Lançamentos
Radar: Ain’t, Phantom Wave, Haim, Magdalena Bay, Sonora

Atrasamos um pouco com o Radar internacional de hoje, mas chegou a tempo de avisar que o Magdalena Bay não para e já lançou outro single duplo. Que o Ain’t acaba de lançar um single de seis minutos de ruído. Que saiu versão deluxe de I quit, do Haim. E também apresentamos o som do Phantom Wave e do Sonora. Ouça e passe adiante!
Texto: Ricardo Schott – Foto (Ain’t): Marieke Macklon/Divulgação
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AIN’T, “LONG SHORT ROUND”. Banda indie vinda do Sul de Londres, o Ain’t acaba de unir noise rock e climas herdados tanto do rock novaiorquino quanto do Midwest emo em seu novo single, Long short round. São seis minutos de vocais entre o blasé e o dramático, guitarras ruidosas, desacelerações rítmicas, e de uma letra sobre “fazer pequenos rituais que parecem fazer algo bom, mas são completamente inúteis quando se trata de conseguir o que você espera. Apertar um hematoma, por exemplo, é uma sensação maravilhosa, mas não acelera a recuperação”, como diz a banda. Ali Chant (Dry Cleaning, Yard Act, Sorry) cuidou da produção e da engenharia de som. Tem clipe – veja abaixo.
PHANTOM WAVE, “ECHOES UNKNOWN”. Banda guitar rock do Brooklyn, Nova York, o Phantom Wave acaba de lançar seu terceiro álbum pelo selo Shore Dive, Echoes unknown. O som deles é bastante demarcado por referências britânicas dos anos 1980 e 1990, incluindo vocais mais melódicos e em tom mais alto, sobressaindo no meio das guitarras – o que torna o som deles bem mais próximo do pré-britpop e da música de Manchester e arredores. É uma banda que “vive na diferença entre impulso propulsivo e fluidez radiante”, como eles próprios afirmam.
HAIM, “TIE YOU DOWN” / “THE STORY OF US” / “EVEN THE BAD TIMES”. E aí, já viu que as Haim lançaram uma versão deluxe do seu aguardadíssimo álbum I quit (resenhado pela gente aqui)? Saiu hoje, com mais três faixas. Uma delas, Tie you down, uma balada soft-rock anos 80 gravada ao lado de Bon Iver, já estava rolando há alguns dias. Dessa vez saem The story of us (nada a ver com a música de Taylor Swift) e Even the bad times. A primeira tem um ar inegavelmente Strokes, a segunda é indie rock gostosinho ultratexturizado.
MAGDALENA BAY, “HUMAN HAPPENS” / “PAINT ME A PICTURE”. Lançando uma série de singles novos enquanto o disco novo não chega, essa banda de artpop volta com o duplão Human happens / Paint me a picture, duas músicas de beleza ímpar, e clima celestial. “Aqui está mais uma dupla de músicas que se complementam — diferente da anterior, diferente da próxima”, contam os dois, dando a entender que vem mais por aí. Imaginal disk, o álbum mais recente deles, foi resenhado pela gente aqui.
SONORA feat OM, “SOL OSCURO”. Sonora é um projeto musical experimental, eletrônico e provocador vindo do Brooklyn (Nova York), cujas bases ideológicas merecem toda a sua atenção: “Meu trabalho parte de uma visão enraizada na libertação queer, no pensamento anticolonial e na justiça climática”, afirma. Sol oscuro, single novo, trabalha com o passado e o futuro do projeto, que já usou o nome artístico de OM, e é a anunciação sonora de um a partir do eco deixado pelo outro.
A nova faixa dura sete minutos e inicia com uma concepção sonora meditativa, para em seguida ganhar teclados hi-NRG e clima de pista. “A música é o ponto onde a semente do começo cede e inicia seu caminho para a forma, onde o estranho se reconhece ao sentir a pele passada como outra”, filosofa.
