Som
Aumenta o som! – Zig Zags, “Riddle of steel”

Trazendo na capa aquilo que parece ser uma foto de Donald Trump rasgada por uma caveira (fantasiada de metaleiro da bay area dos anos 1980, por sinal), lá vem o single novo do Zig Zags, de Los Angeles:”Ripping death”/”Riddle of steel”. O som pode tranquilamente ser enfiado na gavetinha do stoner rock. Lembra o heavy metal da década de 1980 mas com um monte de sujeira na qualidade de gravação e nas guitarras.
O vocalista e guitarrista Jed Maheu, o baixista Patrick McCarthy e o baterista Bobby Martin dizem que o nome da banda não veio daquela famosa marca de papel de seda conhecidíssima dos maconheiros europeus e americanos – eles juram terem tirado o nome de uma marca chinesa de tênis, bem barata, que costumavam comprar. O grupo já vem fazendo certo barulho, gravaram até um single com Iggy Pop em 2012 (“If I’m in lucky I might get picked up”, registrada anteriormente por Betty Davis). E ainda nesse mês soltam o single – cujo lado B já pode ser ouvido por aí. Confira abaixo.
Crítica
Ouvimos: Dry Cleaning – “Secret love”

RESENHA: Secret love amplia o pós-punk falado do Dry Cleaning, cruza referências setentistas, kraut e folk torto, e soa como crônicas estranhas da vida adulta.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: 4AD
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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As referências da banda britânica Dry Cleaning parecem sempre ter sido os grupos de pós-punk que não viraram lendas do estilo, lado a lado com uma tendência a cultizar tudo – os vocais falados e calmíssimos de Florence Shaw, sempre em clima de spoken word ritmada, brotavam emoldurados por bases que faziam lembrar grupos como Wire, The Sound (este, em especial), Medium Medium e outros. Ok, Pixies é provavelmente uma referência – talvez o grupo tenha uma cópia da Purple tape, demo que deu origem à estreia Come on pilgrim (1987), em algum canto.
O terceiro disco, Secret love, vem sob a marca da produção de Cate Le Bon, excelente produtora e ótima escolha para compreender o universo experimental, musical e poético do grupo. E parece – atenção, é apenas uma suposição – ter ganhado certa tração após o Geese se tornar uma das bandas mais comentadas de 2025.
Ou seja: se o grupo mais falado do ano passado é uma atração musical que não tem vergonha da própria estranhice, e que une slacker rock, punk, Rolling Stones e country absurdo, tudo a ver abrir a divulgação do novo disco com Hit my head all day, um longo texto cuja musicalização faz lembrar um combo de Talking Heads, Gang Of Four e o David Bowie de Station to station (1976). E prosseguir com um krautrock sinuoso, Cruise ship designer. Além de Let me grow and you’ll see the fruit, união de folk estradeiro e rap experimental.
Esses aí são só os três primeiros singles de Secret love. Um disco que aponta para um misto de Stranglers e Velvet Underground em My soul / Half pint, para uma noção sexy e afrancesada de pós-punk em Secret love (Concealed in a drawing of a boy), para a porrada fria lembrando Joy Division (na garageira e maquínica Rocks) e para mais evocações da fase Berlim de David Bowie – na celestial I need you, no quase dub Evil evil idiot e até numa canção meio sixties, Blood, cuja abertura ameaça algo parecido com Pinball wizard, do The Who, mas que prossegue no pós-punk quebradiço.
De resto, o grupo apresenta uma das canções mais fofas de sua história em (note o nome) The cute things – rock garageiro que às vezes lembra The Cars e Pretenders – e volta ao caldeirão pós-punk no encerramento, com Joy. Já as letras continuam soando como crônicas bem estranhas, em que tudo soa como vários depoimentos de Florence sobre pessoas e situações sui generis. Let me grow, por exemplo, soa como se a cantora estivesse deitada num divã, na terapia, falando sobre dilemas e traumas da vida adulta, indo do estilo foda-se (“posso fazer qualquer coisa, dizer qualquer coisa”) à queda (“eu anseio por um amigo a quem eu possa contar meus segredos / por que o passado me machuca tanto?”). Viagens pessoais em música e letra.
