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Cinema

Sambalanço na telinha

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Você sabe o que é sambalanço? Relaxe: até mesmo as maiores cabeças do movimento não tinham tanta ideia do que era esse estilo musical, que fazia sucesso quando Ed Lincoln era rei dos bailes, e artistas como Silvio Cesar e Orlandivo vendiam discos a rodo. E que foi comandado por músicos competentes que era também bons de humor (Paulo Silvino, pra você ver, fez parte da turma) e botavam todo mundo para dançar.

O estilo, que surgiu nos anos 1960 como uma espécie de outro lado da bossa nova, menos intelectualizado, mais agregador e dançante, ganhou em 2019 o filme Sambalanço, a bossa que dança, de Fabiano Maciel e Tárik de Souza, que já foi exibido no festival In-Edit e chega nesta quarta (19) ao Canal Brasil, às 20h – com reexibições na quinta (20), às 16h55, sexta (21), às 15h20, e segunda (24), às 13h40. Em seguida, ele entra na Globoplay.

O filme foi feito ao mesmo tempo em que Tárik escrevia Sambalanço – A bossa que dança: Um mosaico, lançado em 2016 pela editora Kuarup, mas acabou atrasando. E traz, além das entrevistas com vários nomes do estilo, um material raríssimo: trechos da série de shows organizada pelo músico e historiador Henrique Cazes no Centro Cultural Banco do Brasil em 2003, com uma verdadeira mega-liga da bossa dançante (Orlandivo, Ed Lincoln, Durval Ferreira, Wilson das Neves e muitos outros).

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Com raras exceções, vários desses artistas já não estão mais vivos, o que torna o material mais emocionante ainda. “A ideia do filme é difundir e delimitar o movimento, fazer com que as pessoas saibam o que aconteceu, quando foi, quem fez o que”, conta Tárik de Souza, roteirista do filme, que bateu um papo com a gente.

POP FANTASMA: Logo na abertura, o Eumir Deodato (um dos criadores do estilo) fica com certa dúvida e até certa desconfiança quando você fala com ele do sambalanço. Como você viu essa reação dele, e por que você escolheu justamente essa fala para começar?
TÁRIK DE SOUZA: Aquela fala é muito significativa porque quase ninguém sabe o que é sambalanço. Foi um movimento que não foi movimento, que não chegou a ser caracterizado assim. Como era uma música dançante, não era uma coisa conceitual, ele aconteceu paralelo a bossa nova, com alguns músicos da bossa tocando nos dois movimentos. Como o Durval Ferreira, que foi o “quarto mosqueteiro” do Tamba Trio, e ao mesmo tempo ele tocava com Ed Lincoln.

O Ed quando começou foi baixista do Luiz Eça, o Luiz tinha um trio no Plaza que era ele no piano, o Ed no contrabaixo e o Paulo Ney na guitarra. Era um trio sem bateria. Então o Eumir Deodato, por incrível que pareça, era um cara tipicamente da bossa nova, um super arranjador, um músico sofisticadíssimo, um pianista incrível… Mas ele fez três ou quatro discos chamados Os Catedráticos, nos quais ele tocava órgão e tocava exatamente no estilo do Ed Lincoln, porque ele queria fazer aquele tipo de balanço.

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O cara da gravadora Equipe chamou o Ed porque ele estava fazendo muito sucesso. Pra você ter uma ideia, naquela época, quem mandava nas festinhas era o Ray Conniff, que tocava aquela música padronizada. E de repente o Ed Lincoln estourou e começou a tocar nas festas. Conseguiu fazer um tipo de samba embalado, eletrônico, com órgão Hammond, e conseguiu sucesso popular. Aliás ele, Miltinho, Elza Soares…

Então, o sambalanço teve esse sucesso incrível mas nunca foi conceituado. Por isso fiz essa pergunta pro Eumir e ele não soube responder. E ele fez parte do sambalanço!

A crítica não viu muito o que aconteceu no movimento, certo? Exatamente. Tem muitas coisas que vão acontecendo que a crítica não se interessa. Por exemplo, a toada moderna, que foi uma coisa que aconteceu na mesma época da pilantragem. Ela foi uma espécie de pilantragem da turma da MPB. Tem alguns movimentos que acontecem e as pessoas não prestam atenção. Mas o sambalanço não foi nada pequeno, porque ele começa no início dos anos 1950 e vai até meados dos anos 1960. E com muita gente envolvida. E eu fiquei muito contente quando encontrei uma contracapa de disco em que o Haroldo Barbosa conceitua o sambalanço. Coloquei isso na abertura do meu livro.

