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Ouvimos: Bangladeafy, “Vulture”

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Ouvimos: Bangladeafy, "Vulture"
  • Vulture é o sexto disco do Bangladeafy, djupla novaiorquina formada por Jon Ehlers (voz, baixo, synth, sampler) e Atif Haq (bateria). É o quinto disco que lançam pelo selo Nefarious Industries, criado pelas bandas A Fucking Elephant e El Drugstore, “duas das bandas mais detestáveis ​​que saíram do grande estado de Nova Jersey na memória recente” (diz o site do selo).
  • Você acha o som da dupla ruidoso e incômodo? Uma curiosidade é que Ehlers usa aparelho para surdez, e diz já ter sofrido com gente capacitista. “Já ouvi que não tinha o que é preciso para conviver com os cachorros grandes, porque há um limite para o que um músico com deficiência auditiva pode fazer. Mas provei meu valor e trabalhei mais para chegar lá”, diz aqui.
  • “Todos os sons de sintetizador foram criados em um Yamaha MODX6. As facadas de amostragem foram moldadas a partir de várias fontes manipuladas, como gravações de campo de abelhas e sistemas de contra-foguetes usados ​​na guerra”, diz Ehlers, sobre o uso da tecnologia no disco novo.

A discografia do Bangladeafy já inclui seis lançamentos. Os quatro últimos discos da dupla de Jon Ehlers e Atif Haq são bem curtos – somados, têm menos tempo de duração que Mellon Collie and The Infinite Sadness, álbum duplo dos Smashing Pumpkins.

Vulture, o disco novo, soma 15 curtas faixas em pouco mais de 24 minutos, e traz todas as músicas reunidas quase como numa só peça ruidosa. Há pouco indício de separação entre as faixas, e as músicas parecem amarradas pela experimentação rítmica, que põe o Bangladeafy a meio caminho de bandas de pós-hardcore/grindcore e grupos como Skinny Puppy, Helmet, Nine Inch Nails e Ministry.

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O ponto de virada no álbum parece ser a beleza dos sintetizadores de Washed by the dust storm, música de pouco mais de um minuto que abre uma clareira sonora lembrando Wire e Swans no álbum – é o que vem na sequência, com Prism e Don’t take my light away. Até lá, ataques ferozes de sintetizador, baixo, percussão e programações marcam faixas como Lonely white inferno, Whisper rat, We will never be safe in this place e Pastures. Do meio para o final, músicas como Diamond combinam paisagens sonoras e ritmos pesados e rápidos, alternando com sons lembrando Suicide, como Earn your colors.

Entre instrumentais e não-instrumentais, o disco é marcado por versos que soam como palavras de ordem e fazem a trilha sonora do caos e do risco – afinal, tem até um instrumental contemplativo e irônico chamada Dreams are for the weak (literalmente, “sonhos são para os fracos”), lembrando os discos “ambientais” de Brian Eno. A crueza retorna no fim do disco com temas como as selvagens First to the carcass e Belly up.

Gravadora: Nefarious Industries
Nota: 8

Crítica

Ouvimos: Tanya Donelly e Chris Brokaw – “The undone is done again” (EP)

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Resenha: Tanya Donelly e Chris Brokaw – "The undone is done again" (EP)

RESENHA: The undone is done again une medieval, pós-punk e folk sacro num EP etéreo e inesperado de Tanya Donelly e Chris Brokaw.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Fire Records
Lançamento: 17 de abril de 2026

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“Ei, isso é muito específico, não acham?”, devem ter ouvido Tanya Donelly e Chris Brokaw quando anunciaram seu desejo de gravar um EP dedicado à música medieval e antiga. A líder do Belly (e ex-Breeders e Throwing Muses) e o ex-Codeine e ex-Come, digamos, surpreendem pela escolha. Esse tipo de som está mais próximo dos grupos de estudo histórico de música do que do indie rock – muito embora nem seja estranho imaginar artistas do pós-punk envolvidos com esse tipo de som.

A Legião Urbana enamorou-se da “música antiga” em V (1991), David Sylvian (ex-Japan) experimentou harmonias modais em discos solo, o Dead Can Dance (banda da 4AD, selo ao qual Tanya esteve ligada por anos) achou razões para existir em torno da música ritualística e medieval. E a história de The undone is done again é bem despretensiosa: surgiu de um evento beneficente de fim de ano para o qual os dois haviam sido convidados a apresentar algum trabalho – quando Tanya sugeriu o trabalho em duo, ouviu de Chris que ele estava ouvindo música medieval.

A gravação foi feita num estúdio de verdade (nada de “bedroom medieval”) e Tanya usou um aplicativo de tradução para não se perder. The undone is done again, enfim, tem quatro madrigais cantados em latim (!) e gravados de modo etéreo, com a voz bela e voadora de Tanya e a guitarra esparsa e cheia de eco de Chris. Daí músicas como Novus annus adiit se tornam mágicas sem muito esforço, com vocal camerístico e som sacro, além da letra falando das ótimas promessas de ano novo. Já Sainte Nicholaes, possivelmente a canção mais antiga do EP, atribuída ao eremita inglês do século XII, São Godric de Finchale (como aponta o The Quietus), tem algo de Björk e Nico, nos vocais e no clima imersivo.

Na segunda metade do EP, In hoc anni circulo tem guitarra circular e sacra, chegando a soar como um órgão. E tem ainda Plaudat letitia, canção curiosa, com vocal quase hispânico e guitarra em clima de faroeste. No fim das contas, uma curiosa lembrança das verdadeiras vibrações do natal e do ano novo – e uma espécie de “comemoração raiz” das duas datas.

