Crítica
Ouvimos: Cumbuca, “Cumbuca” (EP)

- Cumbuca é o EP da banda paulista de mesmo nome. O grupo é formado por Deco Gontijo (vocal, guitarra, violão e sintetizador), Henrique Borto (vocal, guitarra e sintetizador), Júlio Madella (bateria, vocal e percussão) e Toni Morais (baixo).
- “Começamos como quatro amigos querendo apenas tocar juntos Mistério do planeta, dos Novos Baianos. Naquela época, não tínhamos nenhuma ambição maior, mas as composições surgiram e fomos nos percebendo como uma banda autoral de fato. Uma das principais motivações vem de observar uma cena atual muito rica do rock nacional e, esperançosamente, poder fazer parte dela”, conta Henrique.
- “As faixas do EP mostram um pouco de tudo o que a banda é capaz de fazer, mesmo sem uma coesão total. Para esse EP, pensamos em apresentar as nossas referências de forma mais crua e direta”, diz Deco.
Se o EP do Cumbuca fosse lançado em vinil, com lado A e lado B dividindo suas quatro faixas, daria para sentir bem mais claramente duas faces da banda. No primeiro lado, Meus problemas e Descanso revelam um espírito indie rocker que passeia entre o despojamento lo-fi do Pavement e a vibe contemplativa do dream pop. Descanso começa com guitarra limpa, e logo desemboca em algo mais próximo do punch melódico do Dinosaur Jr, influência assumida pela banda – ainda que sem o mesmo peso da banda de J Mascis.
No lado B, a história muda. Passear na praia começa como um samba-rock acústico na linhagem de Jorge Ben e Gilberto Gil, chega perto do forró-rock raulseixista, mas acelera e se aproxima da energia crua do punk. Já Resolução abre com um clima de bossa-rock e, aos poucos, incorpora elementos do indie e do pós-punk, com baixo econômico lembrando Pixies. Um primeiro passo promissor, costurado por um fio condutor essencial: a vontade de explorar.
Nota: 7
Gravadora: Independente
Lançamento: 5 de fevereiro de 2025.
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Crítica
Ouvimos: Kamikaze – “X me out” (EP)

RESENHAS: Kamikaze, duo alemão, mistura pós-punk e krautrock em EP cru e estranho: riffs minimalistas, dreampop e letras desencantadas sobre erros e sonhos.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Independente
Lançamento: 30 de janeiro de 2026
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Essa dupla de Düsseldorf, Alemanha, não parece disposta a facilitar o trabalho para quem busca o som deles nas plataformas – já que você vai ter que buscar por “kmikazemusic” no Spotify, por exemplo. O som, por sua vez, é uma mistura de pós-punk e krautrock, com arranjos conceitualmente desafinados (às vezes) e a busca por um pop ruidoso e soft, se é que é possível.
- Ouvimos: Anika – Abyss
Vai daí que o Kamikaze é uma banda em busca da turma que curte sons estranhos: X me out, faixa-título do EP deles, tem um riff minimalista que lembra White Stripes enxertado (e repetido diversas vezes) num pós-punk prestes a disparar. Stop the sky é um pós-punk de guitarras limpas que renderia bastante com uma produção melhor – mas a vibe de demo do EP acaba ajudando a desencantada Hell, na qual Jessi (voz e guitarra) põe a turma da palestrinha pra correr (“meus erros são todos meus / você acha que conhece todos, mas não sabe de nada / não pode me falar sobre nada / você nem conhece o inferno”).
Dreamland, dream pop com guitarras circulares que lembram Smiths e The Sundays, encerra o disco com vocais quase falados e clima que vai do sonhador ao assustador: na letra, Jessi diz que os sonhos a fazem rir, a fazem chorar, e que ela dorme o dia inteiro e sonha à noite. Só que… “agora meus sonhos apavoram meus próprios sonhos / pode me dizer o que eles significam? / estou cansada dos meus sonhos / não sei o que fazer para realizá-los”. Eita.
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Crítica
Ouvimos: Barbarize – “Manifexta”