Um dos poucos caras que conceituaram o sambalanço também foi o Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, porque ele era crítico de música. E ele era sobrinho do Lucio Rangel, que foi um dos pioneiros da crítica musical. E ele era ortodoxo, como o Lucio Rangel também: não gostava da bossa nova. O Lucio não gostava da bossa nova, embora fosse amigo do Vinicius de Moraes e o tivesse apresentado ao Tom Jobim. Ele gostava mesmo era do samba tradicional.

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E o que aconteceu? O Sergio Porto fez as duas contracapas dos dois primeiros discos do Silvio Cesar. Ele gostou muito do Silvio porque era um samba diferente mas não era bossa nova. Então na contracapa ele fala isso: “O Silvio Cesar sambalança na música tal, me desculpe o neologismo”. O Sergio Porto foi um dos criadores desse termo, que muita gente chama de balanço. Tanto que tem aquela música do Roberto e Erasmo Carlos, Toque balanço moço. Muita gente chamava esse movimento de balanço, embora o nome tenha sido usado pela bossa nova, desde Garota de Ipanema, ou em Balanço Zona Sul, que o Tito Madi fez…

Que o Wilson Simonal gravou… Isso, mas em Garota de Ipanema também, “o seu balançado é maior que um poema”, “o doce balanço a caminho do mar”. Mas só que o sambalanço é uma coisa à parte. Eu justamente quis fazer essa separação, quis conceituar isso e fiz inicialmente um ensaio para a revista da USP. Eles gostaram muito porque nunca ninguém tinha falado desse assunto. Resolvi desenvolver, fazer um livro e com o Fabiano resolvemos fazer um filme. Só que o filme demorou pra caramba, era para sair junto com o livro. Estão interligados, tem algumas entrevistas que estão no livro e estão no filme.

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O filme dá esse aspecto de documento, até por apresentar um trecho de show do Ed Lincoln no CCBB em 2003, com vários artistas. Vários dos músicos que estão lá já morreram, inclusive… Elza Soares ainda tá aí, tem alguns que estão aí. Mas o Ed Lincoln, aquele show dele, é uma raridade absoluta. Porque ele não fazia show em teatro, só em baile. Ele não fazia show pra classe média ouvir, pro cara ficar sentado ouvindo. O show dele era rigorosamente dançante, daí o nome Sambalanço – A bossa que dança. O Henrique Cazes fez uma série no CCBB onde ele justamente pegou o sambalanço e colocou no palco. E pela primeira vez o Ed Lincoln tocou num teatro. Aliás primeira e última, porque o Ed já estava muito doente.

E o sambalanço unia a cidade, ele era tocado na Zona Sul, na Zona Norte. O Túnel Rebouças foi inaugurado em 1962 e antes disso já tinha o sambalanço promovendo essa união, certo? Sim. O Ed Lincoln tocava muito no clube Mackenzie, no Méier. O pessoal ia muito pra Zona Norte, tinha muitos bailes na Zona Norte com o sambalanço. E o Miltinho foi no começo dos anos 1960 uma espécie de Roberto Carlos da época, porque tudo que ele gravava ia para as paradas de sucesso. É claro que nem tudo que ele gravou era sambalanço. Ele gravou também sambas-canções, canções mais lentas. mas quando ele gravou sambalanço, tudo que ele gravou estourou. E a Elza Soares também. A Elza apareceu em 1959, Miltinho também no fim dos anos 1950.

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O sambalanço tinha também muito humor, tanto que tinha o Paulo Silvino como um dos participantes, o João Roberto Kelly. Isso ajudou a popularizar o estilo? Isso é interessante e eu fiz questão de colocar no filme e no livro: tem uma música do Orlandivo que é conceituadora do estilo dele. Ele fala: “Eu faço samba pra brincar”. É um contraste com a bossa nova, que fazia um samba sério, que o cara sentava pra ouvir, aquela coisa toda. Eles não, eles faziam um samba brincante, dançante, com muito molho e tal, e foram pioneiros na utilização de instrumentos eletrônicos no samba. O órgão Hammond, o Solovox, que era um pré-sintetizador, fazia várias vozes, vários sons… O Djalma Ferreira, que foi o primeiro cara do sambalanço, gravou uma música chamada Bicharada, onde ele imita o sons de vários bichos latindo, cacarejando, e tudo tirado do Solovox.

