Crítica
Ouvimos: Shura – “I got too sad for my friends”

RESUMO: Shura lança I got too sad for my friends, disco confessional e melancólico, com folk, soul e pop oitentista entrelaçados.
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Shura, nome artístico da inglesa Alexandra Denton, decidiu fazer de seu novo disco uma exposição bastante crua e real de como ela se sentiu no isolamento da pandemia. O álbum I got too sad for my friends é recheado de versos como “chorando no banco de trás de um táxi em Tóquio”, “pude ver dentro de apartamentos cheios de pessoas que eu sei que nunca conhecerei”, “eu fiquei muito deprimida perto dos meus amigos / foi lento, mas eles pararam de responder / então eu parei de falar”, “não sei por quanto tempo posso fingir / não quero ser a pior namorada do mundo”. Brabeira.
Se você por acaso não entender uma palavra de inglês, a audição de I got too sad vai ser para você um evento mais ameno. Musicalmente, Shura soa mais introspectiva do que puramente tristonha. Tokyo, a melô de pé-na-bunda de abertura, é uma canção melancólica com vibe asiática, Leonard Street é um soul minimalista cuja melodia tem algo de Beatles, Recognize é pop oitentista com cara de Tears For Fears e Bruce Hornsby.
- Ouvimos: Nectar Woode – It’s like I never left (EP)
- Ouvimos: Yeule – Evangelic girl is a gun
- Ouvimos: Helado Negro – Phasor
Por outro lado, há muito desencanto na letra e na melodia de Richardson, com participação de Cassandra Jenkins. America, por sua vez, lembra Paul Simon não apenas na estrutura, como também na narração crua de fatos (“ontem os tirar mataram um homem / e ninguém ficou surpreso”). Bad kid, com participação da nova countrywoman Becca Mancari, é uma balada folk triste e reclamona, com palavrões na letra – que tem versos inacreditáveis como “se eu morrer, pelo menos / eu não tenho que escolher uma camisa para vestir”.
Uma boa surpresa é If you don’t believe in love, com Helado Negro – folk com balanço soul e letra tristinha, lembrando James Taylor e Carole King. E enfim, I got too sad for my friends é a verdade (triste) de Alexandra nos últimos seis anos – uma verdade carregada de tristeza e beleza, com pouca ironia, e muita compreensão de que nunca sabemos quão pesada a vida pode ser.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Play It Again Sam
Lançamento: 30 de maio de 2025
Crítica
Ouvimos: Starly Kind – “Inferno (xe/xem)”

RESENHA: Starly Kind mistura lo-fi, screamo, pós-punk e psicodelia em Inferno (xe/xem), EP sombrio sobre angústia queer e demônios internos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: CorpoRAT Records
Lançamento: 8 de maio de 2026
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Musicista agênero do Oregon, Estados Unidos, que se radicou em São Paulo, Starly Lou Riggs criou a Starly Kind como veículo para uma música lo-fi e fantasmagórica. Um som que volta e meia ganha ares math rock, ou que se aproxima de um art rock em clima de pesadelo. Inferno (xe/xem) é um EP sobre demônios xamânicos, angústia existencial queer, dores acumuladas durante uma vida inteira – e sobre como é chamar o inferno de casa.
Starly kind, a faixa de abertura, é lo-fizaça, com glitches, clima dreamy e vocais torturados e gritados. Held me with soma a isso um clima mais ambient, em que vibrações screamo unem-se ao experimentalismo da música. Superanatural clutches fica entre a psicodelia e a no wave, com direito a uma guitarra próxima do som do Black Sabbath. Uma curiosidade e uma mudança de rumo vêm com Bloodlust rising, algo entre Beach Boys, Residents e Devo – seguida justamente pela onda reggae + dub + fantasmagoria de And the devil watched me dance in.
- Ouvimos: Delmore – Tão logo cada poste se ilumina
Demon dreams, que encerra o disco, é pós-punk mais do que tudo, e é a música mais bonita do EP – aliás lida com uma noção mais tranquila de “beleza” na melodia, ainda que também invista na vibe sombria das outras faixas. Um disco bem instigante, em todos os momentos.
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Crítica
Ouvimos: Duo Violeta – “Mar pequeno”

RESENHA: Duo Violeta mistura violão, escaleta e folk nordestino em Mar pequeno, disco contemplativo, viajante e cheio de imagens sonoras.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: The Citadel House
Lançamento: 22 de maio de 2026
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Se você for com muita sede ao pote no disco do Duo Violeta e chegar meio desavisado, pode acabar adorando o encontro do violão com a sanfona. Depois vai dar risada quando descobrir que André Sant’Anna e Rafael Campanaro, são na real, e respectivamente, o encontro da escaleta – teclado de sopro popularizadíssimo pelo reggae e pelo dub – com o violão. Mais que isso, as gravações tiveram vários testes de estúdio, que envolveram posicionamentos dos músicos, microfones diferentes e muitas experimentações sonoras.
- Ouvimos: Seera – Sarab (EP)
Mar pequeno tá bem longe de ser um disco experimental, mas passa perto. É um disco brasileiríssimo e quase sempre nordestino, que parece seguir o curso de um rio e contar uma história – já que as músicas parecem encadeadas e evocam imagens que soam do mesmo modo. Será marés, Na rede e O boto, no começo, são folk nordestino – sendo que a última insere clima sombrio e efeitos de tremolo na escaleta. Para a ilha é forró + jazz, mas tem algo de indie rock na sonoridade, até algo de Beatles no meio da melodia. Inverno no mar é balada, blues e folk, com final contemplativo e várias partes diferentes.
Esse clima de viagem sonora, que insere segmentos diferentes em canções curtas, chega no ápice na última faixa do álbum, Emergiu. Até lá, André e Rafael proporcionam surpresas como a melodia de À deriva, que chega a lembrar um soul no final. Ou a recriação da folclórica Peixe vivo, cujas linhas melódicas só se tornam claras lá pelas tantas. Ou o clima folk brasileiro de Náufrago. Um disco muito bonito.
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Crítica
Ouvimos: Soma Please – “Ballet” (EP)

RESENHA: Soma Please mistura synth pop, pós-punk e dream pop em Ballet, um EP que cruza Queen, U2, LCD Soundsystem e até samba indie.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Skud & Smarty
Lançamento: 14 de maio de 2026
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O Soma Please é um duo luso-britânico, formado pelos músicos Nuno Bracourt e Rob Williamson. Não chega a ser um som muito inovador, mas tem detalhes que conquistam de cara, já que Ballet, o EP, soa às vezes como um encontro entre estilos e épocas. Tipo o que rola com I’m a fan, entre o synth pop e uma onda que lembra o Queen, ou Love, um dream pop com peso. Pockets on my sleeves é pós-punk com alma oitentista, e algo de Radiohead e LCD Soundsystem misturado.
- Um tributo português a David Bowie
As duas últimas faixas do EP são as mais diferentonas do disco: Alone é um curioso pop meio samba, meio bossa, com cara indie e solar. What’s the score é mais ruidosa, abre com clima sombrio fake, e depois chega a lembrar um blues rock eletrônico. Ballet é um pequeno apanhado do som deles, e uma demonstração de sonoridades que estão no arquivo deles.
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