Crítica
Ouvimos: Snakeheads – “Belconnen highs”

RESENHA: Belconnen highs é o único disco dos Snakeheads, que começou a ser gravado em 2019 e chega só agora como homenagem ao saudoso integrante Pete Lusty. Punk australiano fundamentado nas bandas britânicas do estilo.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Cassell Records
Lançamento: 29 de agosto de 2025
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Essa banda faz punk como antigamente: rápido, quase hardcore, lembrando bandas como The Damned, The Clash, Sex Pistols, os australianos do Radio Birdman e outros clássicos. Pensando bem, o Snakeheads é uma banda de antigamente, que ficou mais de dez anos rodando pelo mar numa garrafa. Foi formada em 2014 na Austrália por dois amigos de infância, que passaram a vida tocando em várias bandas de Sydney – até que perderam o contato, se reencontraram, e decidiram ensaiar todas as segundas-feiras.
A James Roden e Pete Lusty, os tais amigos, juntaram-se Kit Warhust, Graeme Trewin (ambos na bateria) e Harry Roden (baixo). A turma começou a trabalhar em sons autorais, inspirados pelo punk britânico e pelo hardcore dos EUA – mas igualmente havia partículas de estilos como glam rock e de sons dos anos 1960. Tudo isso está presente na argamassa sonora das 17 faixas de Belconnen highs, o único álbum dos Snakeheads.
Iniciado em 2019 e só agora lançado, Belconnen highs é um renascimento e, simultaneamente, um fechamento de ciclo. A começar porque Pete Lusty morreu de câncer em 2020, uma semana antes do início da pandemia, quando o álbum sequer estava concluído. Roden seguiu em frente e terminou o disco como homenagem a Lusty, que por sinal, além de tocar em várias bandas, também foi uma figura importante do ecossistema musical da Austrália – foi empresário do The Vines e um dos fundadores do selo Ivy League.
- Ouvimos: Half Japanese – Adventure
Não há espaço para melancolia em Belconnen highs. São canções curtas e ágeis, com bases inspiradíssimas no Clash, e com letras que falam em jogo sujo da indústria musical, tentativas de alcançar o sucesso, manipulação, merdificação da música e outros temas instigantes. Smash hits e Top of the pops fazem a crônica do jabá, dos altos e baixos, e da concentração cagada de grana da música (“nós estávamos no topo das paradas / agora estamos tocando em estacionamentos”, diz Top of the pops).
Músicas como All I want, Kontrol, Exocet, Sonic manipulation (esta, a cara do The Damned de faixas como Hit or miss) e Dumb enough são demasiadamente cascudas e passadas no alho para serem definidas como “punk pop” – unem raiva, rapidez e, às vezes, palmas a la Ramones, dando um clima amigável para qualquer fã do estilo. Savile Row, por sua vez, é um desdobre punk-sixties da batida de Bo Diddley. Já Out of control again tem partículas de Green Day, mas também tem detalhes que lembram The Who e The Jam. O disco do Snakeheads é um resgate musical com peso, inconformismo e singeleza em altas doses.
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Crítica
Ouvimos: Body Shop – “Sex body” (EP)

RESENHA: Body Shop mistura disco-punk, pós-punk e new wave sombria em Sex body, EP dançante, irônico e cheio de faixas viciantes.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Future Shock Records
Lançamento: 3 de abril de 2026
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Trio de Chicago liderado pela autoconfiante Kit Dee, o Body Shop faz um som que pode ser definido como disco-punk, mas tem mais do que isso na receita. A banda foca em sons tensos e sombrios, em climas herdados de Sonic Youth, Pixies e The Cars, e no EP Sex body, evocam em vários momentos uma espécie de B-52’s quase gótico.
- Ouvimos: Buzzcocks – Attitude adjustement
Os vocais de Kit são quase falados, na mesma escola de blasézice de Kim Gordon. O caminho entre o pós-punk e o eletrônico surge em faixas como Repulsion e Sex body, em clima sexy, com vocal falado. Ondas lembrando Lou Reed surgem nos vocais de Limits, em que Kit solta a voz ao lado de um dos dois sujeitos da banda.
Muita coisa em Sex body é bem viciante, mas nada como Fallacies, que une baixo à frente, clima sombrio e dançante, e algo que faz lembrar os Yeah Yeah Yeahs. E tem ainda Exit drill, o mais próximo de uma new wave morcegal no disco, entre Pixies e B-52s. No geral, Sex body é um daqueles discos para ouvir dançando e sentido vontade de ironizar cruelmente tudo que aparece – porque o clima dos vocais e das letras é justamente esse aí.
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Crítica
Ouvimos: Slag – “Losing” (EP)

