Crítica
Ouvimos: Ghost, “Skeletá”

Tem aquela velha piada do Anedotas do Pasquim que diz que um sujeito morreu, foi para o inferno e, chegando lá, foi recebido pelo coisa-ruim em pessoa – que o levou para um local onde rolava samba, pegação, praia, cerveja gelada e churrasco de graça. “Mas o inferno não era um lugar de sofrimento?”, perguntou o tal cara. “É tudo intriga da oposição!”, respondeu o demônio.
Piadas velhas à parte, o inferno como esse lugar aí – o lugar da alegria, da felicidade e do manual jogado no lixo – parece ser o ambiente ideal para o Ghost, um projeto que desde o começo, tratou de libertar o som pesado, o satanismo e as trevas do domínio dos fãs de metal. De repente, era possível que o metal tivesse a ver com The Cure, Depeche Mode, ABBA, Michael Jackson e nisso não viesse nenhuma ironia – como acontece na versão sarcástica que o Children Of Bodom fez de Oops! I did it again, da Britney Spears.
Skeletá, o sexto disco do grupo, causa uma impressão estranha, ou pelo menos causou em mim. Pela primeira vez dá para sentir que um disco do Ghost tem mais zoeira do que seriedade – não chega a parecer um disco do Massacration, mas tem algo ali que parece mais sarcástico que o normal. E é basicamente um disco de metal enfeitado e arenístico, com base em Journey, Danzig, Queen, ABBA e no rock finlandês (e comercialíssimo) do The Rasmus.
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Se você esqueceu essa última banda, talvez lembre que músicas como Sail away e No fear tocaram em rádio no Brasil lá pra 2005 – e o Rasmus parece ter entrado no caldeirão do Ghost em faixas como Peacefield, o metal certinho Marks of the evil one e Cenotaph (cuja abertura engana, dando impressão de que vem por aí um tecnopop). Lachryma é a cara do som pesado dos anos 1980, com letra de terror de HQ e peso e melodia no estilo do Queen. Satanized é um blues metal igualmente oitentista, com cara de tema de desenho animado. Já músicas como Guiding lights e De profundis borealis vão da berceuse metal ao metal clássico, com vibe bastante melódica.
O melhor e o mais curioso do disco fica para o encerramento, com Excelsis, uma balada-metal cuja letra fala sobre a morte como alívio – com versos que tinham tudo para serem bonitos e trazerem elevação espiritual, mas de alguma forma causam uma sensação estranha e um quase-sorriso de canto de boca. “É o fim da sua penitência / é o fim da sua tristeza e dor (…) / todo mundo vai embora um dia / eu sei que dói / todo mundo vai embora / você também, eu também”. Eita.
Nota: 7
Gravadora: Loma Vista.
Lançamento: 25 de abril de 2025
Crítica
Ouvimos: Rolimã – “Pior que eu tava de tão de boa que esqueci até que eu tava aqui”

RESENHA: Rolimã estreia com emocore de vibe nostálgica, no álbum Pior que eu tava de tão de boa que esqueci até que eu tava aqui – com dedilhados, memórias e variações que vão do dub ao shoegaze.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Downstage
Lançamento: 26 de março de 2026
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O Rolimã vem de SP, une várias sonoridades em torno do emocore e das lembranças do midwest emo e, no álbum de estreia, Pior que eu tava de tão de boa que esqueci até que eu tava aqui, fazem canções que juntam detalhes (cheiros, imagens, nomes, lembranças esmaecidas) para contar histórias.
2010, som com alguns dedilhados e vocal tranquilo – além de metais – fala em saudades da infância que chegam a doer nos dias de hoje (o nome da faixa vem do verso “não me peça pra sorrir como se eu fosse aquele cara de 2010”). Capim-limão põe um pouco mais de agito e uma cara mais próxima do emocore normal. Faixas como Conosquinho, Singular e nada calmo, Tudo certo (Nada resolvido) e Bão?, por sua vez, vão direto naquela fase em que o mundo ameaça e as coisas parecem rápidas demais.
- Ouvimos: Quedalivre – Seres urbanos
Caprichando em dedilhados que lembram bandas como American Football, o Rolimã ainda cai dentro do dub na vinheta Ursa menor e do emo baladeiro e pesado, com toques de shoegaze, em Retrato do Dr. Nepomuceno (os títulos das músicas são uma atração à parte) e Dos dias nublados que me perdi pensando na vida. No final, emo pop-folk em outra faixa de título inusitado, Quero picles. Boa estreia, com letras e músicas diretas.
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Crítica
Ouvimos: Wuzy Bambussy – “The ghost & the rhythm”

