Cultura Pop
Aquele dia em que Jimi Hendrix fez a BBC arrancar os cabelos

De 1967, quando surgiu, até 1970, quando morreu, Jimi Hendrix foi um astro pop.
Hoje parece estranho pensar nisso, mas o pop daquela época eram a psicodelia e o rock com guitarras altíssimas. Tanto que uma das estrelas da época, a cantora, atriz e apresentadora Lulu – do hit To sir with love – não pensou duas vezes antes de convidar o Jimi Hendrix Experience para participar de seu programa Happening With Lulu, na BBC.
Dizem que por causa dessa aparição no programa da Lulu, Jimi Hendrix ficou banido da BBC por um bom tempo. Não que a estação tenha tido algo contra a ida do guitarrista lá. E essa encrenca rolou apesar de Lulu e Jimi Hendrix parecerem habitar galáxias diferentes.
Vale citar que Lulu tinha relações com o lado (vá lá) mais brando da psicodelia. Naquela época, ela era namorada de um dos integrantes de uma banda promissora do pop pós-beatlemania: Maurice Gibb, dos Bee Gees. O casamento dos dois seria de parar o trânsito: rolaria naquele mesmo ano de 1969, com cobertura da mesma BBC. Durou até 1973, com Lulu reclamando que Maurice bebia demais e passava a maior parte do tempo fazendo farra com os amigos.
Pouco antes de Maurice, Lulu namorou Dave Jones, dos Monkees. A menina (adolescente na época) teve lá alguns laços de amizade com os Beatles – afinal, dividia camarins e palcos de programas de TV com eles. E, vejam só, teve ninguém menos que Jimmy Page como músico acompanhante em um de seus primeiros singles, Shout, de 1964. Em 1969, em meio ao casamento e a uma aparição no festival Eurovision, ela estava lançando o LP New routes, com Duane Allmann tocando guitarra em quatro faixas.
Não era tão maluco imaginar que ela e Jimi Hendrix se esbarrariam num local qualquer, mas a noite de 4 de janeiro de 1969, quando o Experience foi no programa dela, acabou sendo tensa pra todo mundo.
A produção exigiu que a banda tocasse o hit recente Voodoo child e o primeiro sucesso, Hey Joe. Antes do show, nos camarins, a banda ficou seca para fumar um baseado. Noel Redding, baixista do Experience, resolveu bater justamente na porta do amigo Maurice Gibb, que salvou o trio. Problema: o grupo ficou tão nervoso que deixou a pedrinha de maconha escapar pelo ralo da pia. O proativo Noel teve que ir atrás de um funcionário da emissora, dando a desculpa de que havia perdido um anel no lavabo. Deu certo.
O vídeo da aparição de Hendrix no show de Lulu é bastante engraçado, diga-se. A banda ataca com Voodoo child, e depois, Lulu apresenta a banda. Hendrix, sabe-se lá se intencionalmente, deixa escapar uma microfonia enquanto a apresentadora fala. Ela ri de nervoso e o clima certinho do programa é quebrado de cara.
Lulu avisa que Hendrix vai tocar Hey Joe (“onde é que você vai com essa arma aí na mão?”, tudo a ver com o programa de uma estrela teen), e depois disso, o programado era que a cantora subisse ao palco e cantasse… To Sir with love com os músicos. Não deu muito certo porque Hendrix, que já estava tocando Hey Joe entre risadas bem misteriosas, interrompeu o hit no meio e avisou que “vamos parar de tocar essa porcaria e dedicar uma música ao Cream”, citando nominalmente Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce.
Jimi, Noel Redding e Mitch Mitchell começam então uma versão instrumental e barulhenta de Sunshine of your love, que deixou os caciques da emissora bem putos – até porque os três estouraram o tempo em que cantariam com a apresentadora e não deu para fazer mais nada. Redding, em seu livro de memórias Are you experienced? The inside story of The Jimi Hendrix Experience, diz que só lembra do produtor Stanley Dorfman arrancando os cabelos, olhando o relógio e gritando para o trio. Seja como for (e tadinha da Lulu!), fica aí um dos vídeos mais memoráveis da banda.
Jimi Hendrix Experience at The Lulu Show from E7#9 on Vimeo.