Crítica
Ouvimos: Jenny On Holiday – “Quicksand heart”

RESENHA: Entre luto e descobertas, Jenny On Holiday estreia com synthpop e dream pop oitentista em Quicksand heart, disco íntimo sobre vulnerabilidade e prazer.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Transgressive Records
Lançamento: 9 de janeiro de 2026
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“Coração de areia movediça” é uma boa metáfora para falar de profundidades sentimentais, ou de fragilidades, ou de perdas – e esses três temas surgem o tempo todo em Quicksand heart, estreia solo de Jenny Hollingworth, que faz parte da dupla de synthpop mutante Let’s Eat Grandma.
Jenny, usando hoje o alegre nome de Jenny On Holiday, passou por um acontecimento nada feliz em 2019: seu namorado morreu em 2019 de câncer ósseo. O luto chegou a fazer parte da lista de temas de Two ribbons, último álbum do Let’s Eat Grandma (2022), mas como ela própria disse num papo com o jornal The Independent, era preciso esperar até o momento em que o principal fosse se divertir fazendo música. Quicksand heart tem até um pouco de luto nas letras, mas boa parte do material fala de descobertas pessoais, tanto na vida quanto no sexo, no amor, no trabalho e em tudo que possa mexer com a vulnerabilidade.
- Ouvimos: Nastyjoe – The house
Musicalmente, Jenny abraçou tanto a mescla de synthpop e dream pop, com teclados cintilantes e vibe oitentista evidente, que é quase impossível não pensar em Kate Bush, Fleetwood Mac e The Cure ao ouvir o disco. Essa onda surge na abertura com Good intentions, dá as caras nos riffs de guitarra e baixo da faixa-título e na vibe saturada e sonhadora de Appetite – música que fala bem diretamente sobre apetite sexual feminino, culpa e autoestima.
Every ounce of me, Pacemaker e These streets I know usam teclados gelados para falar de um mundo gelado, em que o estresse acaba virando combustível e a melancolia pode inspirar atitudes e canções. O New Order mais baladeiro e tranquilo dos discos mais recentes dá as caras em faixas como a tristonha Dolphins, além das razoáveis Push e Groundskeeping.
Nem tudo funciona 100% em Quicksand heart e dá para dizer que a segunda metade do disco traz menos canções que conquistam de cara, mas Jenny compensa na ambiência das músicas e na verdade inserida nos vocais e nas letras. O “casamento consigo própria” da capa – e vale dizer que o Let’s Eat Grandma não acabou – vem funcionando.
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Crítica
Ouvimos: Julieta Social – “Julieta”

RESENHA: Entre caos e conforto, o Julieta Social estreia com um pop alternativo aberto a referências, letras afiadas e climas que vão do indie ao soul psicodélico.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Seloki Records
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Tem muito caos, mas também tem muito conforto no som do Julieta Social – uma banda/mini-coletivo de quatro integrantes, que sempre chama convidados para participar das gravações e tenta fazer com que sua sonoridade seja a mais aberta possível. Tanto que Julieta, o primeiro álbum, pode ser definido tranquilamente apenas como música pop, ou até como pop alternativo, que aponta para várias referências e busca não facilitar tanto as coisas para quem ouve.
- Ouvimos: Vá – Pra domingo (EP)
Julieta é o disco do single Casos de Colômbia, que assume referências de Radiohead e Chico Buarque, mas também mistura emanações de Arctic Monkeys e guitarras em clima de blues pós-punk. A faixa tem participação de Mariana Estol nos vocais, e uma letra que mete o dedo na ferida das expectativas que, muitas vezes, não representam nada (“nunca que você vai encontrar dentro do armário / algo lendário, é tudo vestuário / sabe aquela luz que a gente vê de madrugada / é quase nada, mas satisfaz a alma”).
