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Livros

Um livro que explica como os animais peidam

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Um livro que explica como os animais peidam

Se o que você queria era um livro explicando sobre como os animais peidam, seus problemas acabaram. Does it fart? – The definitive field guild to animal flatulence tá à venda, lista vários animais e fala sobre a digestão de cada um deles. Os autores são Daniella Rabaiotti e Nick Caruso. Daniella bateu um papo com o Gizmodo e revelou que já faz planos para um próximo livro, que pode falar de cocô de animais.

Dani inclusive lembrou ao site que tudo começou com um tweet (esse aí de cima). E que tudo o que tem no livro parte de conhecimento científico. “Há muita coisa que não sabemos sobre peidos de animais, e isso significa muito que não sabemos sobre a digestão deles”, disse Daniella, que é doutoranda da University College London e da Zoological Society of London. “Espero que seja uma maneira alegre de aprender um monte de coisas legais que você pode não saber sobre os animais”.

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Se ao ouvir “como os animais peidam” você está pensando naquele seu cachorro que solta puns em surround, todos fedorentos, a pesquisa da dupla foi digamos, um pouco além. Pelo livro de Dani e Nick, você fica sabendo que um dos animais mais peidorrentos do mundo é a baleia-azul. Animais dos quais você sequer está lembrando, como os pepinos-do-mar, não peidam. E até um simples gongolinho solta peidinhos – bem fracos.

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Livros

A Luz de Aisha: livro infantil sobre filosofia africana está em crowdfunding

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A Luz de Aisha: livro infantil sobre filosofia africana está em crowdfunding

Marcando a chegada da editora Rebuliço ao mercado, o livro A luz de Aisha, das autoras Luana Rodrigues e Aza Njeri, com ilustrações de Gabriel Ben, conta a história de Aisha, uma garota negra que busca superar a dor a partir das histórias de seus ancestrais. A produção está sendo financiada por meio de um crowdfunding disponível na plataforma Catarse, que fica online até o dia 16 de outubro.

Luana é mestre em letras, professora e percussionista do grupo de samba Moça Prosa. Aza é professora doutora em Literaturas Africanas, e pós-doutora em Filosofia Africana. O livro é inspirado na filosofia kindezi, do povo bantu, que explica que cada pessoa nasce com um sol interno, e tem como uma da bases a frase “eu sou porque nós somos” – que diz respeito à não aceitação das desigualdades, ao ajudar o sol do outro a brilhar.

Na história, Aisha, que sofre a ausência de um familiar, aprende com sua avó Catarina que não podia deixar o seu Sol se apagar de forma alguma. Esse ensinamento deu forças à Aisha para colocar em prática um plano com o objetivo de trazer não só o seu sol de volta, mas também o sol de cada um de sua família..

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No prefácio do livro, a artista e arte-educadora Veronica Bonfim ressalta que A luz de Aisha “assopra vida na população afrodescendente, cuja maioria das crianças não consegue chegar à adolescência, porque tem suas vidas, famílias e sonhos interrompidos por um genocídio negro em curso há séculos”.

A proposta da Rebuliço, cuja diretoria é formada por quatro mulheres, é publicar obras que possam provocar questionamentos, reinventar atitudes, movimentar consciências em prol da empatia, da justiça social, do respeito às diferenças e da constante (re) construção das subjetividades.

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Cultura Pop

Novo livro analisa o personagem Renato Russo

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Ainda há muito (e sempre haverá) o que escrever sobre Renato Russo. Ainda mais em 2021, nos 25 anos de sua morte, quando constata-se que letras como Que país é este, Será e Geração Coca-Cola não perderam a atualidade. Julliany Mucury, mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB), hoje morando em Berlim, foi fundo não apenas na análise da produção do líder da Legião Urbana, como também na observação de que o artista Renato Russo era uma entidade que foi criada por Renato Manfredini Jr, seu nome verdadeiro. Daí surgiu o livro Renato, o Russo, que sai em breve pela editora Garota FM Books (da escritora e biógrafa Chris Fuscaldo). E está em campanha de financiamento coletivo pela plataforma Catarse.

