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Crítica

Ouvimos: Erasmo Carlos, “Erasmo Esteves”

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Ouvimos: Erasmo Carlos, "Erasmo Esteves"
  • Erasmo Esteves é o primeiro disco póstumo de Erasmo Carlos, que traz vinhetas com a voz do cantor, seu registro vocal em duas faixas do disco (A menina da felicidade e Esquisitices) e músicas feitas por outros compositores a partir de textos e rascunhos musicais de Erasmo. A produção é de Marcus Preto e Pupillo.
  • O disco traz as vozes de Chico Chico, Emicida, Gaby Amarantos, Jota.Pê, Marina Sena, Rubel, Russo Passapusso, Paulo Miklos, Sebastião Reis, Teago Oliveira, Tim Bernardes e Xênia França. Léo Esteves, filho de Erasmo, define o disco como “um álbum de estúdio, feito como se Erasmo estivesse aqui. Não é um tributo”.

Numa entrevista dos anos 1980, Erasmo Carlos declarou que o Natal lhe dava uma “alegria triste” – diferentemente do Carnaval, que provocava no Tremendão uma alegria alegre, de verdade. Erasmo Esteves, primeiro lançamento póstumo do cantor, é uma partícula dessa tal alegria triste da qual Erasmo falava. É um disco “novo” do cantor, o que já é louvável. Vem de um projeto original que havia sido iniciado em pessoa por ele – o de trazer a “jovem guarda do futuro”, com jovens sendo abraçados por Erasmo, conforme revelou Léo Esteves, filho do cantor, ao jornal O Globo.

É verdade que há pouco da voz dele no disco, o que já faz com que o álbum não seja a mensagem na garrafa que poderia parecer. Mas de alguma forma, Erasmo Esteves comunica-se com dois itens queridos da obra de Erasmo. Um deles: a trilha da novela O bofe (1972), toda composta por ele e Roberto, interpretada por outros cantores, e com resultados bem diferentes do que alcançariam se tudo fosse gravado por Erasmo e acompanhado por ele. O outro: 1941-1972 – Sonhos e memórias (do mesmo ano), disco art pop do cantor, repleto de sambas-rock, rocks pauleira e tons conceituais.

Isso porque no disco novo, Erasmo esqueleta canções do disco com voz e violão em quatro vinhetas (Minha bonita, Foi-se, Jaz malandro e Ouça tudo). Soam, na prática, como guias de Erasmo deixando as bases para como o álbum deveria ser feito, ou pelo menos como deveria ser entendido, ainda que refeito por outros compositores e cantores. E porque Erasmo Esteves tem como grande trunfo entregar variedade e liberdade na criação.

Essa liberdade acerta em cheio em vários momentos. De emocionar, tem A menina da felicidade, dividida com Gaby Amarantos, e uma das raras músicas a ter o registro da voz de Erasmo. Tem também o rock grudento Frágil uma música de Teago Oliveira feita a partir de um poema do cantor – por sinal, uma canção que poderia estar num disco dos Titãs e que tem lá suas semelhanças com o estilo de Sergio Britto.

O ex-titã Paulo Miklos, por acaso, colabora com outra bonita canção-feita-a-partir-de-esboço, Na memória dos caras tortas, cantada por Chico Chico num estilo que lembra o do próprio Miklos. Destaque também para a bela interpretação de Tim Bernardes em Minha bonita primavera, para o brilho de Jota.pê cantando Assim te vejo em paz (feita por Roberta Campos a partir de uma carta de Erasmo para a esposa Narinha) e para o soul gozador Esquisitices, com Marina Sena, apresentando mais um registro da voz do cantor.

Erasmo Esteves tem ainda a balada Que assim seja (Também distante), escrita por Nando Reis e interpretada por Sebastião Reis; o samba-rock-rap Erasmo Esteves (Tijuca maluca), com Rubel e Emicida, cuja letra detalha a trajetória do cantor; a balada Nossos corações, com Xênia França. Não são os momentos mais gloriosos do disco, mas como tudo do álbum, indicam que há mais por vir do baú do cantor. Tudo que ficou gravado com a voz de Erasmo, mesmo que seja apenas rascunho, como as vinhetas de Erasmo Esteves, merece ser ouvido. Aliás, o Brasil geralmente demora demais para publicar as maiores raridades dos acervos e baús de seus artistas…

Nota: 7
Gravadora: Som Livre.

