Quando jovens, os garotos do The Who não tinham problema algum de sair na porrada entre um show e outro. O mais brigão da banda, claro, era o vocalista Roger Daltrey. Mas conviver com um maluco como o baterista Keith Moon não era fácil – ainda mais levando em conta que a bateria, como lembra Rodrigo Merheb no livro O som da revolução, era quase um instrumento solo nos primeiros discos da banda.

Daltrey servia como interlocutor entre o líder Pete Townshend e o batera Moon (e ainda tinha o cara quieto, o baixista John Entwistle) e volta e meia se enraivecia com coisa que vinham de um e de outro lado. Quem via a situação de perto, lembra que Moon vivia doidão e Townshend vivia querendo que Daltrey aparecesse menos que ele.

“Moon sempre achava que a bateria deveria estar no centro do palco. Eu era o pobre merdinha que tinha que ficar na frente dele. Aquilo era uma dor de cabeça por si só. Ele vivia fazendo coisas nas minhas costas e eu nunca sabia o que estava acontecendo. Eu ignorava totalmente que ele gozava da minha cara a noite toda. Nós éramos jovens supertestosteronizados, mal saídos da adolescência. É claro que isso criava fricção”, afirmou certa vez o cantor do Who.

O ápice foi quando a banda fez uma estressante excursão para a Dinamarca em 1965, seguindo uma base bizarra de três shows a cada dois dias. Puto da vida com mais alguma maluquice de Moon, Daltrey pegou as anfetaminas do baterista e jogou privada adentro. Moon pulou em cima dele, mas acabou levando umas porradas do vocalista, maior que ele e tão feroz quanto. “Foram necessárias cinco pessoas para me afastar dele”, lembrou o cantor em Roger Daltrey: The biography.

O que ninguém imaginava é que, por causa dessa briga, Daltrey acabaria expulso da banda, porque Entwistle e Townshend ficaram do lado do vocalista e acharam que o vocalista havia se excedido. Os empresários Kit Lambert e Chris Stamp se meteram e fizeram todo mundo ver que perder o vocalista não era das melhores coisas que poderia acontecer ao Who naquele momento. Ao voltarem para a Inglaterra, Daltrey foi readmitido.
Ok, mas o Who não terminaria de brigar, não. Olha só o que aconteceu em 1966 com a banda, de acordo com Merheb no livro O som da revolução.

“Por mais que estivessem juntos a todo custo, não havia nenhum sinal de apaziguamento à vista. Quase um ano depois, no mesmo dia 20 de maio de 1966 em que Bruce Johnston, dos Beach Boys, chegou a Londres com um exemplar de Pet sounds na mala, o The Who se apresentaria à noite num clube. Ocupados em ciceronear seu amigo da Califórnia, Moon e o baixista John Entwistle perderam a hora e, ao chegar, perceberam que Roger Daltrey e Pete Townshend não tinham hesitado em pedir emprestada a seçao rítmica da banda que tocara antes.

Para adicionar mais ansiedade à atmosfera já pesada, Moon e Townshend começaram a bater boca entre uma música e outra. No final apoteótico, enquanto se iniciava o ritual de destruição habitual, Moon chutou um chimbau que acertou as pernas do guitarrista. Irritado, Townshend rodou a guitarra no ar e, de propósito ou não, a cabeça de Moon foi atingida.

Bruce Johnston, que a tudo assistia da coxia, lembra: “Eu não sei o que detonou aquilo. Só me lembro de estar observando do lado do palco, e de repente eles começaram a maior briga que eu já vi. Guitarras rodando, todo mundo num frenesi”. Enquanto a cortina se abaixava diante de uma plateia atônita, uma voz em off veio da mesa de som: “Não se preocupem, isso tudo é parte do show”.