Connect with us

Crítica

Ouvimos: Claire Rousay, “Sentiment”

Published

on

Ouvimos: Claire Rousay, "Sentiment"
  • Sentiment é o novo disco de Claire Rousay, instrumentista de vanguarda que tem uma discografia bem numerosa. Nascida no Canadá, ela vive em Los Angeles e grava pelo selo Thrill Jockey, gravadora independente norte-americana que vai do metal ao som experimental e que é dirigida por Bettina Richards, uma ex-executiva de A&R da gravadora Atlantic.
  • Claire é uma mulher trans. Passou a falar sobre o assunto em entrevistas em 2019. “Quando as pessoas dizem coisas transfóbicas ou homofóbicas, é como se eu já tivesse ouvido tudo. E muitas das vezes que ouvi isso não foram na internet. Alguém gritou comigo do carro. Ou ficou me encurralando em um bar ou me empurrando ou algo assim. Já ouvi todas essas coisas em situações muito mais extremas”, disse ao Irish Times.

Se for escolher um disco para dar aquela alegrada básica no fim de semana, nem passe perto do novo lançamento de Claire Rousay. Sentiment faz jus ao título: investiga tanto os sentimentos de quem passa por uma fossa abissal, que, como disco de cabeceira, pode ser uma péssima companhia.

A abertura é com 4pm, uma faixa falada, gravada como se fosse um recado na secretária eletrônica. Theodore Cale Schafter, convidado de Claire, avisa que “são 4 da manhã e não consigo parar de chorar” e “nunca me senti tão sozinho e descartado em minha vida, e isso inclui momentos em que perdi amigos, família e até mesmo o que eu pensava ser meu deus”.

Sentiment, pode acreditar, é o disco “pop” de Claire, já que ela é originalmente uma artista de sons experimentais e de música concreta – vários discos dela têm canções que chegam a quase 20 minutos, e que usam e abusam de sons gravados na rua. O novo álbum é pródigo em músicas curtas e investe num material desafiador, mas que, se devidamente rearranjado, ganharia uma cara pop mais definida.

Aparentemente, o recado de secretária da primeira faixa é um recado para quem ouve o disco. Talvez como brincadeira com o “sentimento” do nome, Claire investe em vocais robóticos, cheios de autotune – em faixas como as baladas tristes Head e It could be anything e a vinheta Asking for it. Curiosamente, a impressão que dá é a de estar escutando artistas que habitam um espectro bem diferente (e mais radiofônico) que o dela.

A imagem de capa, com Claire em clima de “ah não, o dia amanheceu e não quero levantar da cama” permeia o disco. Sentiment, afinal, é o álbum do descontrole emocional de Head, do orgulho ferido e da misantropia de Lover’s spit plays in the background e de uma porrada emocional que se chama justamente… Please 5 more minutes, aquela frase que quase todo mundo um dia falou ao acordar. Também é o disco de Sycamore skylight, instrumental com piano ao longe, e ruídos de conversa, quase como num sonho estranho e meditativo. Um som para os momentos em que ficar só, morgando na cama, pode ser doloroso, mas é necessário.

Nota: 7
Gravadora: Thrill Jockey

 

Crítica

Ouvimos: Anaïs Sylla – “Exil”

Published

on

Resenha: Anaïs Sylla – “Exil”

RESENHA: Em seu disco de estreia, Exil, Anaïs Sylla transforma a experiência do exílio em pop sofisticado, cruzando ritmos afro-caribenhos, reggae, r&b, ambient e folk malinês.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Alá Comunicação e Cultura
Lançamento: 21 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Exil, nome do álbum de estreia da franco-suíça-senegalesa Anaïs Sylla, foi tirado de Exil, filme do cineasta Tony Gatlif – uma obra sobre pessoas errantes, que passam por culturas e identidades diferentes. Anaïs, radicada no Brasil, começou a pensar o disco na época da pandemia, quando o “exílio” que geralmente é feito entre países e novas culturas, virou uma obrigatoriedade que deveria ser vivida dentro de casa.

Acabou se tornando uma usina pessoal de criação rítmica e melódica, em que efeitos sonoros, violões, percussões e vocais macios unem-se em canções pop de clima afro e caribenho, como em Minha irmã (com Anelis Assumpção), Regard croisés, Rêver (com Jota.Pê e Caê) e o reggae De bouche à bouche. Em alguns momentos, Exil lembra o começo da carreira de Céu, mas com outras ideias rítmicas no lugar do samba-jazz eletrônico.