RESENHA: Barbarize estreia com Manifexta: manguebit + funk e Carnaval, protesto festivo, identidade e crítica social, com Fred 04 e ecos de Chico Science.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 8
Gravadora: Selo Estelita
Lançamento: 24 de outubro de 2025
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Bárbara Vitória e YuriLumin, os dois integrantes do Barbarize, fazem música festeira, mas propõem algo diferente: a dupla mexe profundamente com o legado do mangue bit, de Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e outros nomes que fundaram o estilo. Também se responsabilizam pelo que chamam de “música de protesto com glitter na cara”, sons de Carnaval que marcam presença pela afirmação pessoal e identitária, em meio à celebração.
Manifexta, o primeiro disco, abre com uma saudação para Exu (Exu) e com uma outra vinheta (MNFEXT) em que guitarras distorcidas unem-se a um batidão herdado do funk. O assunto começa de verdade em Mangue, que reverencia Chico Science e Josué de Castro (autor do guia do manguebit, Geografia da fome) com participação de Fred 04 (Mundo Livre). E fala de um problema que sempre foi a cara do Brasil: a convivência entre áreas de gente muito rica e favelas, lado a lado.
- Ouvimos: Àttooxxá – Tá pra onda / BaianaSystem – Mixtape pirata vol. 1
Essa onda dúbia, onde dois lados convivem – harmonicamente ou não – é a cara de Manifexta, cabendo as capotagens do mundo em Mundo gira, a união entre beleza e barra pesada no Recife em Aquitaquente, amor, sexo, correria e afirmação convivendo em faixas como Oi, sumido, Pararatibum, Imagina e Boom boom. Além de Fred 04, surgem outros convidados como Lino Krizz, Xis e até Louise, filha de Chico Science, no reggae Jah amor.
Referências musicais que unem tambores de candomblé, sons do mangue e até climas psicodélicos vão surgindo faixa a faixa, dando a Manifexta um caráter de mixtape retropicalista, fechando com o soul-rap nordestino de Mangue boogie. Som de gente feliz, e clima de festa surgida em meio à luta.
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Crítica
Ouvimos: Twen – “Fate euphoric”

RESENHA: Twen lança Fate euphoric de forma DIY: indie dançante entre pós-punk e sophisti-pop, letras sobre destino e vida nômade no underground.
Texto: Ricardo Schott
Nota: 10
Gravadora: Twenterprises
Lançamento: 4 de novembro de 2025
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Jane Fitzsimmons e Ian Jones, núcleo duro da banda Twen, curtem fazer as coisas do seu jeito. Fate euphoric, novo disco do grupo de Nashville – lançado no ano passado e uma boa opção para quem ainda não fechou a lista de melhores álbuns de 2025, tipo a gente – foi lançado numa terça, dia 4 de novembro, e não na concorridíssima sexta-feira. Mas só para tornar a coisa um pouco dramática, 4 de novembro é dia de eleição nos Estados Unidos, o que significa que o álbum do Twen teve um concorrente pesado (e alaranjado) na imprensa.
No Bandcamp, eles se apresentam como “sua dupla favorita de faça-você-mesmo, que curte a vida em uma van” (eles passaram vários anos levando uma vida nômade, viajando por conta própria para divulgar o grupo). Um papo com eles no site The Big Takeover revela que Jane e Ian sequer têm assessoria de imprensa – os fãs ficaram sabendo do lançamento de Twen por um e-mail enviado pelo Bandcamp, embora sites como o Stereogum e o Pop Fantasma (alá!) tenham dado o lançamento do alegríssimo clipe de Tumbleweed, uma das melhores faixas de Fate euphoric.
- Ouvimos: PVA – No more like this
E aí que Fate euphoric, lançamento da própria gravadora indie montada pelo grupo, é – por acaso – um disco cujo tema é o destino, e cuja inspiração é o símbolo medieval da Roda da Fortuna (que aparece na capa). O som é energético e dançante, localizado entre os anos 1980 e 1990, e entre lembranças sonoras que incluem Beatles, Primal Scream e Talking Heads. Além de uma noção sophisti-pop que parece herdada de Roxy Music, The Cure e até de Swing Out Sister. Sobre essa última banda, confira só a beleza e o suíngue jazz-pop-rock de Godlike, canção em que a banda abre o diário de bordo e comenta sobre viagens de van, shows e lutas diárias: ”acho que me daria bem como um assalariado / com tudo o que verei e tudo o que farei / eu poderia ir o mais rápido que pudesse, mas tudo está em um ciclo”).
Todo o repertório de Fate euphoric está coberto de uma beleza pós-punk, que volta e meia alude aos grupos mais ruidosos da época (como na funkeada Chase you, repleta de lembranças de Talking Heads e Gang of Four) ou a climas voltados para o punk (o single Tumbleweed, Prelude to Waterloo). Há outras “conversas musicais” no disco, como no soft rock indie de Keep your company, na vibe “fantasmagórica” de Allnighter e no dream pop chuvoso (e absolutamente cantarolável) de The center.
O final de Fate euphoric bate fundo na onda britpop, vibrando entre Rolling Stones, Beatles e Stone Roses na faixa-título e na bela Starmaker. Do começo ao fim, por sinal, Fate euphoric é um tratado sobre começos e recomeços no mundo independente, encerrando com um verso que encara a jornada da maneira mais realista possível: “a vida, quando ela não é o suficiente / você volta ao ponto de partida”. Beleza e vida, em letra e música.
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