RESENHA: Entre indie sleaze, math rock e emo, o EP Losing, do Slag, equilibra energia dançante, melancolia e guitarras inventivas.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Big Scary Monsters
Lançamento: 6 de março de 2026
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Essa banda de Brighton quase faz o tipo de som que muita gente classificaria como indie sleaze – música dançante, entre punk e dance music, indie e ao mesmo tempo exuberante. Não é só isso que tem no EP Losing, e essa “exuberância” tem limite. Ela surge delimitada pelo vocal machucado à Thom Yorke (feito pela carismática vocalista Amelie Gibson), pelas guitarras dedilhadas que dão certo ar emo, e pelas zoeiras rítmicas típicas do math rock que volta e meia invadem algumas músicas. Mas ganha representação visual na capa cheia de elementos glam do EP.
- Ouvimos: Johnny Hooker – Viver e morrer na América Latina
Os dedilhados aparecem logo no começo de Face off, música que abre o EP, e abre a temporada de canções funkeadas e balançadas em Losing – com direito a um synth que dá uma cara meio anos 1980 à faixa. A música-título vem logo depois, dando uma descontruída nos ritmos do álbum, enquanto Still here fica entre o pop rock oitentista e algo que pode ser colocado até na gavetinha do emo.
Seguindo pro final, você acha até um som que dá uns traços com uma versão math rock dos Red Hot Chili Peppers (Private gyno), além de um som noturno à moda dos Smashing Pumpkins, que ganha ares de balada metal – essa é Dislocated, a canção mais deprê do disco, e que oferece um lado diferente do som do Slag.
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Crítica
Ouvimos: Muse – “The Wow! signal”

RESENHA: Muse acerta em The Wow! signal, trocando excessos por boas canções e ficção científica pop, em seu melhor disco em anos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Warner Music
Lançamento: 26 de junho de 2026
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Diz aquele slogan da Copa que “tá liberado acreditar”. Tá liberado até acreditar que finalmente, depois de vários anos, o Muse lançou um disco realmente bom. The Wow! signal, inspirado pelo misterioso sinal de rádio captado em 1977 no observatório Big Ear, que até hoje entorta cabeças no que diz respeito ao contato com ETs, traz uma boa coleção de canções – e não uma série de enrolações musicais e líricas.
O Muse é uma banda bem estranha, apesar de bem pop. Surgiu na Inglaterra em 1994, mas tá longe de ser a cara dos anos 1990. O som de Matt Bellamy (vocal, guitarra e piano), Christopher Wolstenholme (baixo, voz secundária e teclado) e Dominic Howard (bateria) costuma ser definido como “rock progressivo”, mas tá mais para um pós-grunge esclarecido. Um rock alternativo (no conceito Billboard 200 de rock alternativo) com pinta rococó.
O som deles nada tem a ver com o Coldplay, mas a banda de hits como Viva la vida é um bom par para o Muse. Pelo menos no sentido de que são duas bandas preparadíssimas para eras bem loucas, como a loudness war dos anos 2000, o maximalismo pop-rocker dos anos 2010, as mudanças recentes nos conceitos de “rock de arena”, e vai por aí. E tem um lado Rush, digamos assim, no Muse. São dois trios com nomes curtos, cujas letras volta e meia dão contornos poéticos aos sonhos de qualquer tiozão do zap, ainda que isso não defina tudo a respeito das duas bandas.
Explicando melhor: teve a fase em que Neil Peart, baterista e letrista do Rush, curtia as ideias invidualistas de Ayn Rand, teórica adorada até hoje por um monte de políticos conservadores. Não foi uma fase duradoura e, anos depois, Neil já estava de saco cheio de ser visto como individualista radical e direitista. Matt Bellamy, do Muse, escreveu durante vários anos sobre temas como vigilância estatal, manipulação política, sociedades secretas, controle social – temas, aliás, bem ao gosto daquele seu parente alucinado que acreditava em vacina com chip e kit com cloroquina para prevenir covid.
Bellamy se define como esquerdista, já se disse um “ex-teórico da conspiração” e deve ficar bem irritado de ver gente tentando achar mensagens anti-vax em músicas do grupo – sim, tem gente que acha até hoje que Compliance, do disco Will of the people (2022) é sobre isso. The Wow! signal, por sua vez, vem na calma e na tranquilidade da ficção científica, e é herdeiro mais de Steven Spielberg do que de alguma alucinação de zap.
- Ouvimos: Bush – I beat loneliness
Eu disse “na calma e na tranquilidade”? Bom, é quase isso. The Wow! signal se esbalda numa fórmula musical que volta e meia lembra um ABBA + Ultravox + Queen alternativo, como em The dark forest, na qual se destacam cordas, uma guitarra em vibe metálica e um coral cerimonial e sombrio, e em Shimmering scars. Nightshift superstar une dance music, sons eletrônicos, baixo com slaps e um quê de nu metal. Essa onda de extravaganza rocker perpassa quase todo o disco, e invade Cryogen, além de sons entre Queen e U2 como Be with you, além da onda metal-prog de Hexagon e The sickness of you & I.
Já que falamos em Rush, tá lá Ellie Goulding meio que representando o que Aimee Mann representou pro trio de Geddy Lee no hit Time stand still, de 1987 – ela solta a voz na ótima Hush, tema quase indie pop para os padrões do Muse. Já Space debris encerra o disco em vibe de prog espacial e triste. Não custa falar que The Wow! signal, como acontece até em filmes de ficção científica, não fica só na cabecice. Tem um subtexto meio “romântico” em faixas como Hush, que propõe o silenciamento do mundo em troca de um “agora somos só você e eu”. Mas no geral, o novo do Muse traz uma banda veterana se apresentando como banda nova, e isso é o mais bacana.
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