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Cinema

Jogaram na internet Love You Till Tuesday, filme de David Bowie

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Jogaram na internet Love You Till Tuesday, filme de David Bowie feito em 1968

David Bowie, quem diria, poderia ter ido parar na gravadora dos Beatles, a Apple. Não, pensando bem, ele não poderia. Assim que ficou claro que o primeiro LP do cantor, de 1967 (intitulado apenas David Bowie) tinha fracassado, a Deram, selo que tinha contratado Bowie, mandou o futuro astro do glam rock passear. Kenneth Pitt, empresário dele, foi atrás de outras gravadoras, como a Atlantic e a Liberty, e chegou a ter reuniões com a Apple, mas nada feito.

Bowie deu um tempo na construção de seu próprio estrelato para fazer um espetáculo de mímica com Lindsey Kemp, Pierrot in turquoise, que não deu muito certo, embora tenha feito uma pequena turnê pela Grã-Bretanha. Foi nessa que ele, com visual já mudado de mod para hippie, começou a ter um relacionamento com uma garota misteriosa chamada Hermione Farthingale.

As frustrações de Bowie com a carreira que não andava foram esquecidas um pouco com o novo amor. E também quando Pitt conseguiu colocar Bowie num comercial de sorvetes da marca Lyons Maid. Bowie acabou formando um trio com Hermione e o guitarrista Tony Hill.

O nome do grupo era Turquoise. Hill não duraria muito tempo porque já tinha projetos de lançar seu próprio grupo e decidiu continuar correndo atrás do sucesso. O guitarrista John Hutchinson, que já trabalhara com Bowie, entrou em seu lugar e o trio passou a se chamar Feathers. O problema é que – qualquer fã roxo de David Bowie sabe – o enrosco com a bela Hermione não duraria muito.

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O assunto vazaria para várias canções do segundo disco do cantor, David Bowie (1969, de canções como a sofrência literal Letter to Hermione). A cantora e bailarina se tornaria a “figurinha mais difícil do álbum” de toda e qualquer biografia do cantor, e não seria nunca encontrada para dar depoimentos. Reapareceu em 2019 quando a BBC apurava para documentários sobre Bowie. A mulher agora conhecida como Hermione Frankel tinha 68 anos e dava aula de pilates.

O fim do enrosco entre Bowie e Hermione, lembram testemunhas, aconteceu quando Kenneth Pitt estava mandando filmar Love you till tuesday, (1969) filme-clipão de Bowie que mostrava o cantor apresentando as músicas do primeiro álbum, mais alguns números de mímica e até uma versão inaugural de Space oddity, que só estaria no segundo disco. E a novidade é que alguém jogou o filme inteiro no Vimeo. Olha aí.

Love you till tuesday foi dirigido por um amigo de Pitt, Malcolm J Thomson, e foi, digamos, uma estrategia completamente equivocada. Afinal, quem se interessaria em ver um astro desconhecido dublando músicas mal-sucedidas de um disco que ninguém conhecia?

A biografia David Bowie, de Marc Spitz, joga mais lenha na fogueira: Bowie já estava em outra naquela época, adotando um visual doidão e hippie, e Pitt insistia em retratá-lo no filme como um enterntainer mod e asseado. “O verdadeiro Bowie daquele período, mostrado nos segmentos que apresentavam Hermione e Hutchinson, era mais um hippie sujinho de rua”, escreveu Spitz.

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Uma curiosidade do filme é The mask, número de mímica escrito pelo próprio Bowie que parecia adiantar em alguns anos a história de Ziggy Stardust: um artista que não conseguia fazer com que seu público distinguisse ele mesmo de sua persona, e que acabava morto por sua própria máscara. Esse segmento está isolado no Vimeo.

O áudio de The mask chegou a aparecer numa compilação pirata de Bowie

Love you till tuesday acabou não dando nada certo, a começar porque Pitt, que bancou toda a aventura do próprio bolso (e continuaria sendo empresário de Bowie até 1971) se desentendeu com Thomson por causa do orçamento.

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O filme acabou arquivado até 1984, quando Pitt achou que seria interessante informar a PolyGram – que controlava a Deram, primeira gravadora de Bowie – sobre a existência do filme. Aproveitando a volta do interesse a respeito do cantor (por causa do disco Let’s dance, de 1983), o filme acabou saindo em VHS. Logo na sequência, a moribunda Deram até relançaria o primeiro disco do cantor com músicas a menos, à guisa de “trilha sonora”, com o nome Love you till tuesday, incluindo a versão original de Space oddity. Até no Brasil esse disco saiu.

