Crítica
Ouvimos: MC Hariel – “É noiz ki tá”

RESENHA: MC Hariel mistura funk, trap e brasilidades em É noiz ki tá, disco direto, com raiva, superação, críticas sociais e feats de peso.
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Tendo uma parceria com Gilberto Gil no currículo (A dança, gravada pelos dois), o paulista MC Hariel volta em É nóiz ki tá unindo funk, trap, rap e até vibes praieiras e baianas, que surgem no funk-samba-reggae Beira do mar. Uma mistura de climas que basicamente regula o disco. O repertório de Hariel, que foi feito – segundo o próprio – em meio a encontros e festas com os amigos, aponta, na real, para a mesma onda que embala discos recentes de rappers como Klisman e Djonga.
Ou seja: a raiva, o terror, as raízes e as histórias bizarras das quebradas são contrabalançadas com discurso de superação (em XT2, interpolada com Fazendo música, jogando bola, de Pepeu Gomes, tem um verso ótimo: “sempre acreditei que a fase ruim vira frase / e frase encaixa na base”) e com histórias de quem já viu a vida do avesso. Em meio aos beats frenéticos de Aston Martin, Hariel lembra, indo direto no nervo: “antes de se cobrar, cobra quem te deve primeiro / na sua mente tem uma máquina de dinheiro / cuida bem dela pra deixar teu filho herdeiro”.
Falando direto com seu público, Hariel e seus convidados (ele chamou MC Cabelinho, Rael, Major RD, Neguinho da Kaxeta, AJuliaCosta, entre outros) pedem paz, sucesso, menos racismo e menos cobiça na vinheta O que eu quero pro mundo, batem cabeça em batidões como Conta forrada, Limite do extremo (“arte eu faço é com a vida vivida / sempre foi isso mermo”) e Bloco de notas (“quero mais saber de nada / só distância dos fardados / e a conta toda engordada”) e expõem contradições pessoais em faixas como Sal grosso e Sem sentir saudade.
Já Sede de vencer, no final, fecha o ciclo trazendo o violão de Duani e os vocais do pagodeiro Ferrugem, falando sobre pequenas diferenças que moram onde ninguém enxerga, mas que definem a aceitação e o lugar de cada um no mar de egos (“quem viveu na pele sabe reparar”, diz).
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Warner Music Brasil
Lançamento: 21 de agosto de 2025.
Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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