Renato, o Russo leva novas descobertas aos fãs da Legião Urbana. A principal: “Renato Russo” não era apenas um nome artístico, como Ringo Starr (Richard Starkey Jr), Fernanda Montenegro (Arlette Pinheiro Monteiro Torres) ou Tony Bennett (Anthony Benedetto). Era um personagem, com personalidade, modo de se vestir, de pensar e estilo de vida próprios. E que encobria e encorajava o tímido Renato Manfredini Jr. Mais uma descoberta: Renato, assim como David Bowie, fez do fim da vida uma obra de arte. O britânico fez isso no desnorteante Blackstar, o brasileiro o fez no desesperadamente triste A tempestade, último disco da Legião lançado com ele em vida. Mas o livro parte de uma pergunta: afinal, Renato Russo era um letrista ou um poeta?

Mesmo que o próprio Renato tenha falado em alto e bom som num show no Jockey Club, na Gávea (Rio) em 1990 que era letrista, e não poeta, o questionamento é muito válido: Renato era leitor compulsivo, era autor de versos bastante originais e compunha letras de uma erudição difícil de ser achada em música popular. Julliany estudou todo o material de Renato e fez leitura crítica de 29 letras escritas por ele. E prefere se referir a Renato como um cancionista, termo do músico e linguista Luiz Tatit que indica uma espécie de malabarista, que se equilibra entre letra e melodia.

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Batemos um papo com Julliany e ela revelou o que foi possível revelar (não vamos estragar as surpresas!) sobre Renato, o Russo.

Afinal, como surgiu essa discussão sobre se Renato Russo era poeta ou letrista? Foi numa mesa do CCBB de Brasília, como diz o livro, mas como se deu isso?

Bom, em primeiro lugar, a gente tem um problema técnico com esse nome “poeta”. Eu estudo literatura brasileira, daí você pega e vai trabalhar canção dentro da literatura brasileira.  Já quebra um certo padrão aí, né? E para a academia considerar a gente nomear um cancionista de poeta… É como se a gente estivesse invadindo fronteiras, sabe? Aquela coisa do espaço do sagrado. E eu achei uma provocação interessante nessa mesa, onde estava o Vladimir Carvalho, o Nicolas Behr – que é um poeta de Brasília – e a minha orientadora,  Sylvia Helena Cyntrão.

Nós captamos essa pergunta como uma provocação e aquilo me incomodou bastante. Legião Urbana divide as pessoas, tem quem ame e tem quem odeie. Muita gente nem considera uma banda, fala: ‘Pô, os caras não tocam nada!’.  E eu pensava: ‘Mas ninguém olha a letra? Mais de cem letras escritas com participação do Renato, mais de 29 letras escritas exclusivamente por ele. Vamos ver a densidade disso?’ Essa pergunta, eu quero responder de um jeito sério, quero analisar tudo, não vou dizer por dizer.

Muitas pessoas já afirmavam que ele é poeta, Arthur Dapieve, Carlos Marcelo. Não queria me fiar pelo que os biógrafos diziam, queria eu ter minhas certezas. Foi isso que minha tese me deu. O livro sai com 200 páginas, mas mais de 160 páginas da tese original foram limadas. Aproveitamos para o livro a parte em que eu realmente falo da pergunta. O Carlos Eduardo Lima (editor do site Célula Pop, historiador e jornalista) mexeu no livro comigo e ajudou a tirar o texto da rigidez acadêmica, tornou o texto algo maleável e gostoso de ler. Reconstituímos o cenário de Brasília na época, para quem não conhecia. O eixo Rio-São Paulo era muito diferente, os punks de São Paulo eram até muito mais punks que os de Brasília.

