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Crítica

Ouvimos: Trabalhos Espaciais Manuais (TEM) – “Ponto de curva”

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O Trabalhos Espaciais Manuais mistura jazz espacial, afro, soul e psicodelia em Ponto de curva, viajando por metais criativos e percussão intensa.

RESENHA: O Trabalhos Espaciais Manuais mistura jazz espacial, afro, soul e psicodelia em Ponto de curva, viajando por metais criativos e percussão intensa.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Frase Records
Lançamento: 14 de novembro de 2025

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Grupo gaúcho conhecido tanto por seu nome completo quanto pelo seu apelido, o Trabalhos Espaciais Manuais (TEM) faz uma espécie de jazz espacial – não tanto pelos efeitos das músicas, mas pela gama de universos que visita a cada faixa de seu disco Ponto de curva.

A faixa-título é marcada por metais altamente criativos e por um som percussivo, dançante, quase voador, com bateria ganhando um ar quase jungle. Harapan é um festejo com os metais e a percussão – um jazz nordestino e espacial que chega a lembrar Ed Lincoln. Fatídico é um afropop, levado adiante por teclados, metais e cuíca, e tons afro dominam também o jazz vertiginoso de Fuga em Antares, além do convite psicodélico e meditativo de Miragem de Iara pt 2, com os vocais de Saskia. Entre as margens e o agora, por sua vez, tem várias faces: abre lembrando o ritmo do Earth, Wind and Fire, ganha cara latina e, depois, graças à guitarra e ao órgão, chega a lembrar o começo de Antonio Carlos e Jocafi.

Já em Encruzilhada, tudo é uma imensa percussão, até os metais e a guitarra, num efeito que parece combinar Airto Moreira e Black Sabbath. Prazerá é um soul, com metais lembrando Lincoln Olivetti e Robson Jorge, em que a lenda viva Di Melo faz participação especial. E um clima bem fantasmagórico toma conta do jazz fusion A sombra não é o que parece – um som viajante, como se a tal “sombra” do título fosse do bem, e pairasse sobre o estúdio.

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Crítica

Ouvimos: Tavito, Clarisse Grova, Marcio Lott – “Inéditas” / Tunai – “Dança das cadeiras”

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Dois lançamentos resgatam Tavito e Tunai: inéditas e disco raro revelam um pop adulto entre MPB, ecos do Clube da Esquina e anos 1980.

RESENHA: Dois lançamentos resgatam Tavito e Tunai: inéditas e disco raro revelam um pop adulto entre MPB, ecos do Clube da Esquina e anos 1980.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5 (Tavito) e 8,5 (Tunai)
Gravadoras: Savalla Records (Tavito) e Biscoito Fino (Tunai)
Lançamento: 5 de dezembro de 2025 (Tavito) e 13 de novembro de 2025 (Tunai – relançamento)

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Músicos mineiros da mesma geração e já saídos de cena, Tavito (1948-2019) e Tunai (1950-2020) acabaram pertencendo a turmas diferentes da música brasileira – e, de certa forma, são pertencentes a várias turmas, sem se prenderem a nenhuma.

A rigor, tanto o autor de Rua Ramalhete (surgido com a turma do Clube da Esquina) quanto o de Frisson (irmão de João Bosco, parceiro de Milton Nascimento e cantor-compositor revelado no começo dos anos 1980) são figuras do pop adulto nacional. Ou da esquina entre a música pop e a MPB, lado a lado com Erasmo Carlos, Djavan, Lulu Santos, Ivan Lins e outros nomes. É o som que aparece em vários álbuns lançados por eles ao longo de suas carreiras.

Coincidentemente, Tavito e Tunai foram recentemente lembrados com dois lançamentos importantes. Inéditas tem dez faixas do primeiro – são músicas que ele não teve tempo de soltar em seus poucos discos solo, sendo que apenas uma delas, Poesias cantadas, tem a voz dele. Nessa música, Tavito cruza a musicalidade de seu maior hit com a experiência de quem passou anos fazendo jingles e temas para a TV – um som que faz lembrar a turma do Clube, que surge como uma mensagem na garrafa. O restante do material aparece nas vozes de Marcio Lott e Clarisse Grova.

