Se você chegar para qualquer fã de rock que seja ligado em música eletrônica e perguntar quem foi mais influente, se os Beatles ou o Kraftwerk, pode apostar que ele vai dar aquela belíssima pensada antes de responder. E se bobear vai cravar os alemães, que lançaram bases para todo e qualquer tipo de música que veio depois deles. Você acha referências dos autores de Autobahn no punk, no metal, no reggae, em sons eletrônicos, MPB, trilhas de TV. Até em trilhas de novela.

Na verdade não é tão fácil comparar a influência dos dois, mas o Kraftwerk provocou uma revolução da qual é impossível escapar. Seja em pesquisa de sons, ou composição, ou engenharia de gravação, a música de hoje vem de um sonho desse grupo alemão.

Ficou com dúvidas? Bom, tem um filme que jogaram no YouTube e pode te esclarecer em algumas coisas. Kraftwerk and the Electronic Revolution, documentário biográfico não-autorizado, dirigido por Rob Johnstone em 2008, tá lá em várias partes, com legendas em inglês. Traz entrevistas com quase todo mundo que interessa do kraut rock, o experimental rock alemão dos anos 1970. Karl Bartos e Klaus Röder, ex-integrantes do Kraftwerk – que hoje é tocado adiante apenas pelo sisudo Ralf Hutter – também dão seu alô no filme. Que abre com um Kraftwerk cabeludíssimo e hippie, tocando teclados e flautas. E abre a análise dos sons alemães explicando que o principal é que se tratava de artistas que, independentemente do que viesse, queriam criar um som que ninguém mais fazia.

Se você não está acostumado com o kraut rock, ele é um estilo que pode ser tão emocional quanto o rock dos anos 1950 e 1960 – que era influência dessa turma, também. Mas sem deixar de lado a sisudez e uma certa frieza. O estilo era aparentado do progressivo e do heavy metal, mas chegou próximo do pré-punk e da darkwave em vários momentos. Formado por uma dissidência do Kraftwerk, o Neu! era uma dessas bandas. Entre sintetizadores e sons malucões, os caras arrumaram tempo para se envolver com pré-punk (em After eight, de seu disco Neu 75, de 1975). E acabaram virando influência de grupos como Public Image Ltd. e Ultravox. Uma das maiores pérolas deles é a gélida Hallogallo.

Até mesmo os Scorpions, quem diria, arrumaram motivos para viver em torno da solidão do krautrock. Mas isso foi no primeiro disco da banda, Lonesome crow, de 1972, o único gravado com Michael Schenker na guitarra – e lançado pela meca dessa galera, o selo Brain. Tente achar aí algo parecido com Still loving you e Wind of changes e perca seu tempo.

O documentário vai seguindo até encontrar Africa Bambaataa, que adora o Kraftwerk – e sampleou músicas do grupo em seu hit Planet rock – e a turma do synthpop dos anos 1980. E localiza as raízes de tudo no próprio desenvolvimento do país no pós-guerra, com uma juventude cada vez mais interessada nas culturas inglesa e americana, e cada vez mais desconfiada dos “velhos” que elegeram Hitler. Tire um tempinho do recesso de fim de ano e veja tudo.