Tem um negócio interessante que infelizmente não entrou no filme, mas tá no livro: o Lafayette, que era o principal organista da jovem guarda, era fanático pelo Ed Lincoln. Quando o Lafayette estourou com gravações do Roberto, Não quero ver você triste, aquelas músicas todas, o Evandro falou pra ele: “Olha, você pode fazer um disco solo com seu nome”. O primeiro que ele fez foi um disco de sambalanço. Ele inclusive foi ao Durval Ferreira pedir uma música e Roberto e Erasmo fizeram para ele a música Toque balanço, moço. E tem também o Celso Murilo, o cara que veio na sucessão do Ed Lincoln. Todo mundo que tocava órgão nessa época, veio nesse estilo de fazer o samba no órgão. De usar o órgão como instrumento percussivo também.

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Um detalhe é que na época você não tinha nem gravadoras multinacionais fortes no mercado, e esse movimento foi forte nas gravadoras independentes, não? É, exatamente. Na discografia do meu livro você vai ver que são selos pequenos, como o Paval. Um dos primeiros discos do Celso Murilo que saiu pela Paval, Uma noite no Drink, o crooner era um tal de Wilson Simonal! Ele tava começando e gravou sambalanço. Era uma mistura, a bossa e o sambalanço estão muito integradas. O sambalanço ainda tinha a característica da coisa caribenha, a percussão caribenha. Tem nomes como Rubens Bassini, Jorge Arena…

E tem o Jadir de Castro, excelente baterista que criou duas composições que tocaram no mundo inteiro, e nós conseguimos entrevistá-lo de maneira terrível. Ele estava muito mal de saúde, muito mal mesmo. Quando ele chegou para a entrevista no Beco das Garrafas, vi que ele estava muito mal. Ficamos em dúvida se ele ia conseguir fazer a entrevista. Mas fizemos a entrevista e ele morreu dez dias depois! Um grande músico, grande baterista, que introduziu muitas coisas diferentes na bateria, e que participou do primeiro filme da Brigitte Bardot, E deus criou a mulher. São coisas que vão passando e as pessoas não prestam atenção.

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O que ficou dessa onda do sambalanço depois? O Ed Lincoln ainda gravou por alguns anos, até na CID. Que aliás virou uma gravadora desse pessoal, o Durval Ferreira trabalhou lá… O Ed Lincoln criou um selo, o De Savoya. Aliás, alguns dos primeiros discos do sambalanço foram lançados em selos independentes criados pelo próprio pessoal do sambalanço. Como o selo Drink, do Djalma Ferreira, e o selo Arpége, do Waldir Calmon, que foi também um cara do estilo e foi um cara importante do órgão e do solovox. Teve muita gente que mexeu nessa área do sambalanço, foi um grande laboratório que aconteceu paralelo à bossa nova e as pessoas não prestaram muita atenção, porque a bossa nova era feita por intelectuais, tinha mais espaço na mídia.

Era uma coisa mais conceitual, você vê que tinham 500 músicas da bossa nova falando o que é bossa nova. As próprias letras discutem o que é bossa nova. Teve um debate dentro da bossa a respeito de questões políticas. O sambalanço nao tinha nada disso, era uma coisa dançante, despreocupada. O Desafinado do sambalanço era uma música chamada Miss Balanço, do Helton Menezes, que era um compositor misterioso. Essa música abre o filme. Foi dificílimo levantar coisas sobre ele. Muita gente faz confusão com o Elton Medeiros.

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A ideia do filme é difundir e delimitar o movimento, fazer com que as pessoas saibam o que aconteceu, quando foi, quem fez o que. Até o Garrincha fez uma música para a Elza Soares sobre balanço! Foi gravada pela Elza Soares. Carlos Imperial fez sambalanço, até o Geraldo Filme, compositor de samba paulista, superortodoxo, fez. Jackson do Pandeiro também. É um negócio incrível.

Por que houve o esquecimento do balanço? Ele teve o ciclo dele, como a bossa nova teve o ciclo dela. A bossa nova em meados da década de 1960 no Brasil, morreu. Continuou forte no exterior e até hoje ela é forte no Japão, por exemplo. Mas no Brasil ela morreu por volta de 1965, 1966, embora o Tom Jobim tenha gravado o disco dele com o Frank Sinatra em 1967. Quando ele gravou com Sinatra, a bossa no Brasil já era considerado passado.