Nem tudo soa perfeito – os arranjos de Pra que a vida aconteça e Embora soam excessivamente como jingles que viraram canções. O lado mais interessante do disco surge quando um fantasma dos anos 1980 baixa no estúdio, com direito a mixagem e a tecladeiras que lembram a época – é o que surge na MPB indie de Na beira da canção (com Clarisse) e no romantismo de Igual ao mar (também com Clarisse, e com letra falando sobre um casal marcado pelas diferenças de temperamento entre os dois) e a toada romântica As meninas (com Marcio nos vocais). O mar em mim, que brinca com ausência do mar em Minas Gerais, também na voz de Lott, une versos marítimos em meio a um som que é pura MPB dos anos 1960 e 1970.

Dança das cadeiras, por sua vez, foi lançado por Tunai em 2004, de forma independente, e estava até hoje ausente das plataformas – chega a elas agora, por iniciativa da gravadora Biscoito Fino. Um disco cheio de músicas ótimas, com Tunai em plena forma como compositor, ainda que a produção e a gravação pareçam sofrer em alguns momentos com a falta de recursos.

Muitas faixas do disco têm clima beatle indisfarçável, como no reggae acústico Separações, o pop sofisticado Pros meus cachorros e o blues Blue Minas, com cordas lembrando The long and winding road. O disco chega perto do samba-jazz introspectivo em Luz das manhãs, traz um jazz-bolero que faz lembrar o irmão João Bosco em Éramos três, e volta ao blues na balada romântica Blues afins, cuja letra junta os universos de Jimi Hendrix e Tom Jobim.

O disco tem três participações: Victor Biglione toca guitarra na faixa-título e Zélia Duncan, ao lado da banda Blue Notes, participa da roqueira Sempre na mira, que fala dos perigos da vida na América do Sul, da violência de quem sustenta a repressão e da morte como negócio – letra bastante atualizada, por sinal. A lindíssima Lembre-se, por sua vez, fala de racismo histórico e da escravidão como os grandes pais da repressão, da pobreza e das ameaças do dia a dia, em meio a um som caudaloso que lembra Beto Guedes e Milton Nascimento.

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Crítica

Ouvimos: Vera Daisies – “Clever girl” (EP)

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Projeto solo da francesa Vera Daisies mistura punk e garage com gótico, tecnopop e dream pop, letras deprê e riffs distorcidos no EP Clever girl.

RESENHA: Projeto solo da francesa Vera Daisies mistura punk e garage com gótico, tecnopop e dream pop, letras deprê e riffs distorcidos no EP Clever girl.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: GRRRANDE
Lançamento: 16 de janeiro de 2026

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Vinda da França, Vera Daisies lançou há pouco seu projeto solo e já fez abertura de shows para bandas/artistas como The Libertines, Tess Parks e Sorry. Clever girl, o primeiro EP, tem heranças musicais do punk e do garage rock, mas investe também em climas sombrios associados ao gótico, ao tecnopop e ao dream pop.

Chess game, na abertura, dá um susto por causa do uso de autotune – depois, destaca-se pela melodia simples e bacana, pelas distorções e pelos ruídos que seguem acompanhando os vocais, sem falar nos teclados em vibe quase psicodélica. 666, na sequência, alterna bases tranquilas e vibrações distorcidas. Evocações de Pixies, The Cars e até de Sharon Van Etten invadem faixas como Take it slow, a ruidosa e fantasmagórica Missing something (com participação da alemã Sloe Noon) e a dramática e sombria Can’t blame you.

Nas letras, Vera fala dos tropeços e relacionamentos cagados da vida – só que com um tom deprêzaço em faixas como Can’t blame you e Chess game (na qual ela acaba aderindo à trend de janeiro: “fico com saudade de casa / quando você toca especificamente esta canção de 2016”). Já faixas como 666 e Take it slow mandam para longe uma turma de escrotos que fica à espreita, em versos como “pense que você merece o melhor / priorize seus interesses / defenda-se sozinho / e se afaste de nós”.