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Crítica
Ouvimos: Sabrina Carpenter – “Man’s best friend”

RESENHA: Man’s best friend mostra Sabrina Carpenter afiada: pop leve e irônico, entre soft rock e dance, criticando homens perdidos e relações falhas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Island
Lançamento: 29 de agosto de 2025
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E esse papo de que Sabrina Carpenter anda sendo alimentada pela indústria musical como uma possível substituta pra Taylor Swift? Olha que é fácil acreditar nisso – mas eu prefiro nem dar mole para acharem que Sabrina é um simples fantoche do mercado musical, já que ela vem lançando discos bem legais nos últimos tempos. Tanto que mesmo quando ela faz um pop mais ou menos genérico, como rola em vários momentos desse Man’s best friend, ela consegue garantir interesse graças à abordagem das músicas – uma combinação de vocal, letra, arranjo, charme, tudo junto e quase na mesma proporção.
O núcleo duro de Man’s best friend é pequeno. Sabrina convidou Jack Antonoff pra trabalhar e a produção girou em torno dos dois e de John Ryan, que fez coisas com o One Direction. Amy Allen juntou-se ao trio para colaborar na composição de algumas faixas. Entre os músicos, integrantes dos Bleachers, banda de Antonoff. E o disco tem um lance irônico e zoeiro que muita gente não sacou de primeira – falaram mal da capa original, dos títulos das faixas, etc etc. Manchild mete o pau em homens dependentes. Tears acaba soando como uma piada mortal com homens que se acham fodas por fazerem o básico. My man on willpower fala sobre um sujeito que passou a ser o rei da autoestima e do autocontrole e, de repente, começou a dar altos perdidos na namorada. Vai por aí.
De modo quase geral, Sabrina surge no disco como uma mulher perdida em meio a homens mais perdidos ainda, o que gera faixas sobre relacionamentos cagados (Goodbye e We almost broke up again last night), extremamente cagados (Never getting laid), autoestima cagadinha (Nobody’s son), homens que eram feios e ficaram bonitos (When did you get hot?) e papos no estilo “bebi, liguei” (Go go juice) além da loteria emocional de Don’t worry, I’ll make you worry. Man’s best friend, na real, é um disco sobre o estilo de vida movimentado de uma mulher de 25, 26 anos e acaba soando como um comentário do tipo: caceta, por que tanto esforço pra agradar homens se eles só fazem merda?
Bom, musicalmente, Sabrina e seus parceiros fizeram um disco pop e alegre, balizado por canções entre o soft rock e a dance music. Os dois estilos se alternam ou se complementam, em faixas como Tears, My man on willpower, o pós-disco + r&b Sugar talking, a baladinha triste e breguinha We almost broke…, o soul levemente lo-fi Never getting laid (com refrão bacana, vale dizer), a dance music com jeito de ABBA Goodbye, etc.
No geral, Man’s best friend parece um disco feito pra soar pop sem muitas encucações, e que ganhou recentemente a presença de Such a funny way como faixa bônus – uma faixa em duas partes, com clima ligeiramente hollywoodiano, sobre um namorado mais liso que quiabo, e que vive presenteando Sabrina com chifres (“é engraçado você estar bebendo por aí, engraçado eu estar em casa / é engraçado que todo mundo saiba de algo que eu não sei”). Dá pra dizer que Sabrina está vendo brincadeira demais onde o buraco (da violência, do machismo) é bem mais embaixo, mas Man’s best friend não parece tão desconectado da realidade assim.
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Crítica
Ouvimos: Chance The Rapper – “Star line”

RESENHA: Star line marca a redenção de Chance The Rapper: rap, soul e gospel, letras mais francas, temas sociais e acertos maiores que no disco de estreia.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 15 de agosto de 2025
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A julgar pela capa de Star line, segundo álbum do norte-americano Chance The Rapper, trata-se de um disco meio… Bom, não diria ruim, mas não parece um dos usos mais bem realizados de Inteligência Artificial para fazer uma capa de disco. Mas Star line é a chance (sem trocadilho, mas se quiser pode) que Chancelor Johnathan Bennett – nome verdadeiro do cara – tem de voltar a chamar a atenção dos fãs, já que The big day, seu primeiro disco (2019, lançado após uma bem sucedida série de mixtapes) recebeu mais críticas e piadas escarnecedoras do que elogios.