Mas pra você ter uma ideia de até onde chegou o sambalanço, a Roberta Sá gravou com Marcelo D2 Samba do balanço de Haroldo Barbosa e Luis Reis. Ele chegou até o rap! Ele foi contrabandeado pros EUA junto com a bossa. Então gravaram algumas composições do Djalma Ferreira do Ed Lincoln no exterior. Vi um filme do Woody Allen há pouco tempo que tinha uma música do Djalma Ferreira (Scoop – O grande furo, com Recado na trilha). O filme do Pelé que está na Netflix termina com uma música do Orlandivo e do Djalma Ferreira.

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Biopics de música que deram (muito) problema: descubra agora!

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Biopics de música que deram (muito) problema: descubra agora!

É melhor assistir à cinebiografia de um artista morto do que assistir a um show com holograma do falecido – ou uma apresentação-tributo ao pranteado. Ok, é apenas uma constatação óbvia, mas serve para justificar a atenção que o mercado de cultura dá às biopics. Especialmente quando o personagem principal é alguém que já não está mais aqui e não tem como engordar seu orçamento e o de seus familiares fazendo mais shows.

Para justificar mais e melhor ainda, só vendo o dinheiro que as cinebios movimentam. Bob Marley: One love, que conta a história do rei do reggae, já está no cinemas desde 14 de fevereiro, e já arrecadou 123 milhões de dólares – quase o dobro dos 70 milhões investidos. Aliás, foram coletados 80 milhões de dólares pouco após a primeira semana, o que faz do filme a segunda estreia de cinebiografia musical mais bem sucedida da história do cinema, abaixo apenas de Bohemian Rhapsody, sobre o Queen (fonte: O Farol).

Enquanto você espera pelas próximas cinebios (uma lista que inclui filmes sobre os quatro beatles, sobre Amy Winehouse e até um filme ainda sem data e elenco sobre Rita Lee), confira aí o outro lado dos biopics em sete exemplos: filmes que geraram críticas negativas, que arrumaram problemas com parentes e amigos dos artistas enfocados, e coisas do tipo.

STARDUST (dirigida por Gabriel Range, 2020). Praticamente ninguém gostou de verdade dessa confusa biopic de David Bowie (epa, numa das raras resenhas de filmes que publicamos, vimos um monte de qualidades nela). O filme acompanha a ida de Bowie aos Estados Unidos em 1971, avisado pela filial norte-americana do selo Mercury de que havia interesse lá por seu disco The man who sold the world. E também narra o nascimento do personagem Ziggy Stardust.

Stardust dá uma dramatizada básica na situação. Ao contrário do que aparece lá, a ida de Bowie aos EUA até que teve lá seus frutos e ele não estava tão desenturmado assim quando resolveu viajar – e olha que. em alguns momentos, o filme rola quase na linha do “um cantor inglês atrapalhado vai pros EUA tentar a sorte e arruma altas confusões”. Mas não custa dizer que a atuação de Johnny Flynn, que interpreta Bowie, foi bastante criticada, e que o filme não traz nenhuma música do cantor (já que o espólio de Bowie não deu autorização), o que foi mais criticado ainda.

THE DOORS: O FILME (dirigido por Oliver Stone, 1991). A biopic de Jim Morrison, com participação de seu grupo, deixou marcas no mercado da música: a discografia da banda voltou a vender como nunca, muitas pessoas que nem sequer eram nascidas quando Jim morreu descobriram seu trabalho. No Brasil a biografia de Jim, Ninguém sai vivo daqui, de Daniel Sugerman e Jerry Hopkins, virou figurinha fácil em livrarias – ainda que tivesse que ser importada de Portugal, na edição da Assírio & Alvim.

Em termos de arrecadação (34,4 milhões de dólares), The Doors: o filme não foi nenhuma maravilha, ultrapassando não lá muito os gastos (32 milhões). Val Kilmer, interpretando Morrison, foi elogiado. Mas a recepção em geral foi bem mediana. Fãs e pesquisadores reclamaram das imprecisões históricas (detalhes pequenos e importantes, como a roupa que Jim vestia ao apresentar Light my fire no Ed Sullivan Show). Ray Manzarek, tecladista dos Doors, disse que “o cara sensível que eu conheci não estava no filme”, chamou o Jim de Oliver Stone de “psicopata à solta”, e reclamou que o filme apresentava os outros Doors como camaradas que o cantor relegava à aba de seu chapéu. E mesmo integrantes do grupo que toparam dar consultoria afirmavam que Oliver Stone tirou tudo de sua própria cabeça e ignorou as colaborações deles. Discussões sobre a qualidade de The Doors: o filme costumam varar a noite até hoje, enfim.