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Eu terminei o texto muito convicta de que há sim qualidade estética no que o Renato produziu. Ele era muito sério e comprometido com a produção dele. Então por que chamamos Renato de cancionista? Cancionista é um termo do Luiz Tatit. E o Renato é um cara que, desde a melodia, até a melodia inserida na palavra, é uma letra de canção que você lê isoladamente e ela conta uma história. Tem uma densidade própria ali. Tanto que virou roteiro de filme. Já foi adaptado duas vezes pelo René Sampaio, teve o Faroeste caboclo e agora o Eduardo & Mônica.

Julliany Mucury

O Renato até via essa coisa do poeta com certa humildade. No show do Jockey Clube, no Rio, ele chega a dizer que “algumas pessoas dizem que eu sou poeta”. Mas por outro lado, em entrevistas, ele dizia que não se considerava um bom letrista, que seu forte era encaixar a letra na música…

Eu acho que isso faz parte dessa construção de personagem, do personagem Renato Russo. Quando a gente coloca o Renato numa construção de panorama, ele negar por si só que é letrista… E quando ele faz o show do Jockey em homenagem ao Cazuza ele diferencia: “Ele é poeta, eu sou letrista”. Nas entrevistas, quando ele era provocado a respeito das letras, ele dizia: “Eu sou só letrista. Poesia eu escrevo mas tá guardada lá em casa”. Na exposição do Museu da Imagem e do Som, a gente viu que até soneto ele escreveu. O Renato tem muita coisa escrita e é um acervo que a gente ainda não teve acesso.

Quem gosta de Legião tem que começar com a biografia escrita pelo Carlos Marcelo, porque ele conta quem foi Renato Manfredini Junior. Quem foi o Junior, da Dona Carmen, aquele menino genial, que ficou paralisado na cama e escreveu o livro The 42nd street band, que depois foi publicado. As pessoas têm que ler em seguida para entender que o Renato traça uma banda imaginária, e que essa banda tem um vocalista chamado Eric Russell. O Eric Russell é o Renato Russo (enfatiza o “é”).

Fernando Pessoa que fazia isso, construía heterônomos, criava poetas reais que escreviam poemas. Renato Russo é quase um heterônomo do Renato Manfredini Jr. O Dapieve fala que o Renato inicialmente falava que era quatro anos mais velho, para parecer mais maduro e ser respeitado. Eles eram muito novinhos, o Renato compõe Faroeste caboclo com 19 anos. Imagina, o que a gente estava fazendo aos 19 anos? Ele dizia que estava compondo a Hurricane dele (canção do Bob Dylan). E ele senta e escreve uma letra daquelas, com aquela intensidade do João de Santo Cristo.

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Tem muita coisa ali, não é só a história de um anti-herói que termina assassinado em praça pública. Ele conta toda a dor de uma nação envolvida ali. Isso depois ele estende para Perfeição, para Fábrica, para Que país é este. Ele sabia muito bem o que estava fazendo e tinha muito apuro quando escrevia. Mas não queria assumir, queria brincar com a fronteira das coisas. “Eu gosto de meninos e meninas”, “eu não sou poeta”. E onde é que está o Renato real nessa história toda?

As pessoas parece que têm uma certa raiva da Legião, por serem uma banda que tem um esquema musical bem simples… E hoje há até uma certa pressa em decretar o fim do rock, que o rock acabou, etc. 

A raiva é justamente porque não conseguem ofuscar. E aí você tem que detonar. Agora imagina: uma banda de adolescentes em que eles convidam o Dado, que não sabia nem tocar. Eles eram punk rock, mas era punk rock de butique. Eles tinham acesso aos discos que vinham da Inglaterra, as bandas que os influenciaram, The Smiths. Essa galera que eles eram influenciados diretamente, o que eles não negam. O Legião Urbana V era o Pornography do The Cure, na cabeça do Renato. Era uma reimpressão de muita coisa que vinha de fora, mas isso era intencional. A Legião se lançou como uma anti-banda de rock. Negaram o lugar do palco, o Renato quase não fez show. Para o que o público desejava e a gravadora pretendia… O Renato não era um galã como Paulo Ricardo mas o grupo tinha vendagens de 500 mil cópias, um milhão de cópias.

