatamente isso aí: parece que a chefia do maquinário se mandou e cada peça funciona como quer – parece também com a substituição da IA pela Máquina Talvez do Professor Pardal. Julgando pela faixa-título, que abre o disco, vem eletrônica selvagem da grossa. Até que vem Captain Kernel e une viagens de teclados, sons quase hi-NRG e solinhos que lembram jazz fusion. Antelope Onigiri tem vários sons entrecortados em meio a uma viagem acid-bass, além de ruídos que parecem um animal bocejando e levantando.

Continuando, In the forest – Day vai do som de videogame, com rapidez e musicalidade, a uma beleza quase ambient. E climas entre o jazz e a fantasmagoria dominam as faixas finais, Brobobasher, Horse nuke e Pink dream – essa última lembrando às vezes um tema de telejornal. Essa tensão musical, de nunca saber o que está para acontecer, é o melhor de Big mama. Só que justamente por causa disso, ele se torna uma experiência que vai além até da própria psicodelia (aliás “psicodelia” chega a ser um modo bem rasteiro de definir o disco).

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