THE RUNAWAYS (dirigido por Floria Sigismondi, 2010). A visão original de Floria sobre a cinebiografia das Runaways é que não deveria ser uma biopic comum, mas um filme no estilo coming of age, mostrando a idade adulta chegando, as pessoas tomando atitudes, lidando com o crescimento da maneira que podem. Foi elogiado pela crítica, mas teve lá sua dose de problemas. Mesmo tendo sido baseado no livro de memórias da vocalista Cherie Currie, a cantora disse que que o filme “é a versão deles da história”. E ainda que tivesse atuado como produtora executiva do filme, a guitarrista Joan Jett não gostou de ver que The Runaways acabou mais centrado na vocalista. “É uma narrativa paralela das Runaways”, disse à Interview Magazine.

PISTOL (dirigida por Danny Boyle, 2022). Você duvidava de que um produto biográfico feito sobre os Sex Pistols provocaria o ódio do vocalista Johnny Rotten? Pistol, série de seis episódios produzida para o canal FX, foi chamada pelo ex-cantor da banda (mais conhecido hoje como John Lydon) de “a merda mais desrespeitosa que tive que suportar”. Por acaso, o texto da série foi baseado em Lonely boy, biografia do guitarrista Steve Jones, o que aumentou a irritação.

“Eles chegaram ao ponto de contratar um ator (Anson Boon) para me interpretar, mas no que esse ator está trabalhando? Certamente não é meu personagem. Não pode ir para outro lugar a não ser o tribunal”, contou na época. Danny Boyle disse que tentou contactar Lydon mas o roqueiro não quis falar com ele. O site Complete Music Update teceu bons argumentos em defesa do filme dizendo que “Boon pode obter material ou insights dos mais de 40 anos de carreira pública de Lydon, com vários documentários e três autobiografias. Não é como se Lydon tivesse mantido segredo”. E toda a banda, incluindo o ex-baixista Glen Matlock, brigou para que a música dos Pistols aparecesse no filme – e conseguiu.

CAZUZA – O TEMPO NÃO PARA (dirigida por Sandra Werneck e Walter Carvalho, 2004). A cinebiografia de Cazuza foi lançada com destaque e fez sucesso. Mas teve lá sua (boa) dose de controvérsia. Ney Matogrosso, que teve um relacionamento com o cantor, não gostou nem um pouco de não ter aparecido no filme (segundo Ney, “depois me disseram que eu era um personagem tão grande que não cabia no filme”). Lobão afirmou que a abertura deveria ter sido a cena que ele narrou em algumas entrevistas, com Cazuza e ele cheirando uma carreira de cocaína sobre o caixão de Julio Barroso (Gang 90).

Já Roberto Frejat reclamou, durante uma entrevista ao jornal O Dia em 2010, que jamais disse a Cazuza que o Barão Vermelho não tocava samba, como aparece numa cena. “Colocaram isso na minha boca, justo eu que sempre dividi o gosto pelo samba com o Cazuza”, contou, deixando claro que era “a única coisa que me incomodava no filme”.

NINA (dirigida por Cynthia Mort, 2016). O ataque a essa biopic da cantora e ativista Nina Simone foi tão imenso e tão traumático que a própria atriz que interpretou Nina, Zoe Saldana (a Gamora do Guardiões da Galáxia) chegou a afirmar que “nunca deveria tê-la interpretado” e que “ela merecia coisa melhor”. O espólio de Nina levou em consideração que a atriz, de ascendência afro-latina, tem pele mais clara e traços bem diferentes dos da cantora. A família não gostou do roteiro e classificou várias passagens como mentirosas – houve consternação especial com a exibição de um relacionamento amoroso entre ela e seu agente, Clifton Henderson (“isso nunca aconteceu”, disse afilha de Nina, Lisa Simone Kelly).

Para tornar tudo mais tenso, chegou a ser publicado um tweet na conta oficial de Nina pedindo à atriz que tirasse “o nome de Nina da boca pelo resto da vida”. Lisa defendeu Zoe (“está claro que ela deu o seu melhor para este projeto”), mas apontou o dedo para a diretora, Cynthia Mort, que seria responsável pelas “mentiras” do filme. Já Cynthia entrou na justiça alegando que sua ideia original foi sequestrada pelos produtores e que ela mesma não decidiu nada.