E há o preconceito com o rock´n roll, porque as batidas dos três primeiros álbuns eram pesadas. Era lixão mesmo, era ruído, metal estridente, era para incomodar. Não era um som para você ligar e deixar de música de fundo na sua casa, no elevador. Eles eram uma banda que pretendia fazer isso. Mas não eram como os outros. O Clemente (Inocentes) comenta que quando a Legião vai para São Paulo, fala: “Cara, a gente não é punk, a gente não está nesse nível da galera”. Era coisa de gangue, era pesado.

Mas com essas altas vendagens, os poucos shows… O que você acha que atraía tanta gente para as letras do Renato?

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A genialidade dele. Muitas letras são creditadas ele, Dado e Bonfá, mas ele trabalhava a letra, ia para o estúdio, eles trocavam coisas. Existia uma troca muito boa, eles trabalhavam bem juntos em estúdio. Só que o Renato não gostava de plateia. Enquanto Dado e Bonfá estavam nas piscinas dos hotéis, jogando futebol com a galera, o Renato estava ficando verde dentro do quarto. Renato teve um sério problema com drogas, era muito introvertido, introvertido mesmo. A questão da homossexualidade era algo muito difícil para ele. O Carlos Trilha (produtor) contou numa entrevista do canal Alta Fidelidade que o Renato cantava as pessoas, era muito tímido mas tinha necessidade de entrar em contato. Ele até falava que ser homossexual no Brasil dos anos 1980, com a aids e com todo o cenário que a gente tinha, era complexo, por causa do preconceito e da pouca informação. Se temos hoje ainda, imagina há quarenta anos.

O Renato não gostava de shows, ele gostava muito de conversar com a plateia. E às vezes ele se excedia e o público tacava coisas no palco. Quantas vezes o Renato não deitou no chão, e fez o show com luzes apagadas? Ou cantou três, quatro cinco músicas e abandonou o palco? Até o momento em que ele falou: não quero mais, não vai rolar. De 1990 para a frente, os shows vão se escasseando e ficam para lugares como o Metropolitan, o Jockey Clube. Eram lugares que tinham uma estrutura maior, até o último show, que acontece em Santos (SP). Ele já estava debilitado fisicamente, vocalmente, já estava sob tratamento e pouquíssimas pessoas sabiam. Quem suspeitava de algo não falava nada. Ele não tinha mais condições, mas queria produzir.

É até essa tristeza que eu falo no livro. A mente e o espírito dele iam aonde o corpo não estava conseguindo mais. O disco A tempestade não é doloroso só por causa do conteúdo, do que ele está escrevendo, do que ele canta, mas é doloroso por causa de como ele canta. Para a gente, que conhece a potência vocal do Renato… Você percebe claramente que tem alguma coisa ali.

O Renato compunha para quem? Existia um tipo de fã de Legião, ou do trabalho dele, que surgia na mente dele na hora de compor?

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Ele compunha a partir dele mesmo.  Mas ele tinha uma visão muito cosmopolita. A minha experiência com Renato Russo, no meu lugar de feminino hetero, fez sentido para mim. O que o Renato acessa é esse lugar nosso, do sujeito humano. As dores são nossas.  Os sofrimentos são nossos. Em discos como V e Descobrimento do Brasil, em que ele já está migrando para uma análise da existência, ele fala muito da dor de existir, dos relacionamentos amorosos. Ele fala disso com muita delicadeza, não é uma música de dor de cotovelo rasgada e caipira. Mas é uma música que fala sobre como seguir adiante, sobre como se levantar, sempre esperançoso, sempre olhando para a frente, como no verso “mas é claro que o sol vai brilhar amanhã”.

