The rise and fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars, disco de David Bowie de 1972, é aberto por Five years. A canção mostra a missão que o personagem-título, um popstar alienígena e sexualmente ambíguo, veio cumprir na Terra: salvar o planeta do fim trágico – que deverá acontecer em cinco anos, daí o nome. No domingo (10), por sinal, completaram-se justamente cinco anos sem Bowie.

Tida por muita gente (entre eles, os jornalistas da Rolling Stone americana) como uma das melhores aberturas de discos de todos os tempos, Five years vai crescendo e se tornando mais desesperadora à medida em que a audição vai avançando. Como muitas letras compostas por Bowie, a de Five years não é exatamente clara nem conta uma história direta, e é cheia de cenas entrecortadas e referências. No começo, basicamente, ela trata da percepção de alguém (talvez uma criança) que vê as notícias na TV. O personagem observa “um repórter chorando” porque “a Terra estava realmente morrendo”, além de enxergar mulheres lamentando pelo fim do mundo.

A música segue com cenas que, juntas, parecem tão violentas quanto absurdas: uma garota que bate em suas crianças (filhos?) até quase matá-las, um soldado com o braço quebrado que “fixou seu olhar nas rodas de um Cadillac”. O mesmo caleidoscópio de imagens que tornava a vida da personagem de Life on mars? menos miserável, dessa vez é reduzido a vários objetos de consumo (“meninos, brinquedos, ferros elétricos e TVs”) e que dão dor de cabeça no narrador de Five years. Por sinal, o “my brain hurts” que aparece duas vezes na música era uma frase bem conhecida na cultura pop britânica dos anos 1970 – era o lema dos Gumbys, personagens do Monty Phyton Flying Circus.

Enquanto a audição de Five years vai correndo, o volume da faixa, por sinal, também aumenta bastante – até encerrar com Bowie berrando o nome da música, à maneira de John Lennon nos vocais de Twist and shout, dos Beatles. Por acaso, Peter Doggett, autor do livro O homem que vendeu o mundo – David Bowie e os anos 1970, faz questão de lembrar que muito dos arranjos minimalistas de Mother e God, de Lennon, inspiraram a composição e o arranjo de Five years. São composições em que a simplicidade da bateria e do piano ocupam bastante a atenção do ouvinte e dão o tom em quase todos os momentos, até o clímax.

Não custa lembrar que é altamente significativo que um dos discos mais conhecidos dos anos 1970 trate, justamente, da paranoia do fim do mundo. A década foi pródiga em finais de sonhos (John Lennon abriu as porteiras avisando que “não acreditava nos Beatles” em seu disco de estreia, Plastic Ono Band, por acaso o disco de God e Mother), em filmes-catástrofe, em produções cinematográficas que mostravam que o terror podia estar do nosso lado (O Exorcista) e em situações ameaçadoras. Houve pelo menos um astro pop que explorou o universo do terror (Alice Cooper) e um outro que fez da vida e da obra um teatro do absurdo (Iggy Pop).

Com quase cinco minutos, Five years podia ser considerada uma abertura de disco até anti-pop, mas servia para localizar o ouvinte na história de Ziggy e no que viria na sequência. Muito embora The rise and fall… até decepcione ouvintes que esperam uma ópera-rock certinha, com storytelling fechado. O disco parece mais uma obra muito aberta em que o ouvinte é instigado a usar a imaginação para completar certas partes.

O próprio Bowie fez questão de declarar na época que o disco traz “apenas algumas pequenas cenas da vida de uma banda chamada Ziggy Stardust e os Spiders From Mars, que poderiam ser a última banda na Terra – pode ser nos últimos cinco anos da Terra”. Aliás, no que dependesse de alguns críticos musicais de 1972, Bowie talvez não conseguisse o tão almejado estrelato. A revista Sounds dizia que o disco era “mal acabado” e “parecia fruto do trabalho de um plagiador consciente”.

Nos cinco anos de morte de David Bowie, Five years não passou pelo mesmo processo de redescoberta vivido recentemente por Sujeito de sorte, de Belchior – que hoje é a canção mais ouvida do cearense no Spotify. Heroes continua sendo a mais escutada de Bowie na plataforma. Five years não está nem entre as mais populares do artista. Starman e Moonage daydream, ambas igualmente de Ziggy Stardust, figuram entre as dez mais conhecidas.

Mas houve dois ressurgimentos dela nos últimos dias, marcando os aniversários de vida (no dia 8) e morte (no dia 10) do cantor. O primeiro deles: o Duran Duran, que se tornou conhecido explorando referências e mais referências de Bowie, escolheu justamente Five years para fazer uma cover (lançada justamente em seu aniversário) homenagear o cantor. Simon Le Bon, vocalista do grupo, aproveitou para dizer que sem Bowie ele não existiria musicalmente. “Minha vida na adolescência era toda focada em David Bowie. Ele é a razão pela qual comecei a escrever músicas”, contou.

E fechando um ciclo que já vinha desde quando Ziggy Stardust, o disco, chegou às lojas, a voz do próprio Bowie chegou às plataformas numa releitura de… Mother, de John Lennon. E num single encabeçado por outra releitura, a de Tryin’ to get to heaven, de Bob Dylan. A versão de Lennon foi feita ao lado do produtor Tony Visconti para aparecer num disco de tributo ao ex-beatle, em 1988, e só chegou a público justamente quando se passavam cinco anos da morte de Bowie. E quando Five years, que devia muito ao clássico de Lennon, ganhou outro sentido.

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