Filha de Guilherme Arantes (e vocalista do pai em vários shows), Marietta lançou no fim de 2020 um segundo disco solo predominantemente eletrônico, que vinha sendo guardado por alguns anos e quase foi lançado justamente no mesmo 11 de março em que foi decretada a pandemia do novo coronavírus. Mesmo com a influências modernas, a cantora não pensou duas vezes em chamá-lo de Analógica. O contraste do título é proposital, diz ela.

“O nome sugere uma provocação, pela qual buscamos expressar profundidade. Tentamos com esse nome e com o conteúdo sintético e pessoal das canções do disco traduzir sentimentos ainda bem primitivos, antigos, e mal resolvidos por todos nós humanos”, conta ela, que tentou fazer isso numa linguagem simples, atual e tecnológica – e que se relaciona com a visão que ela tem da comunicação atual pelos meios digitais.

“Ela tá literal demais e até às vezes acomodada, mastigada demais, e nem sempre tão eficaz como se prega o imediatismo. Me agrada bastante ironizar e questionar sobre o fato de que ainda somos seres mega-avançados tecnologicamente só que com questões emocionais e evolutivas do tempo da onça”, conta ela, que diz estar tendo um isolamento bem intenso. “Tem sido bem complicada a vida das mães na pandemia, assim como a de todos, né? Mesmo assim tivemos que achar maneiras de desenrolar”, conta Marietta, que contou no disco com participações de Jorge Dubman (Dr. Drumah), Russo Passapusso (BaianaSystem) e até do pai.

ETAPAS

O material tinha sido todo feito para o álbum, com poucas exceções, como Suco e Chão de taco (que quase virou uma parceria com Luciana Oliveira no disco dela, A deusa do Rio Niger). No começo, Marietta achava que o disco seria terminado em poucos meses, mas  foram acontecendo várias coisas do dia a dia que atrasaram o trabalho.

“Nascimento, morte, separações e novas identidades no meio do processo. Eu mesma engravidei na gravação, e tive a Nara, que está com dois anos e onze meses. Foi uma gestação dentro da outra”, conta Marietta, que também seguiu as etapas comuns a uma produção independente, buscando parceiros, e depois uniu-se com a gravadora Ori Records. “A decisão de lançar agora é porque faz todo sentido soltar uma gota de alívio dançante num ano terrível pra maioria da população mundial”, diz.

BOOGIE E REGGAE

Uma boa parte do som de Analógica lembra bastante a fase boogie de Guilherme Arantes, do comecinho dos anos 1980 (Deixa chover, Aprendendo a jogar), especialmente em músicas como Na noite. Marietta diz que ama essa fase, e que várias canções do pai lembram momentos de sua vida.

“Além de trazer a genética e a responsabilidade gigante de respeitar um grande legado musical, eu herdei dele uma fulgurante inquietação pelo criar incessante. Uma tendência tácita a questionar, um total gosto pela melodia e talvez a vontade de ver as pessoas cantando”, conta ela, que com Guilherme aprendeu a ouvir Thelonious Monk, Clube da Esquina e Sly and family Stone, que lembram ter mudado sua vida pra sempre.

“Nada é garantido nem exatamente fácil, e por mais que haja uma curiosidade automática da mídia pelo meu trabalho, se eu não for original no som pra mim não interessa. Tenho uma longa caminhada independente das asas dele, bem relacionada a som de rua, e esse é um dos motivos que ele tem mais orgulho de mim”, completa ela, que começou aos 13 anos, tocando bateria e percussão. Fez parte do coral em grupos como Afetos e Olho Da Rua, e também era interessada na cultura do reggae.

“Com uns 17 compus uma música e aos poucos fui ficando mais à vontade. E na cultura jamaicana do soundsystem, onde a música tem uma prática mais espontânea, e você acaba criando muitas melodias. Acho que foi natural pra mim ir buscando um som”, recorda ela, que tem ouvido “muito som antigo” e artistas recentes como Livia Nery, Greentea Peng, Larissa Luz, Douglas Germano, Koffee, Curumin.

CAPA

O trabalho gráfico de Analógica tem também aspecto, digamos assim, analógico – com visual de quadrinhos, vários gatos e os nomes das músicas em meio ao desenho, feito por Sara Amor.

“A própria estética sonora do disco tem a ver com cortes, quadros, cenas que contam histórias para além da internet. E muitas faixas já sugerem símbolos como os gatos, a rua, a noite, a tempestade, cenários onde acontecem coisas, então nada mais justo do que um desenho com traço humano para retratar através do corpo. Bem analógico. A Sara Amor deixa seu trabalho falar por ela, é artista de energia explosiva que eu quis convidar pro nosso projeto, para amalgamar ainda mais”, conta Marietta.

Foto: Carla Arakaki/Divulgação

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