Ele tem essas repetições, usa textos bíblicos, Camões, sabia trabalhar o inconsciente coletivo. Era um cara muito antenado, não só no tempo dele, porque quando ele escreve Que país é este é uma canção imortal. Quando a gente escuta Perfeição, aquela ironia, aquele sarcasmo, a gente sabe que aquilo é nosso. Ele acessa esse lugar de antena da raça. Ele, Cazuza, Freddie Mercury, Raul Seixas… Um grupo de artistas que estava à frente daquilo. Fico imaginando eles coexistindo com as pessoas da geração deles, eles à frente de todo mundo. O que será que se passava dentro dessas mentes? Qual o sentimento de mundo que eles tinham? A Nina Simone fala no documentário dela, o What happened, Mrs. Simone: “Um artista tem que falar do seu tempo”. A genialidade do Renato mora na percepção que ele teve ao compor as letras.

Eu nunca tinha percebido que o Renato Russo fez da morte dele uma obra de arte, meio como David Bowie fez em Blackstar. Como foi para você perceber isso?

Eu chamo isso no livro de arquitetônica da despedida. Ele sabia. Ele já não conseguia ir para o estúdio. O Dado produziu o Tempestade sozinho, o Trilha entrou para salvar a pátria, porque o Renato fazia um take e acabou.  Mas o que tinha dentro desse sujeito, a percepção, o entendimento da finitude… Eu acho ainda mais grandioso. O Tempestade anuncia uma ruptura, ele é lançado e logo depois o Renato morre. Depois vem o Uma outra estação, que é um disco que as pessoas acham até melhor, mas que é um mix de um monte de coisas que o Renato rejeitou.

O Uma outra estação, apesar de ter Clarisse, que é bem depressiva, é um disco bem mais alegre, por sinal.

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Por aí você vê que ele sabia o que ele estava fazendo, porque o que ele vetou não entrou no A tempestade. Ele queria uma carta de despedida. Ele queria um conjunto de letras que dissessem aquela mensagem. Ele pensou em tudo. E outra: ele terminar a vida recluso, fechado no apartamento, com o pai. Uma das raras cenas que descrevem o estado físico do Renato nessa época está na biografia do Dado Villa-Lobos (Apenas um legionário, escrita ao lado de Felipe Demier e Romulo Mattos), quando o Dado conta a chegada dele no apartamento do Renato. Ele fala: “Meu deus, o Renato era um fiapo!”. A gente não viu isso, o Renato foi cremado, está no jardim do sítio do Burle Marx e acabou. Eu acho bem interessante isso de você pensar numa despedida, num legado.

No programa do Serginho Groisman ele até falou: “Gente, eu não sou um messias”, “eu não quero educar vocês!”. Mas ele parava o show para pregar para os jovens. Ele sabia que ele tinha um apelo muito grande para a juventude. Imagina, uma juventude saindo da ditadura militar, carente de referências positivas e heroicas… Se você for pegar todas as bandas, quem que fazia pregações nos shows? Renato Russo.

Lá fora, nas páginas da Wikipedia dedicadas a artistas, costumeiramente há um item inteiro só para falar dos legados deles, do que eles deixam para a arte, para nomes novos. É algo que não se faz muito aqui no Brasil, nas páginas de artistas nacionais. Como você vê o legado do Renato? O que ele deixou para novos artistas?

(nota: a página de Renato na Wikipedia não tem este item)

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Eu gosto muito de uma fala do Dinho, do Capital Inicial, quando perguntam para ele, numa das homenagens dos 20 anos da morte do Renato, sobre o que foi o legado do Renato. E ele fala: “Cara, todo mundo olhava pro Renato”. Todo mundo daquela geração olhava para o Renato, ele era diferente de tudo que estava acontecendo. Não era igual a Paralamas do Sucesso, não era igual a Capital Inicial, nem a Biquíni Cavadão.