Abrindo o disco, Casos de Colômbia serve de balizador para faixas poéticas como o soul psicodélico de Nuvem nua, o easy listening esparso de Dorme pra ver se me esquece, o pop rock radicalmente brasileiro de Quem nunca quis demais e Um tempo pra pensar – estas duas lembrando um pouco o som praiano de Lulu Santos e Charlie Brown Jr. Também cede espaço para a vibe sixties de Ce la vie e para o clima alt-disco de Como te dizer, que traz lembranças de Arctic Monkeys, Khruangbin e Mamalarky.
Do meio pro fim do disco, o Julieta Social aposta numa vibe indie-pop que tem muito de Tim Maia (Rubbish shuffle), em climas sonhadores e existenciais (Astronauta, Fome) e num bloco dançante com guitarra base e baixo à frente (Poodle marciano), que serve como demonstração de possibilidades instrumentais do grupo. Em meio a tantas ideias, o Julieta Social faz de seu primeiro álbum uma celebração das incertezas – e da beleza que nasce delas.
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Crítica
Ouvimos: Just Mustard – “We were just here”

RESENHA: Shoegaze fantasmagórico e gótico: o irlandês Just Mustard mistura ruído, poesia e psicodelia em We were just here, disco que foge de rótulos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Shoegaze e rock gótico são primos bem próximos, mas em vários momentos, é comum que bandas curtam misturar nuvens de guitarras e climas ensolarados – como se o sol fosse sair a qualquer momento. O grupo irlandês Just Mustard, que tem na voz de Katie Ball uma de suas maiores armas e atrativos, opera numa onda de shoegaze fantasmagórico, como se as microfonias e saturações servissem mais para confundir do que para explicar.
A opção da banda vem dando tão certo que eles já foram escolhidos pelo The Cure para abrir shows, e em We were just here, seu terceiro disco, escapam completamente de qualquer rótulo musical unindo vários elementos. Pollyanna, na abertura, poderia até ser uma canção do The Cure ou até do Jesus and Mary Chain: tem início ruidoso, bateria maquínica, teclados, ruído de vento – como se algo cobrisse tudo – e vocal doce, quase bossanovístico. A letra dessa música, assim como de boa parte do disco, é um primor de poesia e contemplação: “quando você vai brincar / onde os pássaros mais doces choram? / estou vendo, não sonhando / estou vendo, não sonhando agora”.
- Ouvimos: Equipe de Foot – Small talk
Não é escapismo, já que parece um doce encontro com a realidade. E que surge também na viagem sonora fantasmagórica de Endless deathless, no quase trip hop + shoegaze de Silver (cuja letra absolutamente psicodélica diz: “luzes prateadas dançando ao redor do seu rosto / não consigo acompanhar o ritmo”) e no dream pop tranquilo de Dreamer. Já a faixa-título é quase hi-NRG, dançante, com início eletronificado e synthpopizado, só que tudo bastante sonhador e psicodélico – encerrando com uma rajada de microfonia daquelas.
Uma ouvida com atenção no Just Mustard revela que o som deles tem bastante a ver com uma certa onda que tomou conta do rock inglês e norte-americano nos anos 1980. Foi quando de uma hora para outra começaram a falar em neo-psicodelia e várias bandas apareciam unindo climas pós-punk a vibrações bem sixties – bandas como Primal Scream, The Pastels e até mesmo o Jesus and Mary Chain tinham a ver com isso.
Essa onda surge no clima enevoado, quase como se você tivesse dificuldade para enxergar na neblina, de Somewhere. Também está no drone, que chega a lembrar uma orquestra se aquecendo, que toma conta de The steps. Por outro lado, We were just here é inteirinho baseado numa espécie de som de ferro rangendo, que aparece em várias faixas, e ganha mais espaço em Out of heaven, a última faixa. Um lado pós-punk também vai surgindo em canções como Dandelion e That I might not see. Essas faces, juntas e equilibradas, formam o clima sonoro de uma das bandas mais legais da atualidade.
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