Veja também no POP FANTASMA:
– Fizeram uma playlist com 19 horas de David Bowie em ordem cronológica
Holy holy: aquele fracasso inesquecível de David Bowie
Luv Ice Lolly: David Bowie na guerra de sorvetes em 1969
– Tem um barulho de telefone no fim de Life on Mars?, de David Bowie

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O que você vai ver no documentário sobre o Velvet Underground

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O que você vai ver no documentário sobre o Velvet Underground

A essa altura, o que mais tem é link para baixar (de forma pirata) The Velvet Underground, o documentário de Todd Haynes sobre a banda americana que, mesmo não vendendo milhares de discos, mudou a sua vida.

E mudou mesmo: o filme de Todd é bastante assertivo ao deixar claro que a música do Velvet (e mais aproximadamente a de Lou Reed, principal compositor do grupo) deu voz a muita gente que estava totalmente excluída de todos os círculos possíveis e imagináveis da cultura e do universo pop.

Músicas como Heroin, All tomorrow’s parties (cuja letra poderia ter sido feita em 2021, no meio da pandemia), Sunday morning, Here she comes now e Sweet Jane foram mais do que apenas canções. Deram identidade para muita gente, e deram voz a uma turma que andava pelos cantos, sem público e (muitas vezes) desenturmada, em plena era do flower power. Dá para perceber pelo filme o quanto essa mensagem foi compreendida e assimilada.

Para quem se interessa, antes de tudo, por música de vanguarda, The Velvet Underground é uma boa demonstração de como a música cult se misturou com o universo pop – e de como até Beatles e The Everly Brothers encontram-se escondidos ali, na receita do grupo. Ainda que Sterling Morrison (guitarra), Moe Tucker (bateria e ocasionais vocais) e Nico sejam importantíssimos, o VU é o encontro entre um pretenso poeta e rockstar que adorava provocar e irritar os outros (Lou Reed) e um compositor e músico de vanguarda apaixonado por drones (John Cale).

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Se você espera que o filme mostre imperfeições de Lou como compositor e líder do grupo, vale dizer que algumas características desagradáveis do cantor estão lá – incluídas aí a maneira pouco bacana como nomes como Andy Warhol e John Cale foram sacados da turma. Mas Lou é mostrado como o sujeito que deu um discurso ao Velvet, um artista criativo e um companheiro bastante carismático.

O filme se vale de depoimentos de Moe, John Cale, Shelley Albin (ex-namorada de Lou Reed e, em tese, inspiração de músicas como Pale blue eyes), Merrill Reed (irmã de Lou, hoje psicoterapeuta), Mary Woronow (superstar da turma de Andy Warhol) e de ex-colegas dos integrantes no começo da carreira. Nomes como Sterling e Lou aparecem em depoimentos antigos.

Quem quiser um panorama bem legal sobre a caminhada do VU do comecinho até a era da Factory, vai ficar feliz com o filme. Um detalhe chato é que The Velvet Underground tem quase nada de shows da banda. Restou a um jovial Jonathan Richman (Modern Lovers), cria da banda, e que já viu cerca de 70 (!!!) shows do Velvet, dar um depoimento excelente sobre como eram as apresentações e como era legal ver um show deles.

Não há muita coisa sobre Loaded, disco de 1970, no filme. Compreensível: Moe Tucker não participou do disco, Cale diz que o Velvet já não era mais problema dele, Sterling e Lou estão mortos, Doug Yule não quis dar depoimento. Ainda assim, isso é BASTANTE lamentável, já que Loaded foi o maior esforço para tirar o Velvet Underground do (eita) underground. Falei desse álbum aqui inclusive. O último empresário do Velvet, Steve Sesnick (vilanizado por Lou e por uma porrada de gente do círculo do grupo), passa batido pela história e nem é citado.

No mais, qualquer coisa feita por Todd Haynes merece que você veja com toda a atenção – e já falamos sobre uma delas, o doc Superstar: The Karen Carpenter story, feito apenas com bonecas Barbie.

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No podcast do POP FANTASMA, a redescoberta de Jim Morrison em 1991

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No podcast do POP FANTASMA, a redescoberta de Jim Morrison em 1991

Indo na onda do documentário Val, sobre o ator Val Kilmer, e recordando os 50 anos da morte de Jim Morrison, lembramos no nosso podcast, o POP FANTASMA DOCUMENTO, aquela época em que Val virou Jim. O ator de filmes como Top Secret interpretou o cantor no filme The Doors (1991), dirigido por Oliver Stone. E, de uma hora para outra, mais uma vez (e vinte anos após a partida de Jim Morrison), uma geração nova descobria canções como Light my fire, Break on through e L.A. woman.