JOHNNY & JUNE (James Mangold, 2005). Dificilmente filhos de biografados curtem ver como ficaram as histórias de seus pais na tela. Fácil de entender: situações altamente traumáticas (como violências físicas, ausências, porrancas, prisões, traições e demais dissabores familiares) são geralmente colocadas numa fórmula de roteiro hollywoodiano. Muitas vezes, uma “fábula do herói” que quase nunca permite emoções mistas e visões particulares.

O filme que retrata o relacionamento dos cantores country Johnny Cash e June Carter foi elogiado e rendeu uma baita grana. Mas causou tristeza nas filhas de Johnny com sua primeira esposa, Vivian Distin. Walk the line (nome original do filme) mostra June Carter como a grande salvadora da vida do errático Johnny, e exibe Vivian, interpretada por Ginnifer Goodwin, como uma dona de casa histérica que só tirava Cash do sério.

Em 2020, as quatro filhas do casal Johnny e Vivian colaboraram com o documentário My darling Vivian, que escarafunchava o baú da família e mostrava, com farta documentação, que a primeira esposa não apenas era grande incentivadora da carreira do ex-marido, como também havia comido o pão que o diabo amassou com ele. Descendente de italianos, irlandeses e africanos, Vivian foi perseguida por supremacistas brancos quando estava casada com Cash. No dia a dia, desempenhava o papel da esposa que, enquanto o marido dava shows, cuidava dos filhos e da casa (uma propriedade isolada no topo de uma colina, onde volta e meia apareciam cascavéis, das quais ela mesma precisava se livrar). Um caso de filme polêmico que acabou gerando outro filme, enfim.

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Gaiola da Morte: o primeiro (e único) filme de kickboxers made in Brazil

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Gaiola da Morte: o primeiro (e único) filme de kickboxers made in Brazil

Se você era adolescente no final dos anos 1980, quando as videolocadoras se alastraram pelo Brasil afora e se tornaram uma verdadeira febre, você há de lembrar de pelo menos um filme com a palavra “kickboxer” no título: Graças ao sucesso no Brasil de Kickboxer – O desafio do dragão, um dos trabalhos mais famosos do Jean Claude Van Damme por aqui, as distribuidoras enxergaram ali uma galinha dos ovos de ouro e saíram colocando “kickboxer” em tudo quanto fosse possível, espremendo a laranja até o bagaço (com o perdão da metáfora hortifrutigranjeira)

E mesmo películas que não tinham nada a ver com o assunto ganharam títulos escalafobéticos como por exemplo American Ninja 4 (série que fazia razoável sucesso por aqui), que foi lançado nos cinemas e em VHS como O grande kickboxer americano – A aniquilação dos ninjas (!!!) ou a divertida série Operação Condor estrelada pelo Jackie Chan, que era uma espécie de versão bem humorada do Indiana Jones e que aqui se tornou Um kickboxer muito louco. Mas o que pouquíssima gente lembra é que até o Brasil tentou entrar nessa onda, com o obscuro A gaiola da morte (1992).

Quem teve a ideia foi Fauzi Mansur, produtor e diretor de diversas pornochanchadas sem noção na mítica Boca do Lixo, mas que, com a decadência de lá, se viu obrigado a atirar pra todos os lados na tentativa de ganhar uma sobrevida. Primeiro partiu pros filmes de sexo explícito, o que não deu muito certo porque, com o advento do VHS, o pessoal passou a preferir ver sacanagem na privacidade do seu lar. Percebendo que havia errado no timing, dirigiu um filme de terror em inglês para o mercado exterior chamado Ritual of death que também não deu em nada. Já bastante preocupado tanto com a saúde financeira quanto com a falta de perspectivas para o cinema nacional (Collor assumiu e extinguiu a Embrafilme), tentou sua última cartada aproveitando o filão do momento, produzindo um filme de pancadaria.

Para o papel principal, foi chamado Paulo Zorello, que na época era tricampeão mundial de kickboxing pela WAKO (World Association of Kickboxing Organization). OK, ele não tinha nem metade da fama e do reconhecimento que um Anderson Silva ou Vitor Belfort têm hoje em dia, mas era respeitado no meio e volta e meia era capa e/ou dava entrevistas em publicações voltadas às artes marciais. Esse foi seu único trabalho como ator e, assistindo A gaiola da morte é fácil entender o porquê, já que ele era tão expressivo quanto um poste, mas isso não vem ao caso; afinal, era um filme de artes marciais e nisso ele se garantia muito bem.