Cultura Pop
R.E.M. recorda os 44 anos do primeiro contrato com uma gravadora

No dia 31 de maio de 1982, a gravadora I.R.S. enviava um press release avisando que havia assinado com o R.E.M., “uma banda de Athens, Georgia, aclamada pela crítica”. E já anunciava que no dia 26 de agosto sairia o EP Chronic town, com as faixas 1,000,000, Stumble, Wolves, lower, Gardening at night e Carnival of sorts (Boxcars). A foto de imprensa, em preto e branco, trazia Peter Buck (guitarra), Mike Mills (baixo), Bill Berry (bateria) e Michael Stipe (vocais) com visual pós-adolescente.
“O EP vai ser seguido por um álbum no ano que vem. O R.E.M. planeja fazer uma turnê pelo Oeste do país durante o verão, seguida pelos estados da Costa Leste e do Canadá durante o Outono”, avisava a gravadora, oferecendo também o contato da empresária Betsy Alexander, primeira pessoa a cuidar profissionalmente do grupo, ajudando em contatos, logística e gestão. O release só errava na ordem das músicas do EP, que possivelmente ainda não estava decidida (Chronic town também saiu dividido em duas partes, com lado A nomeado Chronic town e lado B com nome Poster torn)
O contrato era de longo prazo e previa cinco discos – ou seja, tudo que saiu do grupo até Life’s rich pageant, o quarto álbum, de 1986. Depois disso, o grupo renegociou e lançou o quinto disco, Document, de 1987 – mas acabou migrando para a Warner e terminando o contrato com a coletânea Eponymous (1988).
A I.R.S. tinha sido criada em 1979 por Miles Copeland III, irmão de Stewart Copeland, baterista do The Police. O selo vinha da cena punk/new wave britânica e funcionava como uma espécie de ponte entre o underground e uma estrutura profissional de distribuição via A&M (a gravadora do Police, por acaso).
Na época em que o R.E.M. assinou, a I.R.S. já tinha grupos como Wall of Voodoo, Oingo Boingo, The Go-Go’s e The English Beat. Era um selo muito ligado a college radio, pós-punk, new wave e à ideia de independência artística. Depois, virou praticamente sinônimo do rock universitário americano dos anos 1980 por causa do próprio R.E.M.
A entrada da banda na gravadora aconteceu muito por conexões da cena. O empresário/agente Ian Copeland, irmão de Miles e Stewart, já acompanhava o grupo desde os primeiros shows em Athens. O baterista Bill Berry tinha trabalhado para Ian em Macon como roadie e serviços-gerais, e mantinha contato com ele. Isso ajudou o R.E.M. a conseguir shows de abertura para bandas maiores, como The Police e Gang of Four, até chamar atenção da I.R.S.
E olha o post comemorativo do R.E.M. aí.
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Cultura Pop
George Harrison em 2001: “O que é Eminem?”

RESUMO: Em 2001, George Harrison participou de chats no Yahoo e MSN para divulgar All Things Must Pass; com humor, respondeu fãs poucos meses antes de morrer – e desdenhou Eminem (rs)
Texto: Ricardo Schott – Foto: Reprodução YouTube
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“Que Deus abençoe a todos vocês. Não se esqueçam de fazer suas orações esta noite. Sejam boas almas. Muito amor! George!”. Essa recomendação foi feita por ninguém menos que o beatle George Harrison no dia 15 de fevereiro de 2001 – há 25 anos e alguns dias, portanto – ao participar de dois emocionantes chats (pelo Yahoo e pelo MSN).
O tal bate-papo, além de hoje em dia ser importante pelos motivos mais tristes (George morreria naquele mesmo ano, em 29 de novembro), foi uma raridade causada pelo relançamento remasterizado de seu álbum triplo All things must pass (1970), em janeiro de 2001. George estava cuidando pessoalmente da remasterização de todo seu catálogo e o disco, com capa colorida e fotos reimaginadas, além de um kit de imprensa eletrônico (novidade na época), era o carro-chefe de toda a história. O lançamento de um site do cantor, o allthingsmustpass.com, também era a parada do momento (hoje o endereço aponta para o georgeharrison.com).