No podcast do POP FANTASMA, a redescoberta de Jim Morrison em 1991

O Pop Fantasma Documento é o podcast semanal do site Pop Fantasma. Episódios novos todas as sextas-feiras. Roteiro, apresentação, edição, produção: Ricardo Schott. Músicas do BG tiradas do disco Jurassic rock, de Leandro Souto Maior. Arte: Aline Haluch. Estamos no SpotifyDeezerCastbox Mixcloud: escute, siga e compartilhe! Ah, apoia a gente aí: catarse.me/popfantasma.

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Urban struggle: tem documentário raro sobre punk californiano na web

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Sabe aquele vizinho fascista que você detesta, e que também tem uma relação péssima com você? Pois bem, o conto dos vizinhos que se odeiam mutuamente ganhou proporções astronômicas e perigosas com o relacionamento bizarro entre dois bares californianos: o boteco punk Cuckoo’s Nest e o bar de cowboys urbanos Zubie’s. Os dois ficavam um ao lado do outro na cidade de Costa Mesa, localizada em Orange County, região com cena punk fortíssima.

O Cuckoo’s Nest era um local importante para o punk da Califórnia, a ponto de bandas como Black Flag, Circle Jerks, Fear e TSOL teram tocado lá. E do primeiro show do Black Flag com Henry Rollins no vocal ter acontecido na casa, no dia 21 de agosto de 1981. Bandas como Ramones e Bad Brains, ao passarem pela cidade, sempre tocavam lá. Já o Zubie’s, lotado de playboys no estilo country, costumava ser um problema para os punks: os cowboys invadiam o local, arrumavam brigas com os punks e os insultavam usando termos homofóbicos.

Vale citar que mesmo dentro do Cuckoo’s Nest as coisas não eram fáceis, até porque “movimento punk” significava uma porrada de gente reunida, com motivações diferentes e estilos de vida conflitantes. Tipos violentos e machistas começaram a frequentar o local e a arrumar briga com os frequentadores. E quem viu o documentário The other f… word, da cineasta e roteirista Andrea Blaugrund Nevins, recorda que o rolê punk na Califórnia era muito violento.

Flea, baixista dos Red Hot Chili Peppers – e que tocou no Fear por alguns tempos nos anos 1980 – lembra em The other f… word que, no começo dos anos 1980, uma cena comum nos shows do Black Flag eram as inúmeras brigas nas quais os fãs eram esmurrados e nocauteados, apenas por terem o cabelo ou a roupa assim ou assado. “As pessoas não somente tomavam porrada, elas acabavam no hospital. Havia ambulâncias transportando os fãs após os shows a todo momento!”.

O Cuckoo’s Nest ficou aberto de 1976 até 1981 e nunca deixou de ter problemas. O proprietário Jerry Roach lutava para manter a casa aberta, dialogava da maneira que dava com policiais, com clientes e até com a turma enorme de hippies, cabeludos e malucos que pulava de galho em galho na Califórnia.

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E essa longa introdução é só pra avisar que jogaram no YouTube o documentário  Urban struggle: The battle of the Cuckoo’s Nest, dirigido em 1981 por Paul Young.  Infelizmente sem legendas.

Tem uma edição melhor no Vimeo. Sem legendas também.

Num dos depoimentos do documentário, Jerry define a atitude dos punks como “foda-se, vivo de acordo com minhas regras”. Mas diz que não vê hippies como sendo pessoas da paz e do amor o tempo todo, e muito menos enxerga punks como odiadores contumazes. “É só um conflito de gerações”, disse Jerry, que – você talvez já tenha imaginado – batizou o local em homenagem ao filme Um estranho no ninho, de Milos Forman (o nome no original era One flew over the cuckoo’s nest).

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Tanto os músicos quanto Jerry falam bastante a respeito de brigas com a polícia – o dono do local relata as vezes em que conversou com os agentes – e reclamam da violência policial. Por acaso, um dos agentes é entrevistado, e os meganhas locais, seguindo o exemplo dos cowboys, não tinham o menor apreço pelos punks. A luta de Jerry para manter o local aberto também está no doc. Mas se você quer sair fora das discussões, o documentário ainda tem apresentações bem legais do Black Flag, Circle Jerks e TSOL.

Paul Young, o autor do filme, era um estudante de cinema que tinha sido contratado por Jerry para filmar as invasões da polícia ao local. Acabou sendo responsável pelo documentário, e anos depois acabou ficando bastante indignado quando viu o filme We were feared – The story of The Cuckoo’s Nest, de Jonathan WC Mills, e reconheceu várias de suas imagens lá.

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