Nem quando começam a surgir as outras bandas, como Racionais MCs, Raimundos… O Renato permanecia naquele lugar de dândi, carregava um certo mistério. Quando ele ia se apresentar e começava aquela dancinha Morrissey, completamente maluca e catártica. Era aquilo, ele era muito errático porque  não tinha compromisso com posar em nada. As falas dele saíam do jeito que saíam e era puro Renato Russo. Quando ele estava à vontade afinava a voz, quando queria vestir o personagem era outra entonação. E aí você vai percebendo essas nuances do Renato.

O grande legado dele foi a consciência artística, eu acho. Ele teve isso acima de muitos outros. Também a noção de mercado que o Renato tinha, que era enorme. Os álbuns da Legião continuaram sendo produzidos com uma demanda de fábrica. Os três primeiros eram com material que eles já tinham. A partir do quarto eles precisavam produzir coisas. Ele tá passando no estúdio, o pessoal do 14 Bis tá fazendo uma música, ele gosta da melodia e põe uma letra. Ele faz a mesma coisa com a Marisa Monte, em Soul parsifal, que vira Celeste. É a experiência de viver seu tempo, contar seu tempo do jeito que ele contou. E depois conduzir sua carreira até o fim do jeito que você quer fazer. Isso para mim é o maior legado do Renato. E ele conseguiu. Ele se negava a fazer coisas. E o estúdio negava coisas a ele, ele queria álbuns duplos para o Dois e o A tempestade e não conseguiu.

Como você foi reunindo as letras que analisa no livro?

Peguei todas que estão nos encartes e mais algumas que são inéditas. E algumas que não foram musicadas. Falo dela na análise mas não analiso junto com as 29 que analisei. Fui descobrindo que o Paraná (Kadu Lambach, guitarrista da Legião durante curto período antes da fama do grupo) tinha duas letras e musicou as duas, e que uma banda, Urban Legion, estava musicando outras duas letras do Renato. Do quarto disco em diante as letras começam a ser todas divididas entre Dado, Bonfá e Renato. Até que ponto isso foi estendido para todos terem direitos autorais?

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As letras eram divididas também?

Eles trabalhavam juntos, o Renato declarou isso muitas vezes. Por mais que ele escrevesse as letras, sugeria-se alguma coisa aqui e outra ali. Chegar nas 29 foi muito tranquilo, foi só pegar o encarte. Não deixei nada de fora. Peguei o Música para acampamentos porque tem o Canção do senhor da guerra. E aí começam as surpresinhas. Se o Uma outra estação não tivesse sido feito pelo Trilha, não teríamos acesso a Dado viciado, Marcianos invadem a Terra, a Marianne – que tem Marianne 2. As canções feitas sozinho pelo Renato perfazem uma história: Geração Coca-Cola, Faroeste caboclo, Fábrica, Índios, Que país é este. Se você pensa nos maiores hits da Legião, tava tudo nele. O segredo do negócio estava nele. Dado e Bonfá não negam isso. Tanto que eles falam que a banda acabou depois disso.

Eu lembro que quando Renato morreu, uma rádio bem popular aqui do Rio levou ao ar um especial da Legião com as músicas do A tempestade, intercaladas com mensagens dos ouvintes que eram fãs da banda. Alguns estavam chorando e pedindo para o Dado e o Bonfá não acabarem com a banda, para continuar mesmo sem o Renato. Isso apareceu no rádio! Aí acaba entrando naquela seara em que as pessoas querem escutar aquele repertório, de que ele faz muita falta…

Vou além: lembro que aquele especial da MTV com Wagner Moura foi doloroso de assistir. O Wagner estava lá como cantor amador, topou fazer aquilo, mas a plateia cantou do começo ao fim. E no fim, Será, é cantada pela plateia, com Wagner deitado no chão chorando. Acontecem coisas incríveis, existe um legado incrível nas pessoas que gostam de Legião Urbana, que é como se não precisasse do Renato. Quando Dado e Bonfá se reúnem, existe uma coisa que é tão poderosa, é uma presença-ausência tão presente ainda para eles, que eles fazem com que faça sentido.

