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Cultura Pop

E os 50 anos de Sonhos E Memórias, de Erasmo Carlos?

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E os 50 anos de Sonhos E Memórias, de Erasmo Carlos?

“O mundo estava mudando e eu, junto”, contou Erasmo Carlos essa semana no Instagram, lembrando daquele que é um de seus melhores discos, 1941-1972 – Sonhos e memórias (1972). Recentemente os fãs brasileiros da banda escocesa Belle & Sebastian tiveram a surpresa de ver o guitarrista de turnê do grupo, Dave McGowan, segurando uma cópia do LP numa foto tirada durante uma visitinha da banda a Londres. Não é a primeira vez que o nome do cantor carioca aparece linkado ao da banda, no entanto. Em 2015, durante uma vinda do grupo ao Brasil para uma apresentação no festival Popload, o baterista Richard Colburn já havia citado Erasmo como um dos artistas brasileiros que o B&S admirava.

Sonhos e memórias foi bastante citado nos últimos dias. Mas sua data comemorativa ainda vai demorar um pouco: notinhas publicadas em jornais na época de seu lançamento dão conta de que o segundo álbum do Tremendão pela Phonogram foi lançado só no finalzinho de novembro de 1972. Assim como aconteceu com outro clássico nacional de 1972, Clube da esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, Sonhos também foi adiantado por um single com material que já estaria no LP, mas que aparecia em versões diferentes. No caso, as versões de Mundo cão e Meu mar, lançadas em single lá pela metade do ano. A primeira faixa havia sido feita para o filme Os machões, de Reginaldo Faria, no qual Erasmo trabalhava (e cujo primeiro título, vetado, tinha sido Os bonecas, como aparece até no rótulo do compacto).

O disco de Erasmo abria com reminiscências da infância e adolescência na Tijuca (Largo da Segunda-Feira é a mais bela homenagem de um compositor carioca a um recanto do Rio), prosseguia no retropicalismo de Mané João, na recordação do rock das antigas de Bom dia, rock´n roll e seguia com “temas bem íntimos meus, amadurecido pela vida, registros existenciais, aditivados com meu momento hippie e família”, como diz.

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Casado havia poucos anos com Narinha, que aparece com Erasmo e o filho Gil Eduardo nas fotos internas, o cantor, junto com o parceiro Roberto Carlos, falava sobre novos tempos, vida em família, amizade (não por acaso, é seu primeiro disco em que todas as músicas são de Roberto e Erasmo). Os temas apareciam em faixas como Mundo cão, Meu mar, Grilos (com guitarra slide tocada pelo pioneiro das seis cordas Poly), Sorriso dela. Erasmo também voltava rapidamente ao passado para reler É proibido fumar como um hard rock à moda da Bolha e do Módulo Mil (cujo tecladista, Luiz Paulo Simas, tocou sintetizador nessa faixa).

Vida antiga, um samba-rock easy listening que é a melhor música do disco, impressiona pela beleza da melodia e pelos vocais – que estranhamente, lembram algo parecido com o coral de Starship trooper, do Yes. Por sinal, obedecendo a uma lei não-escrita daqueles tempos progressivos, Sonhos e memórias é uma espécie de disco conceitual sem conceito, trazendo entre as faixas discretos ruídos, trechos de filmes e vozes soltas do filho Gil Eduardo (o “o Natal tá chegando e eu quero dar uma porção de presente pra todo mundo!” antes de Vida antiga).

“Esse disco foi  a última saudade que eu tive”, disse Erasmo recentemente ao Pop Fantasma. “Eu tenho uma saudade muito grande da minha infância, da minha adolescência. Botei tudo nesse disco. Aí nunca mais tive saudade de nada (risos), porque eu vivo mesmo é do presente e do futuro”.