Os dois bate-papos tiveram momentos, digamos assim, inesquecíveis. No do Yahoo, George fez questão de dizer que era sua primeira vez num computador: “Sou praticamente analfabeto 🙂 “, escreveu, com emoji e tudo. Ainda assim, um fã meio distraído quis saber se ele surfava muito na internet. “Não, eu nunca surfo. Não tenho a senha”, disse o paciente beatle. Um fã mais brincalhão quis saber das influências dos Rutles, banda-paródia dos Beatles que teve apoio do próprio Harrison, no som dele (“tirei todas as minhas influências deles!”) e outro perguntou sobre a indicação de Bob Dylan ao Oscar (sua Things have changed fazia parte da trilha de Garotos incríveis, de Curtis Hanson). “Acho que ele deveria ganhar TODOS os Oscars, todos os Tonys, todos os Grammys”, exultou.
A conta do Instagram @diariobeatle deu uma resumida no chat do Yahoo e lembrou que George contou sobre a origem dos gnomos da capa de All things must pass, além de associá-los a um certo quarteto de Liverpool. “Originalmente, quando tiramos a foto eu tinha esses gnomos bávaros antigos, que eu pensei em colocar ali tipo… John, Paul, George e Ringo”, disse. “Gnomos são muito populares na Europa. E esses gnomos foram feitos por volta de 1860”.
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A ironia estava em alta: George tambem disse que se começasse um movimento como o Live Aid ajudaria… Bob Geldof (!)., o criador do evento. Perguntado sobre se Paul McCartney ainda o irritava, contemporizou: “Não examine um amigo com uma lupa microscópica: você conhece seus defeitos. Então deixe suas fraquezas passarem. Provérbio vitoriano antigo”, disse. “Tenho certeza de que há coisas suficientes em mim que o irritam, mas acho que já crescemos o suficiente para perceber que nós dois somos muito fofos!”. Um / uma fã perguntou sobre o que ele achava da nominação de Eminem para o Grammy. “O que é Eminem?”, perguntou. “É uma marca de chocolates ou algo assim?”.
Bom, no papo do MSN um fã abusou da ingenuidade e perguntou se o próprio George era o webmaster de si próprio. “Eu não sou técnico. Mas conversei com o pessoal da Radical Media. Eles vieram à minha casa e instalaram os computadores. Os técnicos fizeram tudo e eu fiquei pensando em ideias. Eu não tinha noção do que era um site e ainda não entendo o conceito. Eu queria ver pessoas pequenas se cutucando com gravetos, tipo no Monty Python”, disse.
Pra ler tudo e matar as saudades do beatle (cuja saída de cena também faz 25 anos em 2026), só ir aqui.
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Cultura Pop
No nosso podcast, os erros e acertos dos Foo Fighters

Você pensava que o Pop Fantasma Documento, nosso podcast, não ia mais voltar? Olha ele aqui de novo, por três edições especiais no fim de 2025 – e ano que vem estamos de volta de vez. No terceiro e último episódio, o papo é o começo dos Foo Fighters, e o pedaço de história que vai de Foo Fighters (1995, o primeiro disco) até There’s nothing left to lose (o terceirão, de 1999), esticando um pouco até a chegada de Dave Grohl e seus cometas no ano 2000.
Uma história e tanto: você vai conferir a metamorfose de Grohl – de baterista do Nirvana a rockstar e líder de banda -, o entra e sai de integrantes, os grandes acertos e as monumentais cagadas cometidas por uma das maiores bandas da história do rock. Bora conferir mais essa?
Edição, roteiro, narração, pesquisa: Ricardo Schott. Identidade visual: Aline Haluch (foto: encarte do álbum Foo Fighters). Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Vinheta de abertura: Renato Vilarouca. Estamos aqui de quinze em quinze dias, às sextas! Apoie a gente em apoia.se/popfantasma.
(a parte do FF no ano 2000 foi feita com base na pesquisa feita pelo jornalista Renan Guerra, e publicada originalmente por ele neste link)
Ouça a gente preferencialmente no Castbox. Mas estamos também no Mixcloud, no Deezer e no Spotify.
Mais Pop Fantasma Documento aqui.








