Então tá lá, teve o André Frateschi conduzindo com eles, teve a turnê dos 30 anos… Foi um processo complicado para o Dado e o Bonfá realizarem aquilo também. E o Dado fala: a gente gostaria de estar tocando. Quem não gostaria? São as músicas que eles fizeram!

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O Nasi, do Ira!, uma vez falou numa entrevista que banda não é como álbum de família, com aquelas pessoas insubstituíveis…

E a ideia original do Renato era que o nome fosse Legião Urbana porque os músicos seriam rotativos. E aí entra nessa discussão que estamos levando agora. Um outro problema é que o Brasil não tem memória, tá aí o que vem acontedcendo com nossos prédios, nossos centros históricos… Por que se escreve ainda sobre Renato? É importante, é a história de um cara que ainda ecoa.

Qual a maior surpresa que seu livro traz para o fã de Legião?

Ah, nem sei se devo revelar (rindo), mas o maior gatilho é a descoberta dessa personagente, de como o Renato Russo se distancia do Renato Manfredini. Eu faço essa dicotomia, entre Renato e Russo. Mas e você, qual surpresa viu no livro? (me perguntando)

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Bom, acho que essa semelhança entre a morte dele e a do David Bowie, e o fato de “Renato Russo” não ser apenas um nome artístico, ser um personagem mesmo.

É verdade. Mas se você for ver, de acordo com a (professora) Eliana Yunes, todos nós somos isso. Existe as pessoas que somos e as que criamos. Se entra um novo indivíduo numa conversa, não é mais a gente que está ali.  A gente é a partir da interação com aquele indivíduo, conforme o estatuto social que temos nessa relação. Se é seu marido, sua mulher, seu marido, seu filho, e você institui personas, as máscaras que usamos. Quantas versões suas ou minhas? É infinito.

Agora quanto mais você adentra a história do Renato, mais percebe um sujeito extremamente carente. O barato dele era ligar para as pessoas de madrugada, ele era noturno. E aí vários amigos declararam isso ao longo do tempo, ele passava três quatro, horas conversando com as pessoas. Então você imagina o que era receber uma ligação dele para trocar ideias. Várias ideias nasceram dali.  Nasceram coisas com o Trilha, o disco em inglês, em italiano. Renato deixou uma ópera, uma peça de teatro. Ele queria fazer roteiro de filme, tinha várias ambições para a própria vida. Ele não queria ser só um rockstar, queria mais.

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Cultura Pop

John Lennon, em livro: “Achei fazer ‘Help!’ uma m (*)!”

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John Lennon, em livro "Achei fazer 'Help!' uma m (*)!"

Jan Wenner, fundador da Rolling Stone, tomou uma atitude da qual se arrependeria um tempinho depois. O editor pegou a enorme entrevista que John Lennon tinha dado à revista (e que foi publicada em duas edições em 21 de janeiro e 4 de fevereiro de 1971) e, sem autorização do ex-beatle, jogou tudo num livro.

Lennon Remembers, lançado em novembro de 1971, acabou fazendo bastante sucesso, até porque na tal entrevista para a Rolling Stone (que passou pelo crivo do próprio cantor antes de ser publicada), o ex-beatle estava endiabrado. Tinha acabado de passar (junto com Yoko Ono) por uma temporada de sessões de terapia com o psicólogo Arthur Janov, aquele do “grito primal”. E, especialmente, estava puto da vida com uma série de coisas relativas aos Beatles.

Se você achou que o filme Help! mostrava os quatro de Liverpool super alegrinhos, pode esquecer. Lennon se sentiu pessoalmente humilhado fazendo o filme e detestou a experiência, até porque fãs e gente da imprensa estavam no set.