RESENHA: Wuzy Bambussy estreia com The ghost & the rhythm, disco de pop “fantasmagórico” que cruza jazz, folk, house e cabaré minimalista, em clima teatral e sombrio.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8,5
Gravadora: Independente
Lançamento: 23 de abril de 2026
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Tem algo meio “de terror” no som do Wuzy Bambussy, a dupla britânica formada pela vocalista Kat Harrison e pelo compositor e produtor Nikolai Jones. A estreia The ghost & the rhythm é um disco de pop fantasmagórico, com mais do que apenas um pé no jazz, tanto pelos vocais de Kat quanto pelas composições.
By candlelight, na abertura, é uma valsa folk que parece um Steeleye Span moderninho, seguida pelo B-52s deprê de The cold applause e pela house music + indie rock de Little lion – na verdade uma faixa com vocais de dance music e clima de indie rock, mas sem soar próxima de rótulos como indie dance e dance punk (muito menos).
- Ouvimos: Blood Wizard – Lucky life (EP)
Na real, após ouvir as nove faixas de The ghost, o Wuzy Bambussy soa mais como uma banda de musicais de bolso – uma coisa meio café-teatro, só que com programações eletrônicas. Tem até um r&b misterioso, Pale moon, que tem bastante de Fleetwood Mac, só que feito com minimalismo, para espaços pequenos. Late libation, definida pelo duo como “um brinde aos que sobreviveram e uma oferenda aos que partiram”, é uma dance music com discrição sonora – uma dance music jazzística, talvez.
Essa variedade aponta para uma espécie de alt pop de cabaré em Rendezvous, uma mescla de reggae e sons irlandeses em The path of least resistance e algo mais próximo do jazz-prog em Perpetuity. Rola até um aceno para Brian Eno no instrumental Go to bed ffs, vinheta que encerra o álbum. O Wuzy Bambussy ao vivo deve ser bem divertido.
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Crítica
Ouvimos: Weird Nightmare – “Hoopla”

RESENHA: No Weird Nightmare, Alex Edkins troca o noise do Metz por power pop melódico: ganchos, distorção e referências 60s/90s no ótimo álbum Hoopla.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 9
Gravadora: Sub Pop
Lançamento: 1 de maio de 2026
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O Weird Nightmare é basicamente o cantor e gutarrista Alex Edkins se afastando do barulho esmagador de sua banda original, o Metz (que está em hiato), e indo pra um lado bem mais melódico e direto. Com o Metz, o lance era ruído e beleza em alto volume, além de vocais gritados, em discos excelentes como Metz (2012) e Up on gravity hill (2024). O Weird Nightmare, por sua vez, existe por causa de bandas como Beatles, Replacements, Guided By Voices, The Who e até Go Go’s (!).
Traduzindo: o som é punk, power pop, new wave com peso, vocais e refrãos cheios de ganchos, distorção surgindo para “manchar” músicas altamente melódicas. Edkins, que trabalhou numa loja de discos antes da banda engrenar, parece ter se inspirado em sua própria história como ouvinte – e chega à sua melhor forma como autor até o momento no segundo disco da banda, Hoopla.
Além das bandas citadas, quem viveu os anos 1990 vai lembrar até de maravilhas pouco recordadas, como Terrorvision, em Headful of rain. E quem entrar na audição com o Metz na cabeça vai se surpreender com as melodias “pra cima” de faixas como Baby don’t, Might see you there e Never in style, power pop com mais ênfase no lado power da coisa.
Vai por aí o Hoopla, unindo referências em torno do barulho altamente melódico. Forever elsewhere une Replacements e The Cure no mesmo balaio, Bright light city soa como George Harrison + Byrds + punk e até uma vibe Roy Orbison surge em If you should turn away. No final, Where I belong tem elementos de The Clash, de Hüsker Dü e estilhaços de psicodelia nas guitarras.
Tem algo bem “perdido” nas letras do Weird Nightmare, como se Alex botasse no papel a própria experiência como autor de power pop. Ele mal consegue prestar atenção em nada em Pay no mind (uma total mistura de Replacements, Iggy Pop e Elvis Costello), luta para compor uma canção de amor em Headful of rain, vê beleza em coisas simples em Might see you there. Mas treina o olhar para ver um pouco de esperança em Little strange (“eu conheço algumas coisas que nunca morrem / eu conheço dias que nunca terminam / eu sei que está logo ali na esquina”), faixa com ruído digno de um ex-Metz e pegada beatle.
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