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Ouvimos: Fini Tribe – “The sheer action of the Fini Tribe 1982-1987” (box set)

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mistura de pós-punk esquisito, música eletrônica, som cerimonal e no wave do Fini Tribe ressurge na caixa The sheer action of the Fini Tribe 1982-1987

RESENHA: A mistura de pós-punk esquisito, música eletrônica, som cerimonal e no wave do Fini Tribe ressurge na caixa The sheer action of the Fini Tribe 1982-1987, em faixas ruidosas e inventivas.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Shipwrecked Industries / Finiflex Records
Lançamento: 10 de outubro de 2025

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O Fini Tribe é uma banda tão obscura que mal pode ser considerado um projeto musical maldito. Vindo de Edimburgo, Escócia, esse grupo acabou tendo influência na mistura musical que deu origem aos balearic beats, as batidas dos clubes de Ibiza – tudo por causa de Detestimony, música de 1986 que foi tocada em clubes locais e que entrou em coletâneas do estilo. Com referências de grupos como Throbbing Gristle, Wire, Can e Captain Beefheart and His Magic Band, eles geraram projetos como o Ministry – e vale citar que Chris Connely, um dos criadores do Fini Tribe, acabou saindo da banda para ingressar tanto no Ministry quanto nos Revolting Cocks.

Não havia só proto-house e música eletrônica no som do Fini Tribe, como dá para perceber tranquilamente na audição da caixa The sheer action of the Fini Tribe 1982-1987 (que pode ser ouvida na íntegra no Bandcamp e em demais plataformas de música). No geral, o som do Fini Tribe – cujos integrantes eram Chris, Simon McGlynn, Andy McGregor, Davie Miller, Philip Pinsky e John Vick – era bastante descendente do funk punk de bandas como Pop Group, Slits e Gang Of Four, e mais parente ainda da no wave.

  • Ouvimos: Wire – Nine sevens (box set)

A própria Detestimonial soa como a mescla exata de Gang Of Four com a fase intermediária (1985/1987) do Ministry. Cathedral, na abertura, é no wave quase psicodélica, com ritmos ao contrário, vocal falado e teclados em tom ambient. Backwards and forwards we learn tem som extremamente estilingado, até no vai e volta do baixo. O clima do Ministry no disco The mind is a terrible thing to taste (1989, por sinal o segundo a contar com Connely) surge em faixas como All fours, a ritualística Throttlehearts (Rising mix) e as industriais Adults absolved e Idiot strength. A influência do Can é celebrada na regravação de I want more, hit da fase dançante da banda.

Conforme The sheer action of the Fini Tribe vai seguindo, o lado fantasmagórico do grupo – herdado da música cerimonial do Throbbing Gristle – vai ficando mais evidente, em músicas como Make it internal, Monimail e Paperself, além de novas versões, em demo ou ao vivo, de faixas que já surgiram na caixa, como Backwards and forwards we learn. O lance é que, no fundo, o Fini Tribe era uma banda basicamente de pós-punk e no wave. Fãs de bandas como Flipper e Public Image Ltd, e das compilações Não São Paulo (lançadas em 1986 e 1987 pela Baratos Afins) vão reconhecer muita coisa por aqui, em faixas como Papelself, The constant, Me and my shadow e na doideira de Choke – esta, um som pós-punk e desesperador, extremamente mal gravado, que parece feito de maneira tosca só pra provocar.

Por outro lado, tem o pós-punk típico, entre Slits e Teardop Explodes, de Splash care, e a beleza de We’re interested, além de climas meio afrbeat em Goose duplicates, Restless e Big jug / Wet stee rail. Monimail II tem flauta, percussão, e parece uma versão hippie de Siouxsie and The Banshees. City on a fence é uma música em que tudo parece rodar ao contrário. E entre várias curiosidades, destacamos a de Torch / Distance, que mais parece um sophisti-pop no estilo de Prefab Sprout e Style Council, só que jogado na tosquice underground. No fim das contas, é o resumo de uma história geralmente pouco lembrada e contada, ao seu alcance.