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Preciso urgentemente encontrar um amigo havia sido composta por Roberto e Erasmo para o disco O inimitável (1968), de Roberto, mas ficou de fora do álbum e foi substituída por Madrasta. Acabou indo parar no repertório dos Mutantes – a versão do grupo, com arranjo ligeiramente parecido com o de Shapes of things, dos Yardbirds, saiu no A divina comédia, de 1970. Erasmo encerrou Sonhos e memórias com a versão do coautor, que lembrava as músicas mais agitadas dos Byrds. E fez questão de lançá-la como documento de época, incluindo no final a voz de um locutor falando em inglês sobre a Guerra do Vietnã – ainda em curso naquele momento.

“Essa música foi feita com essa intenção, era aquela época da Guerra do Vietnã, e era a época da peça de teatro Hair, no mundo inteiro a música Aquarius estava estourada e era aquela coisa dos hippies, paz e amor. E a necessidade de uma amizade, de um ombro amigo, era muito grande”, contou Erasmo para a gente.

E chegou sua vez de descobrir um clássico da música pop brasileira. Ouça em alto volume.

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Cultura Pop

O 1967 dos Beatles no podcast do Pop Fantasma

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Da mesma forma que uma década muitas vezes não começa no ano em que ela se inicia (já havia um “anos 1990” encartado no fim da década anterior), as mudanças vividas pelos Beatles em 1967, ano do disco Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, começaram pelo menos uns dois anos antes.

Mas para todos os efeitos, foi há 55 anos que John, Paul, George e Ringo lançaram um dos discos mais desafiadores da história da cultura pop, tramaram sua volta ao cinema, fizeram duas aparições significativas na televisão (numa delas, lançaram um telefilme que deixou sensação de entalo nas gargantas de muitos fãs), realizaram montes de experiências de estúdio, perderam tragicamente seu empresário e começaram a dar passos rumo à independência. E, ah, graças a um certo composto químico de três letras, sintonizaram dimensões bem diferentes das que os pobres mortais estavam acostumados naquela época.

O último episódio da segunda temporada do Pop Fantasma Documento levanta os causos de uma das épocas mais movimentadas do dia a dia dos quatro de Liverpool. Aumente o volume, ligue-se e sintonize!

Nomes novos que recomendamos e que complementam o podcast: Turn Me On Dead Man, Trudy and The Romance, Dario Julio & Os Franciscanos.

Estamos no Castbox, no Mixcloud, no Spotify, no Deezer e no Google Podcasts. 

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Edição, roteiro, narração: Ricardo Schott. Arte: Aline Haluch. Trilha sonora: Leandro Souto Maior. Estamos aqui toda sexta!

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Cultura Pop

Devo: no YouTube, tem versão “rascunho” do filme The Men Who Make The Music

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Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music

Raridade por vários anos para muitos fãs do Devo, o filme The men who make the music (1981), realizado pela banda, foi lançado sob o rótulo maluco de “vídeo-LP”. A produção combina imagens de shows do Devo (focando bastante na turnê de 1978) com textos irônicos sobre a indústria da música, além de aparições do controverso personagem General Boy (interpretado por Robert Mothersbaugh Sr, pai dos irmãos Mark e Bob).

Devo: no YouTube, tem versão "rascunho" do filme The Men Who Make The Music

O tal conteúdo “anarquista” do vídeo fez com que ele ficasse arquivado por uns dois anos, já que The men who make the music foi terminado em 1979. O lançamento deveria ter acontecido em paralelo com o disco Duty now for the future, tanto que o LP original anuncia um endereço para os fãs comprarem um produto chamado Devo-vision, que sairia pela Time-Life (empresa responsável por arquivar o filme por dois anos, irritada com as mensagens anti-indústria da música do vídeo).

O material ainda aparece intercalado com imagens bem antigas do Devo. O grupo aparece tocando Jocko homo em 1976, em imagens do primeiro curta do Devo, The truth about de-evolution – que também incluía o clipe do grupo em 1974 tocando Secret agent man, igualmente incluído em The men. Nessa época, o Devo tinha uma formação bastante variável. Com pelo menos cinco ou seis músicos gravitando em volta (incluídos aí três irmãos Mothersbaugh), a banda virou quarteto no clipe de Secret agent man.

