Crítica
Ouvimos: Giant – “Beneath the mountains”

RESENHA: Giant, vindo da Austrália, evoca Black Sabbath e Sleep no álbum Beneath the mountains: riffs longos, eco cavernoso, sujeira stoner e clima apocalíptico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Giant Doom
Lançamento: 7 de janeiro de 2026
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Essa banda australiana diz fazer seu som direto das “cavernas de Iommi” – referência (claro) a Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath. Em Beneath the mountains, seu segundo álbum, o Giant não esconde a paixão por Master of reality (1971), o terceiro disco do Black Sabbath. A riffolândia disparada pelo grupo, com vocais, guitarras, baixo e bateria perdidos em meio a um eco cavernoso, é herdeira direta de faixas como Lord of this world e Into the void.
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Na real, parece que o grupo estudou como esticar os riffs do Sabbath, e inseriu entre eles várias cláusulas de peso e sujeira sonora – por sinal, esse lado “sujo” do som deles parece herdado direto do clássico Dopesmoker (1995), da banda stoner norte-americana Sleep. Beneath the mountains tem cinco longas faixas, sendo que a maior é a última, The fated path, com dez minutos, riffs cozidos na deprê sonora, vibe stoner blues metal, clima de revolta total e final apocalíptico. A faixa-título abre com silêncio lado a lado com baixo e bateria – além de uma guitarra que vai surgindo devagar, e de um vocal gutural que solta palavras simples.
Echoes eternal e Lord misery, vindas direto do inferno, soam quase cerimoniais – a segunda inicialmente soando como uma valsa stoner, a segunda apresentando uma parte instrumental extensa. Já Gods of violence soa mais familiar para quem curte rock pesado dos anos 1990, lembrando o andamento de músicas do Alice In Chains e do Soundgarden, mas com a sujeira comum do Giant.
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Crítica
Ouvimos: Megadeth – “Megadeth” (2026)

RESENHA: Último – ao que consta – disco do Megadeth soa melancólico e repetitivo, com bons momentos isolados, clima amargo e um adeus mais preso ao passado que ao impacto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 5,5
Gravadora: Frontiers
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Nunca foi molezinha lidar com Dave Mustaine, vocalista e líder do Megadeth. Um conhecido que trabalhava numa revista cobriu uma coletiva do grupo no Brasil, e levou uns exemplares com a banda na capa para dar de presente a eles. Um dos integrantes (não me lembro mais qual, mas essa história é relativamente conhecida) pegou uma das revistas para ler, e permaneceu lendo quando a coletiva começou. Silêncio total logo que a primeira pergunta foi feita: Mustaine estava encarando firmemente o tal integrante, igualzinho à sua professora da quinta série quando ela queria que você percebesse sozinho que sua conversa ou bagunça atrapalhava a aula.
A tal história também acabou como uma bronca silenciosa e humilhante de quinta série: sem falar nada, Dave esticou o braço, o integrante lhe estendeu as revistas e ele confiscou todas, para garantir a ordem e a atenção no recinto. Fim. Em outra ocasião, ninguém menos que Kiko Loureiro, brasileiro que tocou guitarra alguns anos com o Megadeth, foi bastante sincero comigo quando lhe perguntei (numa entrevista que saiu no jornal O Dia em 2017, e que, não sei o motivo, está na internet assinada por outra jornalista) sobre como eram os papos internos sobre política na banda.
“Ano passado, teve o impeachment (da presidenta Dilma Rousseff) e eu contei um pouco para eles. Na época, estava tendo a eleição do Trump e os caras são totalmente american way of life, aquela coisa de ‘a América é o melhor lugar do mundo’. O (Dave) Ellefson (ex-baixista) é o cara que gosta de ouvir as opiniões mais abertas”, disse, afirmando também que “o Dave costuma dizer que o que sai da boca dele, ele nem sabe. É uma coisa de cara que foi criado na rua, de falar na hora. Às vezes, ele até pergunta se falou besteira, se estava tudo bem”.
Em resumo: você provavelmente não iria gostar de encarar Dave Mustaine numa briga – como músico da banda dele, prepare-se para andar na linha ou seja atropelado. Como fã, dependendo do seu posicionamento político, você se arrisca a escutar um chorrilho de besteiras de vez em quando, todas apontando para o conservadorismo ou para o mais deslavado negacionismo. Quando a música vale, todo mundo sai ganhando.
Agora corta para 2026 e para este Megadeth, alegadamente o último disco do grupo. Mustaine adiantou a despedida, ao que consta, por motivos de saúde: já venceu um câncer na garganta, mas enfrenta agora a artrite e a contratura de Dupuytren, enfermidade que faz com que os dedos se dobrem em direção à palma da mão. O problema é que nem sempre a música vence: o último disco do grupo norte-americano é uma despedida bem melancólica.
Talvez os fãs roxos do grupo deixem isso pra lá, ou discordem, mas Megadeth dá a impressão de ouvir a mesma faixa do começo ao fim, com poucas variações. Faixas como Tipping point, I don’t care e Let there be shred, repletas de palhetadas e vocais sujos, reforçam essa impressão e fazem todo mundo esquecer que, há vários anos, o Megadeth era o complemento “quase punk” do Metallica, banda da qual ele fez parte – hoje parece mais uma espécie de primo quieto de si próprio.
O que tem de bom em Megadeth surge em faixas como Hey god?!, Puppet parade, a melódica e bonita I am war, e a motörheadiana Made to kill – ainda assim, não é o melhor do grupo. Tem um aceno ao passado em The last note, que é a verdadeira despedida de Mustaine, e que faz lembrar momentos gloriosos da banda, com uma letra que (compreensivelmente) insere um pouco de drama na história: “agora são apenas memórias em minha mente / apenas luzes e nomes se apagando / se eu algum dia tocar novamente / que esta última nota jamais morra”.
E tem um momento de birra na versão de Ride the lightning, música do Metallica, ex-banda de Mustaine, e uma das canções do grupo para a qual ele contribuiu. Não é uma releitura memorável – na verdade soa mais como um pé na bunda jamais superado, e que ainda dói muito. Já nas letras, Mustaine mistura temas existenciais, versos de protesto e notas mentais de puro “anarquismo conservador”, como no foda-se geral de I don’t care e no irredentismo individualista de Puppet parade e Obey the call. No geral, uma despedida sem sal. E bem amarga.
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Crítica
Ouvimos: The Damned – “Not like everybody else”