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Ouvimos: Trabalhos Espaciais Manuais (TEM) – “Ponto de curva”

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O Trabalhos Espaciais Manuais mistura jazz espacial, afro, soul e psicodelia em Ponto de curva, viajando por metais criativos e percussão intensa.

RESENHA: O Trabalhos Espaciais Manuais mistura jazz espacial, afro, soul e psicodelia em Ponto de curva, viajando por metais criativos e percussão intensa.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Frase Records
Lançamento: 14 de novembro de 2025

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Grupo gaúcho conhecido tanto por seu nome completo quanto pelo seu apelido, o Trabalhos Espaciais Manuais (TEM) faz uma espécie de jazz espacial – não tanto pelos efeitos das músicas, mas pela gama de universos que visita a cada faixa de seu disco Ponto de curva.

A faixa-título é marcada por metais altamente criativos e por um som percussivo, dançante, quase voador, com bateria ganhando um ar quase jungle. Harapan é um festejo com os metais e a percussão – um jazz nordestino e espacial que chega a lembrar Ed Lincoln. Fatídico é um afropop, levado adiante por teclados, metais e cuíca, e tons afro dominam também o jazz vertiginoso de Fuga em Antares, além do convite psicodélico e meditativo de Miragem de Iara pt 2, com os vocais de Saskia. Entre as margens e o agora, por sua vez, tem várias faces: abre lembrando o ritmo do Earth, Wind and Fire, ganha cara latina e, depois, graças à guitarra e ao órgão, chega a lembrar o começo de Antonio Carlos e Jocafi.

Já em Encruzilhada, tudo é uma imensa percussão, até os metais e a guitarra, num efeito que parece combinar Airto Moreira e Black Sabbath. Prazerá é um soul, com metais lembrando Lincoln Olivetti e Robson Jorge, em que a lenda viva Di Melo faz participação especial. E um clima bem fantasmagórico toma conta do jazz fusion A sombra não é o que parece – um som viajante, como se a tal “sombra” do título fosse do bem, e pairasse sobre o estúdio.

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Crítica

Ouvimos: Tavito, Clarisse Grova, Marcio Lott – “Inéditas” / Tunai – “Dança das cadeiras”

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Dois lançamentos resgatam Tavito e Tunai: inéditas e disco raro revelam um pop adulto entre MPB, ecos do Clube da Esquina e anos 1980.

RESENHA: Dois lançamentos resgatam Tavito e Tunai: inéditas e disco raro revelam um pop adulto entre MPB, ecos do Clube da Esquina e anos 1980.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 7,5 (Tavito) e 8,5 (Tunai)
Gravadoras: Savalla Records (Tavito) e Biscoito Fino (Tunai)
Lançamento: 5 de dezembro de 2025 (Tavito) e 13 de novembro de 2025 (Tunai – relançamento)

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Músicos mineiros da mesma geração e já saídos de cena, Tavito (1948-2019) e Tunai (1950-2020) acabaram pertencendo a turmas diferentes da música brasileira – e, de certa forma, são pertencentes a várias turmas, sem se prenderem a nenhuma.

A rigor, tanto o autor de Rua Ramalhete (surgido com a turma do Clube da Esquina) quanto o de Frisson (irmão de João Bosco, parceiro de Milton Nascimento e cantor-compositor revelado no começo dos anos 1980) são figuras do pop adulto nacional. Ou da esquina entre a música pop e a MPB, lado a lado com Erasmo Carlos, Djavan, Lulu Santos, Ivan Lins e outros nomes. É o som que aparece em vários álbuns lançados por eles ao longo de suas carreiras.

Coincidentemente, Tavito e Tunai foram recentemente lembrados com dois lançamentos importantes. Inéditas tem dez faixas do primeiro – são músicas que ele não teve tempo de soltar em seus poucos discos solo, sendo que apenas uma delas, Poesias cantadas, tem a voz dele. Nessa música, Tavito cruza a musicalidade de seu maior hit com a experiência de quem passou anos fazendo jingles e temas para a TV – um som que faz lembrar a turma do Clube, que surge como uma mensagem na garrafa. O restante do material aparece nas vozes de Marcio Lott e Clarisse Grova.