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Crítica

Ouvimos: Matuê – “XTRANHO”

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Críticas veem Xtranho como pouco original e raso - e apesar de ter alguns bons momentos, o novo disco de Matuê soa como mashup que rende menos que os anteriores.

RESENHA: Críticas veem Xtranho como pouco original e raso – e apesar de ter alguns bons momentos, o novo disco de Matuê soa como mashup que rende menos que os anteriores.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 6
Gravadora: 30PRAUM
Lançamento: 10 de dezembro de 2025

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A crítica musical Carol Prado publicou no G1 uma resenha arrasando com Xtranho, disco novo do cantor de trap Matuê – ela explicou que não gostou do disco por causa de suas letras infantis e pelo fato da sonoridade apenas imitar o que artistas norte-americanos do estilo vêm fazendo.

Ela também contextualizou a carreira de Matuê e explicou que o sucesso do artista não aconteceu por acaso: ele (realmente, acrescentamos) criou uma marca pessoal em pouco tempo, explicitada em seus dois álbuns anteriores, e que fizeram com que sua música fosse entendida não apenas por adolescentes fãs de trap, como por fãs de música de várias idades. Já a conta do xwitter Rap World enxergou pouca profundidade no disco, além de também encarar Xtranho como um quase mashup, e uma imitação de coisas que já vêm sendo feitas.

Outras resenhas enxergaram Xtranho com mais leveza – Kadu Soares, na Rolling Stone Brasil, disse que o disco “poderia ir mais além” mas que mesmo assim ele entrega uma nova plataforma para o estilo musical no Brasil. Era algo que Matuê já vinha fazendo, inclusive: em álbuns como 333 (2024) ele já tangenciou até estilos como soft rock e rock oitentista, o que provavelmente fez muita gente torcer o nariz.

Xtranho, o terceiro álbum, chama a atenção por não ser nada do que o próprio Matuê explicou a respeito dele. Não é exatamente o disco “disruptivo” e “underground” que ele vem comentando, e as vibes lisérgicas e góticas que invadem as músicas soam meio batidas – como se fosse um repertório feito para “funcionar”, mas que no fundo rende bem menos que os dois discos anteriores.

Um detalhe: se roqueiros fossem sempre criticados por copiarem outras bandas, não sobraria um de pé – ainda mais no Brasil. Vai daí que a suposta pouca originalidade do disco nem chega a ser um enorme problema. De bom, Xtranho tem a psicodelia de Rei Tuê, Todas as luzes e Talking bout, os vapores sonoros de Icone fashion, o descontrole de Alterado (com vocais sujos e ritmo desencontrado). Além da revolta pessoal de Meu cemitério, a melhor do disco.

O resto parece aquelas vezes em que alguém tenta acertar na mira e passa longe, especialmente porque soa como se Matuê tivesse pouca conexão com o que foi lançado musicalmente no disco – olha aí a tese do Rap World, de que o álbum soa como um mashup. Em alguns momentos, parece realmente que todo o repertório vai ser picotado em mini-canções para serem apresentadas nos shows, como um enorme pot-pourri de si próprio.

Quanto às letras: não é para esperar “maturidade”, mas uma parte de Xtranho lembra a fase de esgotamento do Charlie Brown Jr, quando a formação estava desfigurada, Chorão já parecia desanimado e as músicas soavam como um análise combinatória avacalhada. Não se trata nem de haver frases que é preciso jogar no Google pra entender: estilos como rap e trap costumam ter letras feitas com expressões restritas ao universo dos próprios artistas, e isso costuma até envolver mais os fãs.

A questão é que versos como “mano, eu só ando estranho, dinheiro movendo estranho”, e “eu sou um mano muito revoltado / preciso fumar alguns baseados” não parecem evocar muita coisa. É nas letras, por sinal, que esse lado “mashup” de Xtranho é mais visto, como se cada faixa evitasse focar num tema – isso poderia ser algo bem “underground” e criativo, mas aqui parece que faltou direção.

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