The men who make the music, por sinal, teve ainda uma versão demo, feita com produção amadora, em 1977. Tá no YouTube. Foi dirigida por Jerry Casale e produzido por Marina Yakubic, que era namorada de Mark na época.

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O vídeo (sim, é vídeo, produzido com câmeras de TV) tem diferenças nos diálogos, nos cenários, na qualidade de som e de imagem (bastante rascunhadas) e no fato de que as músicas não aparecem em clipes. Todas são gravadas em versões extremamente cruas, ao vivo num palco.

Uma surpresa para os fãs é que, originalmente, a versão do grupo para (I can’t get no) Satisfaction, dos Rolling Stones, era quase um blues maníaco e lembrava Captain Beefheart. Muito diferente do que se imagina do Devo.

Aproveita e pega The men who make the music, a versão oficial, que também tá no YouTube.

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Cultura Pop

The Lost Sheep: um single (da Virgin, de 1979) com ovelhas soltando a voz

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The Lost Sheep: um single (da Virgin, de 1979) com ovelhas soltando a voz

Você provavelmente não conhece Adrian Munsey. Dono de uma carreira de sucesso como produtor de TV, o britânico trabalhou em canais como BBC Worldwide, ITV, Universal, e dirigiu dois longas, além de uns 45 documentários. Também tem uma extensa carreira como produtor musical e dono de gravadora. A vida dele tá aqui.

Agora, um detalhe que garantiu bastante popularidade a ele no fim dos anos 1970 foi ter aderido à mania sempre em alta dos novelty records – discos feitos para vender por uns tempos, com piadas ou assuntos da moda. Em 1979, ele soltou o single The lost sheep, creditado a “Adrian Munsey, ovelha, sopros e orquestra”. Essa pérola aí.

Lançado pela Virgin, o single trazia, segundo o site World’s Worst Records, ” uma fatia medíocre de monotonia sub-clássica que apresenta um cordeiro balindo enquanto uma pequena orquestra – repleta de baixista e baterista – toca a música mais sentimental que você já ouviu”.

Se você já acha pitoresco escutar isso em áudio, olha aí o próprio Munsey tocando a peça ao vivo no Russel Harty Show, na London Weekend Television. Munsey levou para o palco uma ovelha (“é uma fêmea”, esclarece) e a mãe do animal – além da orquestra, para tocar ao vivo. Só que o bichinho ficou meio amedrontado e não “cantou” nada. Sobrou para Munsey fazer o “béééé” ao vivo. A plateia ri, os músicos de orquestra não movem um músculo das faces.

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Russel fica indisfarçavelmente de boca aberta ao ouvir  Munsey contar como foi que surgiu a ideia de fazer música com ovelhas. Ele fez uma viagem e passou por um anfiteatro que estava cheio delas, balindo. “Acho que as pessoas às vezes se sentem como ovelhas perdidas um dia”, contou, já anunciando que sairia um single em ritmo de discoteca. Saiu sim: C’est sheep, lançado também em 1979, e produzido por Ron e Russell Mael, os dois irmãos da banda Sparks. Essa música, mais tarde, foi incluída na compilação da Virgin Methods of dance.

Ah sim, tinha o lado B de The lost sheep. Era Echoing spaces, essa maravilha pós-prog relaxante aí.

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Um detalhe bem louco a respeito de C’est sheep, o tal single disco de Munsey, é que ele foi detonado por um colega de gravadora do cantor. John Lydon, já cantando à frente do Public Image Ltd, foi participar do Juke box jury da BBC, programa no qual uma turma de jurados comentava lançamentos recentes. A canção, cheia de balidos com beats dançantes, foi apresentada e provocou verdadeira aflição nos convidados, que precisaram dar suas opiniões na frente do próprio Munsey (!), mais perdido que cebola em salada de frutas. Lydon diz que a música é “a Virgin Records  tentando faturar uns trocados e falhando miseravelmente”.

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