Nem tudo soa perfeito – os arranjos de Pra que a vida aconteça e Embora soam excessivamente como jingles que viraram canções. O lado mais interessante do disco surge quando um fantasma dos anos 1980 baixa no estúdio, com direito a mixagem e a tecladeiras que lembram a época – é o que surge na MPB indie de Na beira da canção (com Clarisse) e no romantismo de Igual ao mar (também com Clarisse, e com letra falando sobre um casal marcado pelas diferenças de temperamento entre os dois) e a toada romântica As meninas (com Marcio nos vocais). O mar em mim, que brinca com ausência do mar em Minas Gerais, também na voz de Lott, une versos marítimos em meio a um som que é pura MPB dos anos 1960 e 1970.

Dança das cadeiras, por sua vez, foi lançado por Tunai em 2004, de forma independente, e estava até hoje ausente das plataformas – chega a elas agora, por iniciativa da gravadora Biscoito Fino. Um disco cheio de músicas ótimas, com Tunai em plena forma como compositor, ainda que a produção e a gravação pareçam sofrer em alguns momentos com a falta de recursos.

Muitas faixas do disco têm clima beatle indisfarçável, como no reggae acústico Separações, o pop sofisticado Pros meus cachorros e o blues Blue Minas, com cordas lembrando The long and winding road. O disco chega perto do samba-jazz introspectivo em Luz das manhãs, traz um jazz-bolero que faz lembrar o irmão João Bosco em Éramos três, e volta ao blues na balada romântica Blues afins, cuja letra junta os universos de Jimi Hendrix e Tom Jobim.

O disco tem três participações: Victor Biglione toca guitarra na faixa-título e Zélia Duncan, ao lado da banda Blue Notes, participa da roqueira Sempre na mira, que fala dos perigos da vida na América do Sul, da violência de quem sustenta a repressão e da morte como negócio – letra bastante atualizada, por sinal. A lindíssima Lembre-se, por sua vez, fala de racismo histórico e da escravidão como os grandes pais da repressão, da pobreza e das ameaças do dia a dia, em meio a um som caudaloso que lembra Beto Guedes e Milton Nascimento.

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Ouvimos: Vera Daisies – “Clever girl” (EP)

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Projeto solo da francesa Vera Daisies mistura punk e garage com gótico, tecnopop e dream pop, letras deprê e riffs distorcidos no EP Clever girl.

RESENHA: Projeto solo da francesa Vera Daisies mistura punk e garage com gótico, tecnopop e dream pop, letras deprê e riffs distorcidos no EP Clever girl.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: GRRRANDE
Lançamento: 16 de janeiro de 2026

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Vinda da França, Vera Daisies lançou há pouco seu projeto solo e já fez abertura de shows para bandas/artistas como The Libertines, Tess Parks e Sorry. Clever girl, o primeiro EP, tem heranças musicais do punk e do garage rock, mas investe também em climas sombrios associados ao gótico, ao tecnopop e ao dream pop.

Chess game, na abertura, dá um susto por causa do uso de autotune – depois, destaca-se pela melodia simples e bacana, pelas distorções e pelos ruídos que seguem acompanhando os vocais, sem falar nos teclados em vibe quase psicodélica. 666, na sequência, alterna bases tranquilas e vibrações distorcidas. Evocações de Pixies, The Cars e até de Sharon Van Etten invadem faixas como Take it slow, a ruidosa e fantasmagórica Missing something (com participação da alemã Sloe Noon) e a dramática e sombria Can’t blame you.

Nas letras, Vera fala dos tropeços e relacionamentos cagados da vida – só que com um tom deprêzaço em faixas como Can’t blame you e Chess game (na qual ela acaba aderindo à trend de janeiro: “fico com saudade de casa / quando você toca especificamente esta canção de 2016”). Já faixas como 666 e Take it slow mandam para longe uma turma de escrotos que fica à espreita, em versos como “pense que você merece o melhor / priorize seus interesses / defenda-se sozinho / e se afaste de nós”.

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