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Crítica

Ouvimos: Tiê – “Esgotada”

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Resenha: Tiê – “Esgotada”

RESENHA: Tiê transforma Esgotada em disco íntimo sobre maternidade, cansaço e afeto, misturando MPB setentista e pop suave.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Rosa Flamingo / Warner
Lançamento: 20 de maio de 2026

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Esgotada, novo álbum de Tiê, é curto – menos de trinta minutos, dez músicas, algumas delas são vinhetas que deixam entrever algo dos bastidores do disco. Na verdade trata-se de um projeto em dois atos, já que Amorosa, a continuação, sai no segundo semestre. A ideia do trabalho é mostrar dois lados diferentes da maturidade de Tiê, hoje mãe, dividida entre si própria e toda a carga mental que vai tomando espaço no dia a dia. E, na real, dividir a conversa sobre maternidade, esgotamento e limites com o público.

No geral, não é de hoje que os discos de Tiê têm uma certa onda de cuidado geral, de sentimento coletivo. Rola até mesmo em canções absolutamente pessoais como Assinado eu e Na varanda da Liz – aliás, rola justamente por causa da vibe “pessoal” dessas músicas. Esgotada aumenta esse sentimento de conversa, de identificação, em faixas como Minha história e Tempo pra mim. São músicas sobre as coisas boas e desgastantes do dia a dia, e sobre a vontade de voltar no tempo. Ou de pelo menos ter uma relação melhor com ele.

Tempo pra mim, uma toada moderna e tranquila, faz um pedido de calma no meio do caos diário – encerrando com uma batida percussiva de coração. Outros assuntos vão surgindo: o bolero folk Atitude, com Adriana Calcanhotto, é sobre falar e não ser ouvida. Ainda e A verdade dói são sobre eternos desencontros. Altar, uma música bastante carioca (citando Santa Teresa e Copacabana na letra) é uma tentativa de ajudar alguém a passar por dificuldades.

Criando o que pode ser chamado de um disco amigo, Tiê faz de Esgotada um álbum tranquilo e emocional, dividido entre modernizações da MPB setentista (Minha história, Altar, Tanto faz) e algumas ondas mais pop (o piano Rhodes e o clima dançante de Contato, a balada blues de Ainda). Tem um clima ligeiramente beatle em algumas faixas – que já havia até no hit Na varanda da Liz. Como qualquer disco lançado em duas partes, Esgotada tem um certo ar de mixtape, de algo que ainda falta surgir – um certo risco a ser corrido. Mas a mensagem foi passada.

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Ouvimos: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)

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Resenha: Boris – “Dronevil – example -” (relançamento)

RESENHA: O Boris revisita o caos de seu álbum Dronevil em versão mais prática: drone, doom e ruído extremo para quem ama barulho experimental.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5
Gravadora: Relapse Records
Lançamento: 19 de agosto de 2025

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O Boris é um trio japonês extremamente barulhento – quase uma materialização da doideira ruidosa e misteriosa do Les Rallizes Dénudés – e que grava e lança discos compulsivamente. O som une drone, sludge metal, doom metal, psicodelia e música assustadora em geral (volta e meia o som fica mais violento sem aviso prévio). Ultimamente a banda anda revisitando seus discos antigos e voltando do passeio com algumas surpresas e lançamentos comemorativos. Foi daí que veio Dronevil – example-, um “retrabalho” em cima de seu disco de 2005, Dronevil.

Dronevil era um disco duplo cujos álbuns podiam ser ouvidos em separado, mas a ideia era que o ouvinte desse um jeito de tocar os dois discos ao mesmo tempo – adaptando aquela ideia maluca do Flaming Lips para o álbum quádruplo Zaireeka, de 1997. O disco passou por algumas mudanças nos relançamentos: nomes de faixas foram trocados, músicas foram acrescentadas, a capa, originalmente um desenho de Stephen O’Malley, da banda Sunn O))), foi mudada. A versão “example” continua sendo dupla, mas junta os dois discos originais num só para ninguém ter o trabalho de usar dois CDs (ou dois aparelhos de som, dois celulares, duas caixas) para escutar o pacote todo.

E aí que não tem como falar de Dronevil sem falar termos como “atmosférico”, “experimental”, sendo que cada faixa é atmosférica e experimental de um jeito. A associação com o Sunn O))) faz todo sentido, já que o som do Boris tem dois lados: ou é puro drone, ou cai no sludge e doom metal, com sons que lembram o Godzilla se movimentando e pisando em prédios.

Loose x Red começa dando medo: uma guitarra “tranquila”, um prato de bateria que vai se tornando foco de terror, microfonias e um som gelado que vai tomando a frente, dando um clima de sonambulismo. Giddiness throne x Evil wave form é menos insinuante e mais agressiva, mas com clima fantasmagórico, com ruído geral lá pelas tantas.

Nem falei, mas vale avisar: são quatro faixas com cerca de 20 minutos cada. Interference demon x The evilone which sobs, abre no drone e se torna quase um blues metal triste. O final é com A bao a qu, “single” de 17 minutos incluído no disco, e mixado com o material menos metálico de Dronevil. Uma música cuja curva é em formato de sino: drone + metal+ som que vai silenciando aos poucos. Tem que amar barulho e experimentalismo para curtir Boris de verdade.

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