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Ouvimos: T. Greguol – “E só”

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Resenha: T. Greguol – “E só”

RESENHA: T. Greguol troca jazz e experimentalismo por rock, MPB e crítica anti-IA em E só, disco curto, humano e quase pop.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 15 de maio de 2026

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Os dois discos anteriores do músico T. Greguol (Bum, de 2024, e Coisa, de 2025) eram uma mescla de jazz, experimentalismos que uniam música e matemática, e sonoridades bem diferentes dentro de uma mesma música. Já E só é um álbum bem curto (8 músicas, 16 minutos) e comparado aos anteriores, é quase um disco pop.

Com a ideia de fazer um disco de “música anti-IA, feita por gente, para gente”, e de “canções construídas a partir da presença, da imperfeição e da experiência humana”, Greguol focou nas letras e no canto, teve o material musicado por Lourenço Netto, e arregimentou músicos como Mari Crestani (baixo), Leandro TG Mendes (guitarra) e Vivian Benford (voz e percussão), para fazer um som que tem mais cara de rock e de MPB do que de jazz. E cujas letras têm filiação vanguardista, próximas de André Abujamra e Itamar Assumpção.

Agora é a hora, indie rock com peso nas guitarras, é uma música curta com vários segmentos – parece até maior. Metro (100 cm) é hard rock funkeado lembrando as medidas-padrão que interessam (“o metro do pop é os Beatles / o metro do tempo é a hora / o metro da vida é o dia / o metro humano é o que chora”). Reciclagem é rock com clima sombrio e meio latinesco, enquanto Xiplicix parece unir várias camadas sonoras em torno de um universo em que “todo mundo é auto ajuda / tá todo mundo numa seita / eu acho que todo mundo tá com medo / e com medo você topa tudo” (conhece algum mundo assim?).

E só tem ainda um lado mais pop-funk em Tchaptchura, e uma onda reggae +forró tropicalista em Ser ou não ser – música cuja letra ensina que nem todos os coaches do mundo podem ensinar certeza e personalidade (“não dá pra comer pizza / usando uma caneca / não dá pra ser se lhe / o que não se o é”).

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Ouvimos: Social Distortion – “Born to kill”

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Resenha: Social Distortion – “Born to kill”

RESENHA: Social Distortion acerta em cheio em Born to kill: punk, country e rock de bar num disco sombrio e melodioso.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 8,5
Gravadora: Epitaph
Lançamento: 8 de maio de 2026

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Uma vez fui entrevistar uma dupla sertaneja e, acho que por causa da camisa que eu estava usando, começamos a falar sobre rock. Papo vai, papo vem, me peguei recomendando pra eles uma audição no Social Distortion. Que é, como os fãs sabem, uma banda punk californiana que faz uma nada improvável mistura de punk e country, mas sem recorrer a zoeiras como o cow punk.

O som deles tem tristeza, vida marginal, excessos, passado cadeeiro, melodias que parecem vir de uma canção tradicional, e pode facilmente ser confundido com a onda pop-punk – aliás, foi confundido, tanto que não houve época mais apropriada para a banda conquistar de vez a geração MTV do que com o disco White light, white heat, white trash (1996), repleto de canções luminosas e entristecidas (é o disco de I was wrong e When the angels sing, únicas músicas do SD que muita gente aqui no Brasil conhece até hoje).

Loucura: o SD é da geração dos Sex Pistols (surgiram em 1978), mas tiveram vários hiatos, causados pelo vício em heroína e pela prisão do vocalista Mike Ness. Born to kill, disco novo deles, é o oitavo (e constantemente adiado) álbum da banda. Hoje o som deles fica a meio caminho entre Iggy Pop e Bruce Springsteen, chegando perto do hard rock em alguns momentos, como na faixa-título – música de guitarras ótimas, que combina diversão e revolução – ou em No way out, canções que aperfeiçoam um fórmula que já existia no som deles há 30 anos.

O lado mais country do Social Distortion surge em faixas como Tonight ou na canção de bar Crazy dreamer (com participação da lenda do country rock Lucinda Williams), e acaba sendo até menos atraente em Born to kill do que a faceta mais desbragadamente rocker. Como em Partners in crime, som de peso e de marginalidade, e o power pop com maldade de Over you. Agora, aqui tem Don’t keep me hanging on, uma música que parece Elvis Presley aderindo ao punk, e na qual a receita country-punk surge bem azeitada.