Ouvido hoje, sete anos após seu lançamento – sete anos hoje em dia é tempo pra burro, vale dizer – The big day está bem longe de ser um disco ruim. Tá mais pra uma boa união rap-pop-gospel que coroa Chance como um sujeito bem mais empreendedor e visionário do que muitos de seus pares: ele prefere lançar seus discos por conta própria, fechou sozinho vários contratos importantes, fez várias doações, etc.
O problema é que geralmente histórias de redenção não terminam de uma maneira tão previsível: The big day é um disco sobre o casamento de Chance com sua namorada de longa data, que aconteceu após separações e brigas envolvendo pensão alimentícia (o casal já tinha uma filha). O resultado soa mais como um yearbook pessoal do casório, bem diferente das histórias da mixtape Coloring book (2016).
E bom: o casamento não durou muito, Chance ganhou uma recepção bem fria de seus fãs e vá lá, tinha uma certa injustiça nisso tudo (muita gente, mais do que detestar o disco, quis só tirar um barato da nova fase familiar de Chance). Mas vá lá: um disco como Stardust, o novo de Danny Brown, falando de sobriedade e vida pós-drogas de modo bem mais rueiro – e com rimas e melodias que fazem bem mais sentido – acaba descendo melhor e apaziguando gostos e desgostos.
Star line tem a vantagem de ser um disco que partiu dos erros que ele julga ter cometido no primeiro álbum. Do papo comportado de The big day, surgiu um Chance The Rapper mais disposto a se expor, como no beat seco e no clima quase oitentista de Starside intro, em que ele fala na inexistência de “finais de conto de fadas” e no clima dançante e despojado de No more old man, com belos vocais e arranjos de cordas – e uma letra que fala em aprendizados com os mais velhos. A introspectiva e viajante The highs ans the lows fala em gangorras emocionais e parece trazer conselhos que Chance queria ter ouvido há anos (“às vezes todo o ruído externo realmente nos cega / não acredite em nada do que você vê e em metade do que você ouve / as melhores coisas da vida estão do outro lado do medo”).
Já a desigualdade social é o tema de The negro problem, em que temas como justiça, saúde e até antirrascismo cirandeiro (a partir de um discurso sampleado do ator Richard Pryor) vão surgindo – o som é meio boogie anos 1980. Drapetomania vai mais além: fala de uma doença pseudocientífica que, lá pelo século 19, classificava como “mania de fuga” o fato dos escravizados não aceitarem sua condição e tentarem fugir. O som é um trap grave e sequenciado.
O novo disco de Chance The Rapper segue nessa onda, unindo vários temas para apresentar a visão do artista sobre tudo o que foi acontecendo com ele nos últimos anos. Rola no soul cantado e próximo do trap de Space and time (“espaço e tempo vão onde você for / não pode desperdiçar seus amanhãs”), na vibe espacial e psicodélica de Link me in the future (a melhor e mais bem produzida faixa do álbum, com letra confessional e versos como “nossas lembranças ainda me assombram / meus amigos me disseram para te ignorar / mas toda vez que te vejo, dá vontade de te abraçar mais forte”) e a vibe de sobrevivência na selva de Gun in yo purse. Letter, rápida e jazzificada, é um rap-gospel raivoso que senta a mamona no falso cristianismo e nas igrejas de araque.
Star line é fundamentado numa onda sonora gospel que dá certo diferencial e um prazer auditivo que o primeiro álbum não tinha. Chance parece disposto igualmente a lembrar que já foi visto como um profissional próspero, além de um grande rapper – o “Star Line” do título é uma referência a uma companhia de navegação criada pelo ativista e empresário jamaicano Marcus Garvey, e viagens à Jamaica e a Gana estão no gene do álbum. Os acertos foram maiores dessa vez.
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