O som também abarca r&b ultratexturizado (Silhouette), um ambient viajante e leve (La mer) e o folk do Mali de Je chantrai pour toi (com Tiganá Santana). Exil traz tambem Anaïs lembrando do tempo em que cantou com João Donato na versão de Lugar comum em francês (Endroit commun), e fazendo pop sofisticado e marítimo em Traverséé.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: Rodrigo Brandão e Guilherme Granado – “Pequenas pirâmides” (EP)

Published

on

Resenha: Rodrigo Brandão e Guilherme Granado - "Pequenas pirâmides" (EP)

RESENHA: Em Pequenas pirâmides, Rodrigo Brandão e Guilherme Granado misturam spoken word, dub, psicodelia e krautrock para refletir sobre violência, cotidiano e a vida em São Paulo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: YB Music
Lançamento: 20 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Rodrigo Brandão é MC e artista de spoken word, e o músico e produtor Guilherme Granado é conhecido pelo trabalho em bandas como Hurtmold, São Paulo Underground e Exploding Star Orchestra. Pequenas pirâmides, EP do duo, mergulha na atualidade (nas letras) e num escapismo psicodélico (nas melodias e arranjos).

Não há feats, as três faixas surgem do encontro dos dois, e músicas como (Essa não é uma) canção de amor soam como uma performance musicada, como um jornal de rádio que observa minutos passando, dias voando, contas chegando e mundo sendo dominado pelo que há de pior.

For the children põe ambiência de dub em histórias de rua, infância, violência e família, narradas com vocal grave e esfumaçado (“nada de esconde-esconde quando o bicho pega-pega”, assevera a letra). São Paulo, estado de espírito, tem elementos de psicodelia, krautrock e clima realmente tenso, entre narrações, efeitos e versos que brincam com os sentidos de palavras como “estado” e “capital”. Brincadeira séria, apontando para o reacionarismo da megalópole.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Crítica

Ouvimos: The Mystery Jets – “A hole to see the sky through”

Published

on

Resenha: The Mystery Jets – “A hole to see the sky through”

RESENHA: No oitavo álbum, A hole to see the sky through, o Mystery Jets mistura britpop, pós-punk, psicodelia, reggae-rock e country em um disco sobre luto, solidão e as mudanças inevitáveis da vida.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Fiction
Laançamento: 21 de agosto de 2026

  • Quer receber nossas descobertas musicais direto no e-mail? Assine a newsletter do Pop Fantasma e não perca nada.

Tem uma coisa meio espacial, e meio guerreira, no som dos Mystery Jets – na verdade, uma das bandas britânicas que continuaram metendo marcha nos “valores” musicais do britpop, mesmo sendo uma banda dos anos 2000. A hole to see the sky through, oitavo álbum, e o primeiro pela Fiction, traz o grupo seguindo caminhos, digamos assim, mais variados musicalmente.

E olha que o disco dá um certo susto, com duas músicas de pouca tração. A parte I da faixa-título é uma visão “arena” de como uma banda de britpop faria uma canção “amiga”, enquanto Black sage, mesmo começando em tom distorcido e eletrônico, vai tanto na cola de bandas como Muse que fica difícil separar uma coisa da outra. Na real, o trio pseudoprogressivo é uma das bandas mais lembradas durante a audição de A hole – volta e meia os arranjos caminham para uma “evolução” que você imaginaria o Muse tendo em algum momento da história deles.

Observando o mundo pelo viés da solidão e da busca de conforto, o Mystery Jets chega a momentos de psicodelia quase beatle (a mais-ou-menos Doomsday waltz, que parece uma balada 60’s dos Bee Gees, mas com peso), invadem a área do pós-punk (na bela e gélida Godrays) e até a da onda baggy dos anos 1990 (Flea joint tem algo de Soup Dragons, com direito a um papinho apocalíptico no estilo dos Stone Roses, na letra: “tudo tem um começo e um fim / celebre a mudança, aceite a impermanência / liberte a terna perda da inocência”).

Quem é fã da banda e tem alguma desconfiança sobre o novo álbum, pode ficar tranquilo / tranquila. Na maioria das vezes esse clima de viagem sonora dá certo, e A hole até causa algumas surpresas, como Flea joint, e a balada reggae-rock tristinha Long lonely road – essa, com uma baita cara de futuro hit.

Tanto que o principal da “maturidade” sonora do grupo é a variedade do álbum, que passa também por baladas country (a triste Soul river) e mais sons “espaciais” e até meio progressivos de araque (Anagliypta). No geral, um disco em que o Mystery Jets decidiu olhar pra si próprio e para as experiências de luto, além das “trocas de pele” da vida.

  • Gostou do texto? Seu apoio mantém o Pop Fantasma funcionando todo dia. Apoie aqui.
  • E se ainda não assinou, dá tempo: assine a newsletter e receba nossos posts direto no e-mail.

Continue Reading

Acompanhe pos RSS