No elenco temos ainda várias pessoas que quase ninguém se lembra e. como maior “estrela”, Ênio Andrade, que se notabilizou por participar de obras como O olho mágico do amor e Onda nova (filme esse que viralizou no Youtube graças a uma cena onde uma mulher chega para o ex-jogador Casagrande e solta a pérola “eu sou virgem e queria que você me descabaçasse”). Na direção, foi escalado Waldir Kopesky, e isso pra mim beira o incompreensível, haja vista que tudo que ele dirigiu antes foram filmes pornôs de títulos como A noite do troca-troca e Minha égua favorita. Algo assim tinha tudo para não dar certo… e foi o que aconteceu.

O roteiro praticamente inexiste: um certo professor Yago sequestra lutadores de artes marciais dos quatro cantos do Brasil para gravar lutas numa gaiola (daí o nome, dããã!) repletas de armadilhas onde, como diria o Master Blaster em Mad Max 3, “dois homens entram e um homem sai”. Depois ele lucrava vendendo cópias das fitas no mercado negro. Desesperada com o sumiço de seu irmão, que foi raptado pelo tal Yago, uma mulher (interpretada pela atriz Claudia Abujamra) vai na academia do Paulo Zorello e pede ajuda a ele (não, você não leu errado; Paulo interpreta a si mesmo!) para descobrir o que houve.

Aposto que você que está lendo essas mal redigidas linhas e consumia filmes de artes marciais nos anos 1990 deve ter achado essa sinopse familiar, não é mesmo? Acredite, há uma razão para isso: Ela é um plágio descarado de O rei dos kickboxers, filme de 1990 que fez um enorme sucesso nos cinemas brasileiros. A única diferença é que na versão americana era um policial quem ajudava a irmã da vítima; já aqui, tudo parece ser um veículo para tentar transformar Paulo Zorello numa espécie de Van Damme tupiniquim.

Nesse momento você amigo(a) leitor(a) deve estar se indagando “tá, mas e a pancadaria? Funciona?” e eu, com muito boa vontade, vou dizer que sim, embora A gaiola da morte tenha defeitos tão gritantes que às vezes tenhamos que fechar um olho pra conseguir relevar. Os cenários são paupérrimos (parecem saídos do Chapolim ou do Chaves) e os efeitos sonoros, exageradíssimos (Os socos soam como tiros e os chutes parecem chicotadas) Porém, quando o assunto é a porrada propriamente dita, a coisa não deixa nada a dever para seus co-irmãos da época. Zorello, embora seja um desastre atuando, sabia muito bem o que estava fazendo na hora de distribuir sopapos e, quando o bicho pega, ele não faz feio.

A coreografia das sequencias parece um pouco desengonçada, mas se pararmos para pensar que ninguém envolvido na produção tinha experiência anterior com filmes do gênero, até que não está tão mal. E os últimos 30 minutos são simplesmente inacreditáveis, um verdadeiro festival de sopapo para tudo quanto é lado com direito até a um capoeirista que consegue desviar de tiros (!!!!) É insano demais, e, por isso mesmo, hilário!! É ver para crer!!

A lamentar, somente o fato de essa obra ter sido esquecida da maneira que foi. Além de ter passado em poucos cinemas, ainda foi lançado em VHS por uma empresa bastante obscura chamada Key Art e, se mesmo nos anos 1990, era difícil pra caramba encontrá-lo nas videolocadoras, imagina só achar um exemplar dando sopa por aí hoje em dia…para piorar, também nunca saiu em DVD, entretanto uma alma caridosa resolveu colocá-lo na íntegra no Youtube. A cópia não está das melhores, mas quem se importa? Vale mesmo assim como registro de uma época em que o cinema nacional não tinha lá muitos recursos e mesmo assim não tinha medo de ousar!

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Jane Birkin, atriz britânica

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Jane Birkin, atriz britânica

Vai que alguém esqueceu, mas a já saudosa Jane Birkin, apesar de ter sido popularizada por causa de sua relação com a música e a cultura da França, era uma atriz inglesa. Veio de Londres, era uma figura ligada à swinging London sessentista, e nem sabia falar francês quando apareceu em Slogan, comédia romântica de 1969 na qual contracenou com Serge Gainsbourg, que passou a namorar. Teve duas horas pra aprender o básico do idioma e, quando estava esperando para fazer o teste, bateu aquela crise. “Ouvi outra atriz dizendo todas as linhas do roteiro lindamente, e pensei: ‘Ela é perfeita’. A atriz era Marisa Berenson. Mas (o diretor) Pierre Gimblat me quis para o papel”, contou.