“É como sentar-se com o governador das Bahamas porque estávamos fazendo Help! e ser insultado por esses idiotas e bastardos da classe média que comentavam sobre nosso trabalho e nossas maneiras. E eu estava sempre bêbado, insultando todo mundo. Eu não aguentava. Doeu tanto, eu ficaria louco, xingando”, reclamou. “Foi uma porra de humilhação. Era preciso humilhar-se completamente para ser o que os Beatles eram, e é disso que me ressinto. Eu fiz, mas não sabia. Eu não previ isso, apenas aconteceu aos poucos, até que essa loucura completa me envolvesse”.

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Tem coisa mais complexa: Lennon dizia que suas qualidades de gênio haviam sido negligenciadas ou ignoradas desde a infância, falava pela primeira vez sobre a homossexualidade do ex-empresário Brian Epstein, reclamava dos fãs americanos que os Beatles conheceram em 1964 (“uma raça feia”) e se diferenciava de Paul McCartney dizendo que ele próprio era “o contador da verdade” e o parceiro era “o músico pop”.

O autor de Imagine ainda distribui porradas nas carreiras solo dos colegas, dizendo que se sentiu envergonhado pela estreia solo de Ringo Starr, Sentimental journey, e que não tocaria All things must pass, disco triplo de George Harrison, em casa. Mas que ainda assim ele era melhor que McCartney, estreia solo de Paul.

Pedradas em Epstein: Lennon reclamava que a ideia do ex-empresário de vestir todo mundo com terninhos serviu para passar um bombril na imagem “selvagem” da banda no começo. Mas que a imagem da banda ficou “em círculos” depois de sua morte, com a liderança de McCartney.

>>> Veja também no POP FANTASMA; Quando John Lennon tentou defender um assassino

Outro filme da história dos Beatles, Let it be, serve de motivo para mais pedradas no ex-parceiro, já que Lennon reclama que Paul editou o filme de modo a parecer o grande comandante da banda. E, heresia: até mesmo o produtor George Martin era tido por John como um cara que se aproveitou da fama dos Beatles, e nada mais que um “gravador” do grupo.

Aliás, ainda sobrou para colegas “de fora”: segundo Lennon, Mick Jagger ressucitara um “movimento de merda”, dançando “igual a um gay”. New morning, disco recente de Bob Dylan, “não significava nada”. E o fato de ele ter adotado um pseudônimo em vez de seu nome verdadeiro era “bobagem”. Ia por aí.

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O tal papo de Lennon foi amplamente discutido no cenário da cultura pop, e é entendido até hoje por muita gente como o atestado de óbito dos Beatles. Os ex-colegas em vários momentos deram entrevistas sobre o conteúdo do bate-papo. Aliás, Paul, em particular, disse ter ficado arrasado e se sentido um merda quando leu tudo.

>>> Veja também no POP FANTASMA: John Lennon e Yoko Ono: apresentadores de TV por um dia

Jan, numa época em que não havia celular, nem e-mail, decidiu viajar à Inglaterra para pedir a Lennon que liberasse a entrevista para um livro, sentindo que aquilo ajudaria bastante as finanças da revista. Não encontrou John, mas o beatle já havia avisado que só havia permitido que o papo fosse publicado na revista e nada mais. Sem dilemas: Jan mandou publicar Lennon remembers na base do mais sincero foda-se. Recebeu 40 mil dólares pelo livro. Mas foi gentilmente lembrado pelo ex-amigo de que a entrevista havia ajudado a Rolling Stone a sair do atoleiro financeiro, e foi acusado de infidelidade.

O mais louco é que o tal papo ainda rendeu por vários anos e seu áudio chegou a virar matéria de rádio e de podcast (publicado inclusive no site da Rolling Stone gringa). Hoje tá até no YouTube. Pega aí.

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