RESENHA: Com uma de suas formações mais clássicas, o Damned lança Not like everybody else: tributo ao guitarrista Brian James, com covers 60s/70s e espírito punk-gótico intacto.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: earMUSIC / Edel
Lançamento: 23 de janeiro de 2026
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Desde 2024, a veterana banda punk The Damned está novamente com a formação que gravou os discos The black album (1980) e Strawberries (1982): Dave Vanian (voz), Captain Sensible (guitarra), Paul Gray (baixo) e Rat Scabies (bateria), acrescida de Monty Oxymoron, um cara que além de tocar teclados, trabalhou um bom tempo como enfermeiro psiquiátrico (tudo a ver com uma banda cujo repertório inclui clássicos da loucura punk como There’s no sanity clause e Stab your back).
Essa re-formação ainda não havia gravado discos novos, até que chegou a notícia da morte de Brian James, guitarrista que gravou os dois primeiros álbuns do Damned, e autor de nada menos que o primeiro hit do grupo, New rose. Brian, fã de pré-punk, de psicodelia e de sons dos anos 1960 em geral, morreu aos 74 em 6 de março de 2025. Not like everybody else talvez nem seja o retorno que os fãs aguardavam, já que não é um disco de inéditas. Mas é um manifesto afetivo feito pelo quinteto, já que, no disco, o Damned fez versões de dez das músicas preferidas do músico.
O Damned tem entre seus hits duas versões de hits da era de ouro da psicodelia: Alone against or, do Love, e White rabbit, do Jefferson Airplane, ambos transformados em canções próximas do gótico. O formato é conhecido da banda e de seu público, daí Not like everybody else, antes de tudo, é um disco seguro, do tipo “não tem como errar”. Não tem erro mesmo: o grupo volta lembrando a época de Machine gun etiquette (o terceiro disco, de 1979) nas versões de Summer in the city (Lovin’ Spoonful), Gimme danger (Iggy Pop & Stooges), See Emily play (Pink Floyd) e Making time (The Creation), e faz lembrar um Hoodoo Gurus do mal em There’s a ghost in my house (R. Dean Taylor).
O repertório destaca ainda o clima quase pré-britpop de I’m not like everybody else (Kinks) e o peso de When I was young (The Animals), aberta com algo parecido com a intro de Iron man (Black Sabbath) e encerrada com guitarras lembrando The Who. Além disso, fãs da banda vão curtir a aparição de Brian James nas guitarras de The last time (Rolling Stones), em versão gravada num show de reunião em 2022. Enquanto muita gente insiste até hoje no discurso de que o punk foi uma “ruptura”, bandas como o Damned provam que não era bem assim.
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Crítica
Ouvimos: Marinas Found – “Saudade”

RESENHA: Hardcore melódico de Pelotas, o Marinas Found usa Saudade para contrastar raízes e novos rumos, entre protesto, identidade, afeto e urgência punk.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Downstage
Lançamento: 20 de janeiro de 2026
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Vinda de Pelotas (RS), a banda de hardcore melódico Marinas Found tem aquela visão dúbia típica de gente que cresceu fora da capital. Ou seja: a cidade na qual você cresceu pode ter vários defeitos mas é a sua cidade. Você pode achar um porre as visões conservadoras de alguns moradores e de alguns políticos locais, além do bom e velho apego a padrões sem sentido – mas o coração bate mais forte quando você volta.
Vai daí que um dos temas preferidos do grupo no novo disco, Saudade, é uma espécie de contraste entre os novos caminhos e as perspectivas antigas. Rola no protesto anti-fascista de Eu fico puto, nos traumas de Rito, na autoafirmação de Sou assim (em que uma pessoa não é aceita pela própria família e se afasta dela) ou nos dramas urbanos de Cidades vizinhas, com participação de Rodrigo Lima (Dead Fish). O disco fala também de saudades da juventude em Pule o muro, e de morte e vida em Viva rápido (aberta com a frase “não há nada que uma pessoa livre pense menos que na morte”, e encerrada com a fala “viva rápido, permaneça livre, morra feliz”.
- Ouvimos: Besta Quadrada – Besta Quadrada
Esse discurso urgente cabe bem no som ágil e cheio de palhetadas do grupo, mas o Marinas Found insere várias visões de punk e emocore em Saudade. O grupo dá clima de power pop a Perfume e Apenas um olhar, faz experimentações com teclados na intro Preliminares, e adota uma mescla de beat maquínico, baixo à frente (como no pós-punk) e guitarras em loop na faixa Mais um, menos um. Pule o muro une punk e teclados, e ganha cara pós-punk lá pelas tantas – e faixas como Sou assim mandam bala na rapidez do hardcore.
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