Na segunda metade de Born to kill, aliás, surgem outras faixas que marcam diferenças no som do grupo: Never goin’ back again soa como Black Sabbath aderindo ao country-blues, Walk away (Don’t look back) é um boogie rock que deve tanto ao Clash quanto ao AC/DC e… olha, o SD gravou Wicked game, do Chris Isaak, e pode crer que ficou melhor que aquela versão glam metal do HIM. Sabe-se lá se o Social Distortion vai lançar um disco novo tão cedo, então aproveite Born to kill.

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Ouvimos: Lip Critic – “Theft world”

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Resenha: Lip Critic – “Theft world”

RESENHA: Lip Critic mistura punk, noise, industrial e rap eletrônico em Theft world, disco caótico nascido de um caso real de roubo.

Texto: Ricardo Schott

Nota: 9
Gravadora: Partisan Records
Lançamento: 1 de maio de 2026

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Se o que você esperava era algo que combinasse o ruído sombrio do Suicide, a vibe punk de bandas como Gang Of Four e Buzzcocks, a estranhice do Wire, a onda industrial-eletrônica do Nine Inch Nails, o impulso destrutivo de bandas como Atari Teenage Riot e a porradaria falada de Death Grips e Paris Texas, vá sem medo ao som do Lip Critic e a seu segundo álbum, Theft world.

O grupo de Danny Eberle, Bret Kraser, Connor Kleitz e Ilan Natter tem também muito das vibrações experimentais do Cabaret Voltaire – por sinal, o próprio nome “Lip Critic” vem de mergulhos no dadaísmo e na combinação de palavras aparentemente imiscíveis. Agora, a disposição para tirar música de situações absolutamente inusitadas que o grupo tem, é que pode MESMO servir de modelo para bandas novas.

Pra começar, a banda vinha trabalhando num segundo disco antes de bolar Theft world, mas o trabalho não engrenava. Enquanto quebravam a cabeça e continuavam a turnê do debute, Hex dealer (2024), o vocalista Bret Kraser descobriu que suas informações pessoais haviam sido roubadas por um fã da banda, que já tinha feito várias compras em seu nome. O sujeito havia comprado até a discografia completa da banda no Bandcamp.

  • Ouvimos: Adult Leisure – The things you don’t know yet

Em vez de chamar a polícia, a banda simplesmente localizou o meliante e marcou um encontro com ele – surpreendentemente, o cara apareceu. No papo com o grupo, ele disse acreditar que o Lip Critic estava escondendo mensagens codificadas em suas músicas como parte de uma elaborada caça ao tesouro. O resultado é que todo o material de Theft world (“mundo do ladrão”) veio das gravações do bate-papo com o tal cara – e se você já achava o Lip Critic estranho, o novo disco parece esconder nas letras uma tese maluca que poderia ter sido bolada por Charles Manson.

Esse caos todo já surge na primeira faixa, Two lucks, música de ruído eletrônico e meio assustador, que oscila entre o eletropunk e um samba a la Suicide (!), enquanto Jackpot faz um rap eletrônico usando ruídos de videopôquer, com uma letra que parece uma ode à loucura (“tentei por muito tempo deixar isso para trás / deixá-lo de lado / expulsá-lo, eu preciso disso / essa parte de mim”).

Tem punk eletrônico e porradeiro em faixas como Debt forest, o eletrocore My blush (Strength of the critic) e Yard sale (230 take). Mas o Lip Critic é bem mais inventivo do que apenas “pesado”, aderindo a um eletrocore + trip hop em Talon, aproximando-se do drum’n bass em Charity dinner e Legs in a snare e criando uma onda afropunk na hipnotizante Drumming with Izzy.

As letras não são exatamente diretas, mas o batidão eletrônico de Shoplifting soa como um “já no primeiro roubo ele dançou” adaptado para o dia a dia de quem afana objetos em shoppings (“saboreio o que conquisto, não quebre meu feitiço / primeira vez que senti esse peso e caí direto na gaiola, eu poderia criá-la sozinho”). Tirar poesia de coisas ruins, é algo que muita gente já fez – agora, fazer poesia com o prejuízo financeiro, acho que só vi aqui.

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