Seu irmão Andrew Birkin era outra figurinha proeminente da mesma turma londrina, como diretor e roteirista de cinema. Em 2014 Andrew lançou o livro de memórias fotográficas POV: A life in pictures, relembrando como foi conviver com uma gama de famosos que incluía dos Beatles (foi assistente de direção do famigerado telefilme Magical mystery tour) a Walt Disney (Andrew migrou para Hollywood em 1964 e teve contato com o pai do Mickey Mouse).

No livro e em entrevistas, Andrew documentou, entre outras coisas, o começo do relacionamento entre a irmã Jane e o autor de trilhas de filmes John Barry, “contra o conselho combinado de familiares e amigos em comum que consideravam John um compositor brilhante – e um péssimo marido”, afirmou Andrew. Anos depois, Jane disse que topou fazer uma cena de nu frontal no filme Blow up – Depois daquele beijo, de Michelangelo Antonioni, justamente por causa de Barry, que havia falado pra ela que ela não teria coragem de fazer isso. “Me ofereceram um papel em Blow Up e ele disse que eu não teria coragem de ficar nua, então pensei: ‘Bem, eu vou fazer e isso vai deixá-lo animado”, contou ao Daily Mail.

E, bom Blow up foi um dos filmes que Jane fez naquilo que, forçando um pouco… Aliás forçando muito, mas a gente faz isso às vezes, dá pra chamar de fase psicodélica da carreira cinematográfica dela. Eram filmes que se aproximavam bem mais de uma linguagem revolucionária, artística e pop – que gerou filhotes como Chelsea girls, de Andy Warhol, e Performance, de Donald Cammel e Nicholas Roeg, com Mick Jagger. Uma fase que estava bem longe de ser a mais gloriosa da carreira dela, já que Jane seguia aquele mesmo esquema de atores iniciantes: poucas cenas, personagens que pouco apareciam e nome que nem aparecia no elenco.

Começou com a comédia Lições de sedução (1965), dirigida por Richard Lester, que fez os filmes dos Beatles. Era a história de Colin (Michael Crawford), um professor meio esquisitão que quer aprender a conquistar garotas. Barry fez a trilha sonora, mas a personagem de Jane aparecia pouco e nem sequer tinha um nome. Seguiu com The idol, filme de 1966, dirigido pelo canadense Daniel Petrie, que narra uma história bem dramática envolvendo estudantes de arte e a vida burguesa e boêmia de Londres nos anos 1960. Esse filme tá inteirinho no YouTube. Procura Jane aí.

Kaleidoscope, filme de 1966 dirigido por Jack Smight, tinha Warren Beatty e Susannah York nos papeis principais e contava uma história mais proxima do universo dos anti-heróis da nova Hollywood do que do dia a dia da psicodelia britânica, envolvendo mesas adulteradas de cassinos e traficantes de drogas. Jane Birkin, ainda em clima de total início de carreira, aparece bem pouco no filme, lá pela uma hora de duração, como uma moça chamada Exquisite Thing, que é cliente de uma butique jovem sessentista, que pertence à personagem de Susanna York. Uma outra novidade é que ela aparece contracenando com Pattie Boyd, modelo, atriz e então esposa do beatle George Harrison, numa cena rápida – Pattie é uma das vendedoras e o personagem dela nem tem um nome.

1966 foi também o ano de Blow up, de Michelangelo Antonioni, um filme tão redefinidor e tão ligado ao rock e a à cultura pop da época que merecia um texto só pra ele. Não foi um momento tão glorioso assim do comecinho de Jane, que apareceu numa cena de nu frontal e mais nada – mas tornou o nome dela bastante discutido por causa da, digamos assim, ousadia. Agora, o melhor viria depois com Wonderwall, filme de1968, dirigido pelo norte-americano Joe Massot, baseado na paixão e no voyeurismo do nerd cientista Oscar Collins (Jack McGowran), vizinho da modelo Penny Lane (Jane Birkin, aí sim com um papel bacana). A trilha sonora do filme também se tornou ilustre: foi o primeiro disco solo de George Harrison (Wonderwall music) e foi igualmente o primeiro álbum lançado pela Apple, gravadora dos Beatles.

E Wonderwall também está inteirinho no YouTube. Pega aí. Depois disso, Jane teria papéis melhores, participaria de produções divididas entre dois, três países (o ousado La piscine, de 1969, era franco-italiano, e trazia a atriz contracenando com Alain Delon e Romy Schneider). E faria sucesso como cantora. Saudades dela.

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